Da estratégia de estudo de caso faz parte a obtenção de dados descritivos mediante contato direto e interativo do pesquisador com a situação objeto de estudo (GODOY, 1995), utilizando-se diversas fontes de evidências (YIN, 2006). Neste estudo, empregamos entrevistas com diferentes stakeholders internos, observação não participante e documentos. Godoy (1995) orienta que façamos uma apreensão mais completa do fenômeno do estudo, enfatizando várias dimensões em que ele se apresenta, assim como o contexto em que se situa. Por isso, buscamos vários escritos que contavam histórias e momentos vivenciados pelas indústrias no Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira. Também o filme produzido em comemoração aos 100 anos e a fanpage11
da comissão do Centenário da Porcelana de Pedreira serviram como fonte rica para conhecer a realidade vivida pelo segmento da porcelana. Para informações diretamente relacionadas à Sonho Meu, acessamos site institucional e página de relacionamento da empresa, fontes importantes para conhecer algumas características da organização, antes mesmo das entrevistas e observações.
A entrevista mostra-se como um dos instrumentos de coleta de dados mais adequado quando se realizam estudos de caso (MERRIAM, 1998; GODOY, 2006; YIN, 2006), como é o caso da pesquisa aqui proposta.
Merriam (1998) fala-nos que o nível de estruturação de uma entrevista pode variar num contínuo entre a entrevista estruturada e a entrevista não estruturada. Inicialmente, foi feita uma entrevista em profundidade com o fundador da Sonho Meu para conhecer a história dele e da empresa, que permitiu-nos ter uma ideia dos momentos de crises e problemáticas
10A pesquisa qualitativa, tal como proposta aqui, considera que “a realidade social é uma construção dos sujeitos
mediante interação com outros membros da sua comunidade” (FLORES, 1994, p. 24). Como orienta Denzin e Linconl (2006, p. 39) nesses casos, “materiais empíricos é o termo escolhido para o que normalmente se descreve como dados”, optamos por chamar esta seção de construção de material empírico e não coleta de dados como é comum nos trabalhos científicos.
vivenciadas pelos e com stakeholders. Esta entrevista aconteceu em outubro de 2013 e foi gravada com o consentimento do fundador, que assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE.
Em seguida, meados de novembro de 2013, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os dois filhos que trabalham diariamente na Sonho Meu. Entre final de novembro e dezembro de 2013 foram entrevistados funcionários de diferentes áreas e tempo de organização, com ênfase nos mais antigos, uma vez que se buscou entender as práticas construídas pelos stakeholders no decorrer da história da empresa. Da mesma forma, as entrevistas foram gravadas com o consentimento do participante.
No momento da análise e interpretação dos resultados, já no início de 2014, foram feitas mais algumas entrevistas, duas delas realizadas com a funcionária aT12
, a mais antiga do administrativo e outra com o filho do fundador, então responsável pela produção, para esclarecer algumas dúvidas e incoerências nos relatos iniciais. Para últimos detalhes, voltamos à empresa para uma entrevista final também com o fundador, totalizando 13 entrevistas com nove entrevistados, caracterizados no Quadro 3.
O roteiro de entrevista tomou como referência o estudo de Domenico (2007) e contemplou os seguintes pontos:
Quando e como o entrevistado começou a trabalhar na empresa Sonho Meu; Responsabilidades e atividades diárias do entrevistado;
Relacionamentos do entrevistado com outros stakeholders (fundador, colegas/pares, representantes comerciais, clientes, fornecedores, funcionários do banco, comunidade, etc.) dependendo da atividade, principalmente em situações problemáticas;
Momentos marcantes no ambiente organizacional, positivos e negativos;
O que no passado existia ou não existia e deixou de existir ou passou a existir e foi/é bom/ruim.
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A Funcionária aT se desligou da empresa no decorrer da pesquisa, alegando não ter reconhecimento profissional. Mesmo após a saída atendeu todas as solicitações e dúvidas por nós expressadas. Das duas entrevistas realizadas em 2014, uma ela ainda estava como funcionária e outra como ex-funcionária da Sonho Meu. A última entrevista não foi gravada, a pedido da participante.
Quadro 3 - Relação dos entrevistados Denominação do entrevistado Área Cargo exercido em mar/2014 Idade
(anos) Escolaridade Sexo
Tempo na empresa até
mar/2014 (anos) Fundador Direção comercial Diretor 57 completo Superior masculino 27
Filho Produção Gerente de produção 29 incompleto Superior masculino 18
Filha Administrativo financeiro Gerente 20 cursando Superior feminino 6 Funcionária aT Administrativo Supervisor 27 Superior completo feminino 7 Funcionária aN Administrativo Assistente financeiro/RH 20 Ensino técnico feminino 2 Funcionária aM Administrativo Assistente de compras/ vendas 21 Ensino médio feminino 2 Funcionário pR Produção Supervisor de estampagem 29 Ensino técnico masculino 10 Funcionária pL Produção Líder do acabamento e esmaltação
42 Ensino médio feminino 16 + 1 *
Funcionário
pW Produção Estampagem 45
Ensino
fundamental masculino 21 Legenda: *Trabalhou no período de 1995 a 2001, quando foi demitida. Em 2013 foi recontratada, começando um novo tempo de serviço.
Fonte: Dados da pesquisa
Buscamos em todas as entrevistas relatos de momentos marcantes e situações vivenciadas ou conhecidas pelos entrevistados que mostrassem as interações com stakeholders no dia a dia, principalmente na resolução de problemas ou situações de conflitos, quando as práticas organizacionais se revelam e/ou são postas à prova, permitindo a apreensão dos valores relativos à competição organizacional a elas subjacentes (DOMENICO, 2007).
Em relação à observação não participante, Marconi e Lakatos (2007) explicam que o observador não interage com o objeto de estudo no momento da observação, que se dá no próprio ambiente natural de vida dos observados. A cada visita à empresa, entrevista ou reunião na qual foi permitida a participação da pesquisadora, fez-se esse tipo de observação,
empregando um diário de campo para registrar sistematicamente as ocorrências e reflexões do momento. A atenção estava no relacionamento das pessoas, falas e conversas que revelassem conflitos enfrentados no dia-a-dia, as roupas, layout e disposição de máquinas e objetos que tivessem algum significado.