2.1 Ground Systems
2.1.1 Syntax
O conceito de negócio social quanto ao seu objetivo é melhorar as condições de vida da população carente gerando inclusão. Pode estar presente em todos os setores da economia, ou seja, no governo, no terceiro setor, nas organizações privadas com fins lucrativos, tanto nas que priorizam a geração de riquezas para o stakeholder, através de ações de responsabilidade social empresarial, quanto nas empresas que tem objetivos híbridos, ou seja, econômicos e sociais (MOURA; COMINI; TEODÓSIO, 2015).
No caso da empresa social, já nasce com um objetivo social de beneficiar a comunidade (EMES), ou um compromisso de criação de valor para uma comunidade ou sociedade (DEES; ANDERSON, 2003). Portanto, de maneira ampla, podemos afirmar que empresas sociais são negócios sociais, mas não vice-versa, e podem ser tanto com ou sem fins lucrativos. Aquelas com fins lucrativos, porém, diferenciam-se, como vimos, quanto à questão
da distribuição do lucro (PARENTE, 2011): (1) não distribuição, (2) distribuição parcial e (3) distribuição livre de lucros.
De fato, Alvord, Brow e Letts (2004) identificaram na literatura duas abordagens distintas para o empreendedorismo social. A primeira abordagem contempla a criação e operação de empresas privadas que geram impactos sociais. Os empresários usam as habilidades de negócios e conhecimento para criar empresas que realizam fins sociais e que são também lucrativas (hibridas), sendo essa abordagem o foco do presente estudo. A segunda abordagem para o empreendedorismo social ocorre com a criação e operação de empresas do terceiro setor, portanto, não lucrativas. Nessa última abordagem, há organizações que vem desenvolvendo modelo alternativo de negócios, criando unidades privadas paralelas e usando- as para gerar receita ou apropriando os lucros para seus fins sociais.
Alvord, Brow e Letts (2004) consideram as duas abordagens úteis quanto à capacidade de promover a inovação social, apontando o papel do empreendedor social como aspecto comum a todas. O empreendedor social deve identificar os stakeholders que podem ajudá-lo e desafiá-los a criar, em conjunto, o tipo de mudança transformacional proposto para gerar a inovação e o impacto social (ALVORD; BROW; LETTS, 2004). Portanto, para esses autores, as empresas sociais devem ser organizações de inovação social (com ou sem fins lucrativos). O que parece estranho na literatura de empresas sociais é o emprego do termo “empresa”, tanto para organização com fins lucrativos como sem fins lucrativos. Domenico (2015), no entanto, chama de “empresa de inovação social” as organizações com fins lucrativos e que visam a inovação social, o que será adotado neste estudo.
Em suma, os empreendedores de inovação social focalizados neste estudo, fundam negócios sociais privados com objetivos econômicos e sociais, também classificados como organizações híbridas ou empresas sociais que, necessariamente, se propõe a gerar valor social e econômico para a sociedade a partir da inovação social.
2.4. O PROCESSO DA INOVAÇÃO SOCIAL E SUA AVALIAÇÃO
A inovação social é construída por processo complexo e interativo e é um dos aspectos teóricos menos estudados na literatura do campo (BRACKERTZ, 2011). Mulgan (2006) e
Murray et al. (2010), partindo de estudos empíricos sobre práticas bem sucedidas de processos de inovação social, na Europa e especificamente no Reino Unido, descreveram como fazer inovação social (MULGAN, 2006; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
O processo de inovação social envolve as seguintes etapas: (1) geração de ideias mediante o entendimento de necessidades e identificação do potencial de solução, (2) desenvolvimento e criação de protótipos e ideias piloto, (3) avaliação, dimensionamento e difusão de boas ideias, (4) aprendizagem e envolvimento (5) criação da mudança sistemática, ou seja, aquela que mudará a atitude de grupos sociais ou da sociedade consolidando uma mudança social (MULGAN, 2006; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
O ponto de partida para a primeira fase, “de geração de ideias”, é uma necessidade que não está atendida, conjuntamente com uma ideia de como poderia ser atingida. As necessidades são originadas de muitas formas, mediante grupos ou pessoas insatisfeitas, campanhas e movimentos sociais, políticos ou religiosos. Um aspecto importante a considerar é que alguns dos métodos eficientes para gerar inovações sociais partem da premissa que as pessoas são competentes intérpretes de suas vidas e também têm competência para resolver seus problemas. Portanto, a solução ou inovação social tem grande probabilidade de ser encontrada na própria comunidade envolvida com o problema (MULGAN, 2006; MULGAN; TUCKER; SANDERS, 2007; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
A segunda fase relativa ao “desenvolvimento e criação de protótipos e ideias piloto”, envolve uma ideia promissora e um teste prático, sendo que poucos projetos de inovação social sobrevivem nessa fase. Uma característica das inovações sociais nessa fase é que os testes são realizados no início, sem planejamento profundo, devido à alta motivação e impaciência dos envolvidos em esperar suporte do governo ou de fundações. Adicionalmente, a atuação prática acaba por apontar importantes ajustes de rota (MULGAN, 2006; MULGAN; TUCKER; SANDERS, 2007; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
A terceira fase ocorre quando a ideia provou ser boa na prática e pode ser então replicada. Trata-se de etapa delicada, pois a partir desse ponto o empreendedor social deve perceber que a replicação exigirá visão estratégica, pois deverá avaliar oportunidade e obstáculos, atraindo investidores e parceiros que permitam a difusão da ideia (MULGAN,
2006; MULGAN; TUCKER; SANDERS, 2007; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
A quarta etapa de “aprendizagem e envolvimento” tem relação com a continuidade do processo de mudança social implantada pelo negócio. Na prática, o processo de aplicação da nova ideia poderá ter consequências inesperadas. Deve-se consolidar o negócio em torno de poucos princípios centrais que possam ser facilmente comunicados e desenvolver capacidade de aprendizagem e envolvimento dos colaboradores na percepção e solução desses problemas (MULGAN, 2006; MULGAN; TUCKER; SANDERS, 2007; MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
A última etapa é a “criação da mudança sistemática”, que pode não acontecer em todos os processos de inovação social. A inovação social é abrangente, pois tem como alvo atingir, em última instância, conceitos e a mentalidade da sociedade, visando a uma mudança comportamental efetiva. Como exemplo de mudança sistemática existe a transformação do tratamento do lixo doméstico envolvendo aterro e incineração para uma abordagem de reciclagem. Isso tem exigido mudanças sistemáticas ou efetivas na sociedade, ou seja, novas leis, regulamentos, modelos de negócios, hábitos em casa na separação e coleta de resíduos, criando sistemas de coleta ajustados ao processo e novas formas de reutilização e reciclagem de materiais com impactos sociais e ambientais (MURRAY; CAULIER-GRICE; MULGAN, 2009).
Dees e Anderson (2003) descrevem a empresa de inovação social com um propósito que envolve um compromisso de criação de valor para uma comunidade ou sociedade, e não apenas gerar riqueza para os proprietários. A empresa de inovação social mensura seu desempenho em termos do impacto social gerado na comunidade. Para mensurar o impacto social resultante do processo de inovação social é necessário estar suportado por sistema de mensuração bem definido, que será abordado no próximo tópico.