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4.1.1 System Architecture

Toda vida social é essencialmente prática. A práxis consiste na ação dos homens sobre a matéria. Em sua ação, os homens criam e transformam a si e a própria realidade humanizada.

O homem vive em constante estado criador. Cria para satisfazer novas necessidades, sempre abertas ao infinito, de acordo com as possibilidades históricas dadas pela realidade. Assim, a consciência do sujeito criador tem íntima relação com a realidade objetiva posta aos mesmos. A consciência não é algo abstrato, fruto do pensamento, mas advém essencialmente da materialidade da vida concreta dos sujeitos.

A produção do objeto ideal é inseparável da produção do objeto real, material, e ambas nada mais são que o anverso e reverso de uma mesma moeda, ou são dois lados de um mesmo processo. A forma que o sujeito quer imprimir à matéria existe como forma geratriz na consciência, mas a forma que se plasma definitivamente na matéria não é a mesma – nem uma duplicação – da que prévia existia originalmente (VASQUEZ, 1986, p. 249).

O trabalho é a base de entendimento, a forma originária de toda práxis social, necessário para compreender as outras posições socioteleológicas, configurando, assim, seu caráter central nas relações sociais.

O trabalho como protoforma da práxis social significa entender seu sentido mais genérico e abstrato, como produtor de valores de uso, produto das relações entre o ser social e a natureza, onde objetos naturais são transformados através da ação humana em coisas úteis, para si e para as outras pessoas, configurando assim a práxis social interativa, momento em que o trabalho torna-se cooperação entre os homens. Tal práxis está presente no mundo objetivo dos homens que produzem suas existências pelo trabalho, transformando a si e aos outros, estabelecendo relações sociais. Isto se dá no trabalho enquanto gênese da formação humana, portanto, trabalho criador, que, segundo Vasquez (1986, p. 264),

pressupõe a atividade indissolúvel de uma consciência que projeta ou modela idealmente e da mão que realiza ou plasma o projetado numa

40 matéria. O produto desta atividade unitária é, por isso, o coroamento de uma atividade consciente do produtor e, por conseguinte, o objeto produzido revela, exprime, o homem que o produziu. No trabalho criador evidencia-se a unidade entre consciência e corpo, como atividade manual dirigida pela primeira. Por conseguinte, dele se apaga, de certo modo, a diferença entre trabalho intelectual e físico, pois todo trabalho manual é, ao mesmo tempo, trabalho ou atividade da consciência.

A busca de finalidades e objetivos é uma necessidade humana elementar e primordial. Toda a existência, o movimento do mundo e os fatos da vida individual perseguem um sentido. Para Marx,o trabalho como originário da diferenciação dos homens dos outros seres é o único lugar de onde se pode explicar os fins humanos. Afirma Lukács (1989) que qualquer trabalho só é possível se for precedido de um pôr teleológico, ou seja, de uma prévia ideação que determine o seu processo em todas as fases.

Tem-se, pois, uma consequência sobre a consciência humana que, diferente da consciência animal, ultrapassa a simples adaptação ao ambiente e executa, na própria natureza, modificações/transformações. Essa consciência humana é o elemento que altera o real e é apreendida e demonstrada na práxis.

A essência do trabalho consiste sempre em transformar o que está posto como possibilidade, em realidade concreta. Essência que é um elemento insuprimível, é o ―ser-precisamente-assim do trabalho‖ conforme Lukács,

independente das formas de consciência nas quais ele se realizou originalmente. Essa transformação atinge, necessariamente, o sujeito que trabalha. Ao

atuar sobre a natureza e transformá-la, o homem muda, ao mesmo tempo, a sua própria natureza, desenvolvendo suas potencialidades. É o domínio da consciência sobre o instinto biológico, que implica um processo contínuo de renovação do sujeito. O domínio sobre si mesmo leva à saída da sua existência puramente animalesca, implicando um retrocesso das barreiras naturais, configurando o autodomínio como premissa para realização do trabalho e das suas finalidades postas que se revela, pois, como instrumento de autocriação do homem como homem. Um novo ser, autofundado: o ser social.

Em determinadas condições históricas o trabalho se torna objetivação negativa, onde o homem não tem controle sobre as condições do processo e do produto do trabalho. Há um processo de estranheza, de alienação, em que o trabalho aniquila o homem, aliena-o, e a forma mais próxima dessa alienação é o trabalho assalariado/abstrato. Nesta sociabilidade fundada na propriedade privada

41 dos meios de produção, a práxis do trabalho abstrato é reiterativa3, subordina o homem a realizar atividades sob o jugo das relações capitalistas, em que o trabalho parcelado, na produção em série, impede que o mesmo realize o trabalho criador.

É necessário enfatizar a centralidade ontológica do trabalho na vida dos homens, pois o mesmo é uma forma privilegiada de práxis, e é através dele que os homens garantem sua existência enquanto seres sociais e desenvolvem suas capacidades. É na atividade prática que os homem se humanizam e satisfazem suas necessidades, projetam finalidades, se autoproduzem, estabelecendo relações com a natureza, com os outros homens e consigo mesmo. Como afirmou Marx (1985, p. 50):

[...] Como criador de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociabilidade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre os homens e a natureza e, portanto, da vida humana.

Somente a partir do trabalho como práxis o homem pode criar, formar e produzir-se a si mesmo e aos outros, em infinitas possibilidades dadas por sua ação teórico-prática radicalmente histórica. Nesse aspecto, a práxis, mesmo na sociabilidade do capital, não é somente reiteração, mas em sua escala histórica universal o que é determinante na história humana é a práxis criadora, que concebe a matéria herdada historicamente em algo qualitativamente novo.

2.2 Trabalho na sociedade capitalista, invisibilidade de sua gênese e