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Qual é a essência do fenômeno investigado? A resposta a essa pergunta diz respeito aos pressupostos ontológicos da pesquisa. Para Burrel e Morgan (1979), todas as teorias da organização são baseadas em uma filosofia da ciência e uma teoria da sociedade. Os autores falam de duas tradições ontológicas: (1) realismo: estudos que adotam uma abordagem objetivista da realidade social, a partir de planos, padrões e regularidades, além de normas de funcionamento; e (2) nominalismo: estudos que adotam uma abordagem subjetivista com ênfase nas experiências dos indivíduos na construção do mundo social.

A resposta à pergunta “de que forma o conhecimento pode ser transmitido?” diz respeito aos pressupostos epistemológicos da pesquisa. Burrel e Morgan (1979, p. 16) usam o termo "positivista" para conceituar epistemologias que procuram “explicar e prever o que acontece no mundo social pela busca de regularidades e relações causais entre seus elementos”.

Esta pesquisa apresenta elementos que poderiam situá-la na interface dos paradigmas interpretativista e estruturalista radical, dando mostras de que a complexidade das estruturas e práticas sociais não podem ser limitadas a uma única perspectiva. Gioia e Pitre (1990) defendem a possibilidade de uma abordagem multiparadigmática como forma de acolher diferenças teóricas e, por meio do reconhecimento destas diferenças, compreender melhor os fenômenos organizacionais. Para estes autores, um único paradigma pode não ser suficiente para abarcar fenômenos organizacionais multifacetados. Dada essa visão multiparadigmática, os autores declaram que a busca pela verdade não é o primordial, ao invés disso, a busca por uma compreensão decorrente de diferentes perspectivas do mundo.

No paradigma interpretativista, Gioia e Pitre (1990) afirmam que as pessoas constroem e sustentam a realidade em que estão imersos de maneira simbólica e social. Morgan (2005) defende que o mundo possui uma ontologia duvidosa, sendo um produto das experiências subjetiva e intersubjetiva dos indivíduos, ao se relacionarem com outros indivíduos. Ao pesquisador interpretativista, cabe compreender os processos pelos quais as realidades são criadas, sustentadas e modificadas. Para Gioia e Pitre (1990, p. 588), o objetivo da construção

da teoria no paradigma interpretativo “é gerar descrições, insights e explicações de eventos para que o sistema de interpretações e significado, e os processos estruturantes e organizadores, sejam revelados”.

O estruturalismo como paradigma trata a realidade como algo concreto, e exerce um papel de dominação. As estruturas são reais e pressionam os indivíduos, criando tensões, levando a mudanças radicais. Ao pesquisador, cabe identificar essas tensões, a maneira como a dominação é exercida por quem detém o poder, sendo a práxis a forma de transcender essa dominação (MORGAN, 2005). De acordo com Gioia e Pitre (1990), a transformação é ditada pelas macropráticas das organizações e da indústria, numa forma mais abrangente. Para eles, a ordem social é constrangida pelas estruturas dominantes sobre os indivíduos, e essa assimetria leva à sensação de perda de meios de produção e reprodução dos mundos material, social e cultural. Neste aspecto, os autores apontam que o “objetivo da teoria estruturalista radical é compreender, explicar, criticar e agir sobre os mecanismos estruturais que existem no mundo organizacional, transformamdo-os através de resistência coletiva e mudança radical” (GIOIA; PITRE, 1990, p. 590).

No Quadro 4, as características destes dois paradigmas são expostas para clarificar a compreensão de suas principais diferenças.

QUADRO 4 – Diferenças paradigmáticas entre interpretativismo e estruturalismo

Aspectos centrais Interpretativismo Estruturalismo Objetivos Descrever e explicar para diagnosticar

e compreender.

Identificar fonte de dominação e persuadir para guiar à libertação por meio de práticas revolucionárias Preocupações

teóricas Construção social da realidade, processo de reificação, interpretação. Dominação, alienação, emancipação, macro forças. Abordagem da

construção teórica

Descobertas pela análise do código. Libertação por meio da análise estrutural.

Fonte: Adaptado de Gioia e Pitre (1990).

Questões contraditórias que envolvam os estudos multiparadigmáticos são apontadas por Gioia e Pitre (1990) e Lewis e Grimes (1999), contudo, os referidos autores acreditam que essa abordagem ofereça bases para a construção de teorias em processos mais heurísticos, mais criativos, que permitam a compreensão complexa do universo organizacional.

Na perspectiva da Teoria da estratégia como prática, segundo Rasche e Chia (2009), o estruturalismo se baseia na existência de códigos que influenciam a ação humana. Estes códigos, que estruturam a ação humana, são dados objetivamente (pela organização dominante) e as pessoas sequer questionam a sua existência. No interpretativismo, “os sujeitos atribuem

significado ao mundo referindo-se a experiências ambíguas, a esquemas mentais pré-existentes que cada indivíduo possui com base em sua experiência anterior” (RASCHE; CHIA, 2009, p. 718).

Estes autores propõem o neoestruturalismo, que altera o foco no universal do fenômeno para uma perspectiva local e temporal, considerando o indivíduo como um portador de práticas. Propõem também o neointerpretativismo, que se baseia na percepção de que “os esquemas de conhecimento coletivo são uma pré-condição para a constituição do ator e seu ambiente dentro das práticas sociais”. Declaram que as práticas precisam ser baseadas “em esquemas de conhecimento que transcendam o indivíduo porque diferentes atores executam práticas sociais em diferentes pontos do espaço-tempo” (RASCHE; CHIA, 2009, p. 720). Para Rasche e Chia (2009, p. 728), a perspectiva neo-estruturalista é mais direcionada aos “esquemas inconscientes de conhecimento que envolvem as regras profissionais subjacentes, e não necessariamente explícitas, que moldam as práticas estratégicas”. Na perspectiva neointerpretativa, os pesquisadores dariam “maior consideração ao estrategista individual e como suas trocas sociais constituem práticas estratégicas”. Para os autores, isso não quer dizer que os esquemas de conhecimento coletivo sejam menos importantes, mas que o foco principal seja “a maneira idiossincrática pela qual os estrategistas são constituídos por suas práticas e como os estrategistas se identificam com base na compreensão de uma prática”.

O que une as duas perspectivas são as rotinas executadas incorporadas pelos participantes. As práticas estratégicas são ações incorporadas pelos praticantes e agrupadas em função de estratégias específicas. Estas ações podem ser falas (por exemplo, discursos e textos) ou atos (por exemplo, gestos e sinais). Os praticantes das práticas estratégicas podem ser incorporados e percebidos de três formas: (1) como executor de ações como a linguagem, o movimento, (2) como significado que os outros constroem a respeito e (3) como instrumento que carreia ações que desdobram em outras ações (RASCHE; CHIA, 2009).