6.3 Experiments: the modernized implementation
6.3.1 Synthetic scenarios
A “guerra” aberta que a República havia, desde 1910, movido contra a Igreja em Portugal foi, já o referimos, um dos fatores que potenciaram o surgimento de um movimento como o 28 de maio de 1926. Como tal, não «se pode perceber o advento do novo regime, e a sua inicial aceitação generalizada, sem compreender o papel político central da questão religiosa, herdada do liberalismo oitocentista mas agravada depois da Revolução de 1910» (CRUZ, 1998: 11). Esta mesma “questão religiosa” viria a aproveitar, em larga medida, à posição de Salazar dentro dos meandros da Ditadura Militar já que, «Salazar, como destacado político católico, representava uma secção potencialmente importante da direita, um conservadorismo discreto e não militante que era muito mais numeroso pelo país fora do que o sufrágio eleitoral sugeria, sendo também dotado de uma profundidade e amplitude intelectual que faltava a outras correntes» (MENESES, 2010: 53-54). De facto, ao longo de todo o percurso que o levaria de ministro das Finanças até à Presidência do Ministério, Salazar «seleccionou com extremo cuidado os seus apoios: primeiro, a Igreja e os meios católicos; depois, os elementos monárquicos e conservadores liberais; e as forças armadas por último» (NOGUEIRA, 2000: 3). Na construção da sua plataforma de apoio, Salazar encontrou nos setores católicos um pilar de apoio essencial sem o qual a sua ascensão dificilmente teria sido possível, ou, no mínimo, em muito teria sido dificultada. «Se restassem dúvidas sobre este decisivo voto de confiança do catolicismo político em Salazar nesta fase inicial e decisiva da sua ascensão», afirma-nos Bruno Cardoso Reis, «bastaria continuar a ler as Novidades. A 27 de Abril saúdam em editorial a sua entrada no governo, acompanhada de uma grande foto a corpo e meio na primeira página, e falam de “escolha felissíssima”. Tecem grandes loas à “justíssima” fama de que goza. Manifestam “satisfação” e “patriótico entusiasmo”. Consideram que “muito raras vezes terá chegado às cadeiras do poder um homem levando para a pasta que vai servir uma
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tão longa e tão consciente preparação”. Concluía o editorial, num toque que se manterá durante os meses seguintes desta fase crucial de consolidação do poder de Salazar e de dolorosas medidas de austeridade, que “neste sacrifício encontram, nesta hora, todos os portugueses honestos, todos os patriotas uma esperança de salvação”» (REIS, 2006: 79- 80). Ora, este apoio por parte dos católicos não poderia deixar de os fazer esperar alguns benefícios assim que Salazar tomasse conta das principais estruturas do Estado. Para a Igreja, o facto de um dos principais dirigentes do Centro Católico16 poder vir a ocupar a chefia do governo, «dava-lhe garantias não só de respeito da sua actuação como até de recristianização da vida social e política» (CRUZ, 1998: 18). Como viria Salazar a corresponder a essas expectativas dos católicos?
Assim que chega ao governo, como ministro das Finanças, a 27 de abril de 1928, Salazar percebe quais as grandes questões com as quais se debate a Ditadura Militar. São duas as questões fraturantes que dentro do novo regime opõem as diferentes fações: a “questão religiosa” e a “questão do regime”. É nesse sentido que o novo ministro das Finanças tenta, de imediato, colocar-se numa posição de independência face aos católicos pedindo, logo aquando da sua entrada para o ministério, que se «diga aos católicos que o meu sacrifício me dá o direito de esperar deles que sejam, de entre todos os portugueses, os primeiros a pagar os sacrifícios que lhes peço e os últimos a pedir os favores que eu lhes não posso fazer»17. Desde logo Salazar faz questão de sublinhar que não comprometerá as suas ambições políticas no sentido de beneficiar os católicos no que se refere às políticas do Estado. A astúcia política de Salazar fazia-o perceber a importância da manutenção da separação administrativa entre o Estado e a Igreja que, de resto, era um elemento «importante para o seu jogo de equilíbrio entre facções da direita e nacionalistas, umas laicas e outras católicas, e para retirar uma arma de propaganda poderosa – o anticlericalismo – à oposição» (REIS, 2006: 332). Esta política de afastamento de Salazar dos setores católicos viria a acentuar-se, ainda mais, uma vez chegado este à chefia do governo.
Efetivamente, em 1932, já como chefe do governo, Salazar «vai desiludir os seus correligionários» (CAMPINOS, 1975: 165), quando em novembro de 1932, pede a dissolução do Partido do Centro Católico, afirmando também, logo de seguida que «os católicos foram absolutamente estranhos à minha entrada no Governo, como têm sido
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Partido católico da 1.ª República, fundado em agosto de 1917, do qual Salazar foi um dos principais dirigentes.
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absolutamente estranhos a todos os meus actos políticos»18. Na progressiva eliminação da concorrência que Salazar foi levando a cabo ao longo do seu percurso político, era agora chegada a vez de neutralizar qualquer alternativa que, de dentro dos setores católicos, se pudesse levantar contra a sua figura. Na realidade, Salazar percebia que a manutenção do Centro Católico poderia significar «uma ameaça latente de manutenção, no campo católico, de uma corrente autónoma e potencialmente rival do seu projecto político» (REIS, 2006: 61) e, nesse sentido, as elites políticas católicas deveriam aderir também à União Nacional, organismo dentro do qual, perceba-se, seria bastante mais simples controlá-las. A verdade é que, apesar de terem visto as suas expetativas goradas quanto à ação de Salazar – pelo menos durante o período de afirmação do salazarismo -, os católicos irão, ainda assim, aderir ao projeto político do salazarismo dando-lhe o seu apoio.
Assim se percebe que foi «numa lógica eminentemente política, que ele [Salazar] concebeu as suas relações com o catolicismo» (REIS, 2006: 332). Depois de o apoio inicial dado pelos católicos ter servido de “rampa de lançamento” para as suas pretensões políticas, Salazar colocou aqueles que dentro do catolicismo político em Portugal pudessem ainda procurar fazer-lhe frente perante o mesmo dilema que às restantes fações: o de aderirem ao seu projeto político ou assumirem-se como oposição – com tudo o que isso significava dentro de um regime autoritário fortemente repressivo. Apesar de, logo a partir 1933, o salazarismo ter possibilitado a recuperação de muito do capital simbólico perdido pelo catolicismo durante a Primeira República, os católicos teriam ainda que esperar até 1940 para que Salazar viesse arrumar definitivamente a “questão religiosa” ao ser assinada a Concordata e o Acordo Missionário19.