De acordo com o aristotelista João Hobbus, existe hoje um interesse renovado acerca das virtudes que, provindo da ética grega, busca renovar “as ideias de felicidade, caráter, de como devemos viver, e do que é realmente uma vida boa” (HOBBUS, 2011, p. 07).
A eudaimonia, por tratar-se de uma atividade da alma racional segundo a virtude, pode ser vista como algo digno de louvor e capaz de enobrecer o homem.
216A concepção da existência de uma ‘dupla moral’ pode ser desmentida em razão de Aristóteles, já
no seu livro VI nos fazer pensar na virtude como “ligada a uma vida sublime, muito além da esfera da vida e dos bens humanos” (Cf. PAIXÃO, 2002, p.21), por tratar de “coisas notáveis, admiráveis, difíceis e divinas, mas improfícuas” (EN, VI, 7, 1141b 5-10). Tal passagem, na opinião de alguns comentadores, anteciparia a visão aristotélica de ser a eudaimonia um bem dominante, questão essa que será devidamente desenvolvida no item 3.2.1 deste trabalho.
Esta, mesmo sendo caracterizada pela sua perfeição e autossuficiência, para ser adquirida, necessita da prática das virtudes217 éticas ou dianoéticas, pois, como já foi
afirmado a eudaimonia, constitui-se em uma prática em relação ao sumo bem desejado pelo homem que, em razão de sua dupla natureza (moral e intelectual), e da necessidade de viver em comunidade, que o caracteriza, para ser capaz de exercer a sua função própria e, assim, atingir o seu télos, “necessita também das coisas que facilitam a vida humana” (EN, X, 8, 1178b 5-10).
O primeiro tipo de eudaimonia, possível apenas mediante a prática das virtudes éticas, é considerado como acessível à maior parte dos cidadãos, pois, mesmo que o homem não nasça virtuoso, já que a virtude propriamente dita não é natural, é possível que ele assim se torne, através da prática reiterada das ações excelentes, que são aquelas que estabelecem a justa medida como seu parâmetro último naquilo que concerne às paixões provenientes das sensações e das ações naturais ao homem (PICHLER, 2004, p. 139).
De acordo com Aristóteles, a importância das virtudes se deve ao fato de que nenhuma função humana desfruta de tanta permanência como as atividades virtuosas, que são consideradas mais duráveis do que o próprio conhecimento das ciências. E as mais valiosas dentre elas são mais duráveis porque os homens felizes de bom grado e com muita constância lhes dedicam os dias de sua vida; e esta parece ser a razão pela qual sempre nos lembraremos deles (EN, I, 10, 1100b 10- 20).
No que diz respeito à eudaimonia, considerada em seu aspecto mais perfeito, apesar de o homem procurar realizá-la no mundo imanente, sujeito às contingências que o caracterizam, o seu fim é o mundo divino que busca atingir através da contemplação das verdades imutáveis. Nessa empresa, os homens deverão ser orientados pela virtude da sabedoria, alcançável apenas por uns poucos cidadãos que, graças a um saber conquistado no decorrer de suas vidas, lograram alcançar o mais alto patamar na pólis em que vivem.
Nesse empreendimento, que consiste na busca da felicidade, apesar de constatar a existência de dois tipos de virtudes, as práticas e as intelectuais, Aristóteles (a despeito de em determinados momentos considerar a vida das
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Conforme o aristotelista João Hobbus, “na base de toda construção ética aristotélica está a virtude” (Cf. HOBUSS, João. Eudaimonia e Auto-Suficiência em Aristóteles. Coleção Dissertatio Filosofia, Pelotas: Ed. Universitária/UFPel, 2002, p. 08)
virtudes morais como uma espécie de felicidade secundária) admite que esse tipo de vida é capaz de realizar o fim último “da ciência política, que é o bem do homem, o bem da alma, a vida boa e bela na pólis” (PICHLER, 2004, p.139).
Esse tipo de eudaimonia alcançada através do hábito tem, nesse hábito, “a pedra de toque de um caminho que poderá ser ou não ser trilhado” (PAIXÃO, 2002, p. 77). Nesse caso, de acordo com a maior parte dos estudiosos218 de Aristóteles, a felicidade adquirida, apesar de hierarquicamente inferior àquela conquistada em sua forma mais pura, não se exclui da eudaimonia no seu sentido mais forte, pelo contrário a complementa e lhe é necessária. Isso porque as ações que consideramos justas e generosas não seriam assim compreendidas fora do contexto humano219, uma vez que “a imortalidade isolaria o deus da intensidade da coragem mortal, da beleza da ação justa ou generosa. [...] eles anseiam pelos amores e aspirações mais arriscados dos mortais. [...] são atraídos à virtude do ser limitado, o vivaz e tenso esplendor da excelência humana dirigida, contra a oposição, a um difícil desígnio”.Nesse sentido, para a autora, Aristóteles “insiste que o bem só se faz aparente dentro dos limites do que uma criatura é, e que necessidade pode ser constitutiva da beleza” (NUSSBAUM, 2009, p. 298).
Diante dos objetivos propostos nesse capítulo, é necessário empreendermos os nossos estudos na direção da investigação da eudaimonia vista como bem supremo. Tal tipo de felicidade, à qual Aristóteles se refere em seu Livro X,
218 A possibilidade de conciliação entre a felicidade ética e dianoética é defendida por aristotelistas
como Marco Zingano, João Hobbus, Márcio Petrocelli Paixão, Nadir Antônio Pichler, Idalgo Sangalli,
Patrícia Spinnelli, entre outros, que se posicionam como partidários do sumo bem como predicado dos bens em geral. Por outro lado, existem aqueles que, a exemplo de Martha C. Nussbaum, Osvaldo Guariglia, Henrique Lima Vaz, Giovanni Reale avaliam as duas espécies de felicidade como inconciliáveis entre si, e, portanto, incoerente a unidade pretendida entre elas. Tal unidade é vista por esses autores como impossível, por tratar de mundos diversos, um relacionado ao mundo terreno, e outro relacionado ao mundo místico habitado pelos deuses. Para eles, a eudaimonia pode ser vista como um “corpo estranho e inconciliável” (Cf. PICHLER, 2004, p. 127) com a teoria ética defendida por Aristóteles na maior parte de sua obra. Dessa maneira, existiriam duas éticas que tratariam de duas formas de felicidade distintas, cada uma realizável conforme seu próprio plano de ação. Outros autores, a exemplo de Maritain, sendo menos radicais, consideram que, apesar de serem diferentes, as duas formas de felicidade existentes apontam para uma possível conciliação, pois, “nem o filósofo é um puro contemplativo, nem o homem de Estado é um puro ativo”, assim, “essas duas atividades, cada uma em seu plano, fazem parte integrante da felicidade” (Cf. MARITAIN, 1973, p. 64).
219 Se nos fosse possível conceber a vida de um ser divino e sem carência de nada, verificaríamos
que a maior parte da
s virtudes humanas não teria valor e nem mesmo seria compreensível nessa espécie de vida. Nesse sentido, Aristóteles afirma que “assim como um bruto não tem vício nem virtude, tampouco os tem um deus; seu estado é superior à virtude, e o de um bruto difere em espécie do vício” (Cf. EN, VII, I, 1145a 25-30). Por esse motivo o homem, diferentemente dos deuses, “enquanto homem que vive no meio de outros homens, ele escolhe a prática dos atos virtuosos: por conseguinte, necessita também das coisas que facilitam a vida humana” (Cf. EN, X, 8, 1178b 5-10).
considerada como capaz de, em alguns momentos, aproximar o homem do divino do qual participaria, seria acessível a uns poucos privilegiados que, mediante a contemplação, a atingiriam. Nesse momento, por não conseguir vislumbrar um limite para o poder do intelecto humano, podemos considerar que Aristóteles reaproxima- se de seu antigo Mestre.