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2.2 Datagrunnlag og metode

2.2.2 Sysselsetting i jordbruket

Veiga-Neto (2010) e Larossa (1994) identificam Foucault como o autor que conseguiu pensar a Modernidade de outro modo, tendo, para tanto, lançado mão da história genealógica que

[...] não nega os objetos estudados; ela apenas revela o que eles tiveram e têm de contingentes, bem como a serviço do que eles foram inventados ou a serviço de quem eles se colocaram depois de inventados [...] também nos ajuda a desenhar as eventuais mudanças que se pode fazer no curso das coisas. (VEIGA-NETO, 2010, p. 9).

O que determina o olhar tem uma origem, depende de certas condições históricas e práticas de possibilidade e, portanto, como todo o contingente, está submetido à mudança e à possibilidade da transformação. Talvez o poder das evidências não seja tão absoluto, talvez seja possível ver de outro modo. (LARROSA, 1994, p. 83).

A genealogia, para Foucault (1984b, p. 171), é definida como “[...] o acoplamento do conhecimento com as memórias locais, que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização desse saber nas táticas atuais.” De acordo com o pensamento do Autor, a genealogia percorre a constituição de determinada singularidade, ressaltando as relações de poder que definem a sua estruturação, objetivando descrever de que modo essas singularidades modelam o presente.

Roberto Machado (1981) refere-se à fase inicial do pensamento genealógico de Foucault, destacando o controle do corpo do indivíduo por meio da disciplina, como condição de possibilidade política das ciências do homem. Em seguida, ressalta a importância do biopoder e dos dispositivos de segurança na origem das Ciências Sociais (Estatística, Demografia, Economia etc). Desde então, aparece o Estado como tema importante para a genealogia.

É então que aparece o projeto de explicar a gênese do Estado a partir das práticas de governo, da gestão governamental, ou da governamentalidade, que têm na população seu objeto, na economia seu saber mais importante e nos dispositivos de segurança seus mecanismos básicos. O que já nos permite talvez vislumbrar os novos horizontes de análise. (MACHADO, 1981, p. 200).

Ao optar pela genealogia no percurso deste estudo, já sabíamos, antecipadamente, que não encontraríamos uma trilha linear e cumulativa que nos ajudasse a entender as transformações do saber e das relações de poder que

envolvem as práticas marcantes de todo o processo histórico da política de assistência social brasileira voltada para proteção de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Tínhamos consciência, também, de que, para entender o princípio organizador desta experiência, acompanhar esse percurso, fazer uma genealogia do passado para problematizar o presente seria de importância fundamental.

De acordo com Veiga-Neto (2010, p. 40),

Como uma perspectiva de trabalho, a genealogia se constituí em conjuntos de procedimentos que permitem, ao conhecermos o passado, problematizarmos o presente. [...] Falar em “uma atividade”, “uma maneira de entender”, “um modo de ver as coisas” remete à noção de techné. Assim a genealogia pode ser entendida não como um conjunto de procedimentos técnicos para executar descrições, análises e problematizações, mas como uma techné de fundo, uma techné que informa – para usar a expressão do filósofo: “um modo de ver as coisas” – e que está em determinadas práticas e em suas relações com outras práticas, sejam elas discursivas ou não discursivas. Trata-se, isso sim, de uma techné que consiste numa forma muito singular de escutar a história.

A perspectiva genealógica possibilita o entendimento da formação discursiva como elaboração histórica, dando importância às condições que possibilitam a produção ou permitem a emergência desta mesma prática discursiva como dispositivo de poder. "A genealogia, como análise da proveniência está [...] no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo." (FOUCAULT, 1988, p. 22).

Ao estudar as relações de poder, no caso particular da pesquisa realizada sobre a história da penalidade, Foucault (1987) identificou um tipo específico de poder que incidia sobre os corpos dos indivíduos enclausurados, como mecanismo próprio de controle estabelecido, que se estendia não só no espaço prisional mas se encontrava presente, também, em outras instituições, tais como hospital, asilo, escola, fábrica, família, o qual denominou “disciplina” ou “poder disciplinar”.

A disciplina [...] é um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, que comporta todo um conjunto de instrumentos, de técnicas, de procedimentos, de níveis de aplicação, de alvos; ela é uma física ou uma anatomia do poder, uma tecnologia. (FOUCAULT, 1987, p. 189).

O corpo, por sua vez, ao se tornar alvo do “poder disciplinar”, como mecanismo de poder, se oferece às novas formas de saber. Em síntese, a

fundamentação da genealogia era o poder e a sua importância para a constituição do saber, ou seja, a intrínseca e permanente relação entre poder e saber.

A trajetória genealógica foucaultiana direcionou, inicialmente, a centralidade de seus estudos para a noção de poder. Posteriormente, o foco foi deslocado para a ideia de governo13 pela verdade.

Assim pressupondo, de saída, procuramos configurar neste trabalho um traçado genealógico do tema, enfocando a história dos fatos que deram início à constituição do estatuto da pobreza no Brasil e a sua condição de vida classificada na escala de menor valia, com os respectivos dispositivos biopolíticos direcionados para o controle e o governamento familiar desde o início da colonização brasileira.

Em seguida, elaboramos uma cartografia do acolhimento institucional no Estado do Ceará, um dos espaços do disciplinamento, controle, normalização e inclusão/exclusão, em que a arte de governar das políticas de assistência social contemporânea se realiza.

Finalmente, nos inserimos no universo do acolhimento institucional de uma das entidades de acolhimento local, para podermos realizar uma pesquisa de cunho qualitativo com os jovens residentes no espaço delimitado.