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Segundo Seren (2011), o consumo é uma forma fundamental de construção das identidades na contemporaneidade, e dos processos de significação na sociedade capitalista. A principal necessidade do consumo enquanto sistema de significação é a simbólica: “Todo consumo é uma produção de significado e um discurso de demarcações sociais” (SEREN, 2011, p. 58).

Nas observações, encontrei os seguintes dados sobre música e consumo: “No 2º andar há uma exposição de trabalhos do 2º ano Fundamental com o tema ‘Era uma Vez’. Há umas caixinhas com trabalhos dos meninos, e um painel de fotografias deles, vestidos de personagens de contos de fadas, de super-heróis do cinema” (O SM 7).

O tema escolhido foi cinema norte-americano. Cada turma de meninas, desde as menores do ensino fundamental até as do médio apresentavam uma coreografia inspirada em um filme da Disney. A abertura e algumas cenas dos filmes eram projetadas num telão no palco. As roupas faziam referência ao tema ou a personagens, e pareciam muito bem confeccionadas. Cada número começava com o tema musical principal de cada filme, como introdução, e depois começava uma música americana, cantada em inglês, rápida e bem forte, ao estilo de balé moderno, e a partir daí desenvolvia-se a coreografia típica desse tipo de dança (O SM10).

Lahire (2006) considera a escola como a instituição por excelência capaz de formar gostos culturais e impor seus julgamentos nessa área, mais do que outras instâncias como a mídia, por exemplo. Pelo que vi e descrevi dos eventos acima, pode-se perceber que a escola particular, nesse campo, optou por produtos culturais muito presentes nas mídias, tais como personagens e músicas do cinema americano, da Disney, vistos nas roupas, coreografias escolhidas para apresentar aos pais e comunidade escolar, ou seja, a escola não produz muita diferença se comparada a outras mediações. Essa opção de oferta cultural feita pela escola não representa ampliação cultural para seus alunos, uma vez que eles já recebem esse tipo de repertório por meio das mídias. Dessa forma, a instituição perde a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento do gosto cultural e musical dos seus alunos.

Nas entrevistas, recolhi comentários bastante ricos referentes à relação entre música e consumo: “Pesquisadora – Que estilos de música você ouve mais? Por quê? E PII9 – É pop e sertanejo. Ah, eu acho legal. As músicas pop são em inglês, eu faço inglês, aí, eu gosto. Amigos, minhas amigas gostam.”

Segundo Canclini (2008), “as identidades se organizam cada vez mais em torno de símbolos nacionais e passam a formar-se a partir do que propõem, por exemplo, Hollywood, Televisa, MTV” (p. 13-14). A língua inglesa pode ser considerada como um desses símbolos que estão sendo cada vez mais mundializados e disseminados pelo planeta. Vários sujeitos desta pesquisa referiram-se ao inglês como idioma importante também no momento de fruírem canções, por ajudar a compreender as suas letras.

Pesquisadora – Quais são seus grupos musicais e cantores preferidos? O que você mais admira neles?

E PII4 (12 anos, menino) – Racionais no rap, e no pagode, o MC Guimê. Pesquisadora – O que você mais gosta neles?

E PII4 – Ah o estilo de vestir, os cordões que eles usam, as roupas.

Acima, há mais uma referência ao representante do estilo fGnk ostentação, MC Guimê, já ocorrida em outra passagem do texto. A citação do jovem denota o quanto o visual do intérprete, característica do estilo, é marcante e parece superar a própria música ao chamar a atenção de seus fãs.

190 E SM2 (15 anos, menino) – Eu compro muito CD. Tem muito CD lá em casa, mas algumas vezes escuto pelo yoGtGbe mesmo, pela internet.

O consumo de aparelhos eletrônicos por jovens é bastante expressivo, e eles discorrem sobre o assunto com a maior fluência e conhecimento. Eles transitam por este tema como algo de que gostam muito e que parece ser indispensável ao seu cotidiano.

Pesquisadora – Você alguma vez já se inspirou neles para fazer algo ou se influenciou por eles, de alguma forma? Como?

E PII6 (14 anos, menina) – Acho que sim, com certeza, principalmente de roupa, no estilo que bate muitas vezes com as coisas que você gosta.

E PII16 (13 anos, menina) – Sempre. Em atividades de Artes, no quarto, a escolha de material, caderno, tudo. Que tem a marca deles.

Canclini (2008) afirma que não são as necessidades e os gostos individuais que determinam quem consome, o que e como consome, mas que tudo isso é determinado pelas estruturas de administração do capital. Para ele, as ofertas de bens e a forma de induzir ao consumo não são arbitrários. Isso significa que, no consumo de bens suscitado pelo consumo e apreciação de música pelos jovens estudantes, suas escolhas por objetos que lembram, de algum modo, seus ídolos não são fatos desconectados de um contexto que envolve todo um planejamento por parte de empresas que gerenciam a referida área da música veiculada nas mídias. Uma peça de roupa, um adereço, um artefato qualquer que carregue a marca do artista ou da banda é cheio de significado para quem usa, ao mesmo tempo em que são o

[...] lugar da diferenciação e distinção entre as classes e os grupos [...] A lógica que rege a apropriação dos bens como objetos de distinção não é a da satisfação de necessidades, mas sim a da escassez desses bens e da impossibilidade de que outros os possuam (CANCLINI, 2008, p. 62-63).

Encontrei, nos grupos focais, alguns dados sobre música e consumo:

Pesquisadora – Alguma vez vocês já se inspiraram nesses cantores ou grupos de alguma forma?

G., GF SM1 (15-16 anos, menina) – Quando eu era pequena eu gostava de Rebelde, da banda Rebelde. Aí eu comprei a roupa de Rebelde, comprei carteirinha, comprei um tanto de coisa.

A.C., GF SM1 (15-16 anos, menina) – Tinha também pulseira, figurinha.

A., GF PII1 (12-13 anos, menina) – Minha irmã toda vez que pede alguma coisa de presente é da Chanel. Sobra pra quem? Pros meus pais, né? Tipo assim, teve um show dela aqui no Rio de Janeiro, ela foi e gravou a saga dela, digamos, pra esse

show. A Miley Cyrus gosta de porquinho. Ela pegou p porquinho dela e deu pra Miley Cyrus. Ela tem um porquinho de pelúcia que vem com um cobertorzinho, a Miley Cyrus. Ela colocou perfume e o porquinho fica assim com a coberta.

O que há de mais relevante nesse último depoimento, além do que Canclini (2008) afirma num trecho anteriormente citado sobre consumo, é a relação curiosa da fã jovem com sua cantora preferida. Ela procura presenteá-la durante um show com um objeto que sabe agradar à artista. A menina que conta o caso sobre a irmã parece avaliar bem o que é o consumo de produtos de grife em relação à questão do valor financeiro, ao comentar sobre as despesas de seus pais para comprar produtos da Chanel de que a irmã gosta.

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6.1.7 Consumo musical, idade e gênero (idade e gênero modificam as experiências