6 Tilskotsordninga slik hovudorganisasjonar vurderer ho
6.2 Synspunkt på organisering av ordninga
Na vigência de circulação de A Vida, em cinco números, José Oiticica publicou um ensaio sociológico intitulado O desperdício da energia feminina.120 Oiticica cuidou em destrinchar os termos “vida”, “trabalho”, “lucro”, “energia” como categorias construídas a partir de conexões com as áreas da biologia e da psicologia, da sociologia e da economia política, em “uma série lógica”, ou seja, a semelhança da sistematização que defendia para disposição dos conteúdos e conceitos, destrinchando-os, concatenando-os, apresentando-os gradativamente, dos conceitos mais simples para os mais complexos.
Os conceitos “vida” e “trabalho” foram resultantes de apropriações de leitura de Willian Thomson e de Adam Smith, deste último, mais especificamente, a proposição sobre a multiplicação da força produtiva pela divisão do trabalho. Oiticica se opunha à visão hobessiana de sociedade, em sua concepção a humanidade não estava sob estado de guerra, admitindo a idéia de que a divisão de trabalho trazia a solidariedade entre os trabalhadores.
148 No entanto, esta idéia que era admitida em diversos discursos libertários do período se torna crítica quando acrescentadas às suas apropriações e suas adesões teóricas do anarquismo, especialmente as questões sobre o poder, a autoridade, e, principalmente, sobre as razões da desigualdade social.
Oiticica se propõe no ensaio a explicar “a ação da mulher no trabalho humano”, a partir de um balanço “do quanto concorre ela para o saldo e do quanto desperdiça” de energia, e também de “verificar se a sociedade atual [oferecia a mulher]os meios [para] desenvolver a sua capacidade transformadora de energias” ou então se a sociedade atual “lhe [tolhia] a expansão de ser, lhe [comprimia] a atividade pessoal”.121 Para responder a essas questões ao longo do seu ensaio, Oiticica empreendeu críticas e combate ao Estado, ao capital e à Igreja, explicando a função de cada um, discorrendo sobre os conceitos de energia, de autoridade e sobre o papel que cada uma das instâncias tinham na sociedade atual para todos, e especificamente para a mulher.
O Estado tinha o papel de destruidor da vontade livre, e causador da expropriação da “massa de trabalhadores” por uma “minoria de não trabalhadores”, ao assegurar para uns poucos toda a riqueza e privilégios, e os desperdícios das energias humanas dos que realizam a produção de tudo que é necessário para a vida, mas que não tinham acesso aos bens que produziam. A Igreja é tida como a responsável pela apatia, resignação dos que produzem, e como proprietária da riqueza apóia a propriedade individual da minoria exploradora.
Neste ensaio sociológico, desperdício da energia feminina, Oiticica, ao se contrapor ao Estado e à Igreja, como instâncias de poder, confrontava-se também com qualquer outra forma de autoridade, defendendo a “livre vontade”. A livre vontade era apresentada como o modo de ser mais favorável para a sociedade pela proposta da “solidariedade humana” que trazia em si, uma vez que, segundo ele, o homem é solidário por natureza. Para ele a luta pela existência não era, como já foi dito, o estado de guerra do homem contra o homem:
[...] ora na luta pela vida, que não significa, notai bem, a luta do homem contra o
homem, mas a luta do homem contra as energias naturais oponentes, na luta pela
vida, digo eu, o homem representa o centro de transformações de energias.
Todas as energias naturais apropriadas pelo homem para a satisfação completa das necessidades chamam-se energias utilizáveis. (A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 1, 30- 11-1914, p.7, grifos nossos).
A energia humana é definida como: o conjunto de energias físicas (derivadas do corpo), intelectuais (do grau de ideação capaz de inventar e imitar) morais (da determinação e
149 orientação da vontade), práticas (hábito profissional) e sociais (provenientes da solidariedade). Essa última noção é apropriada de Adam Smith:
Desde Adam Smith se conhece a teoria da multiplicação da força produtiva pela divisão do trabalho. A divisão do trabalho é o modo de ser mais favorável da
solidariedade humana. Se um homem produz um. Dez homens produzirão, não dez,
mas cem. Esse excesso representa a energia de solidariedade, ou energia social propriamente dita. (A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 1, 30-11-1914, p.7).
A noção de desperdício de energia apresentada no ensaio por Oiticica é apropriado de Willian Thomson em sua proposição sobre a lei da degradação da energia. Embora citada a fonte, Oiticica informa que não tem o propósito de discorrer sobre a apreciação dos princípios que revolucionaram a ciência moderna. O desperdício, diz Oiticica, pode ocorrer de três formas: por não aproveitamento, por mau aproveitamento, ou por destruição e explica-o como um problema da humanidade que decorre da exploração do “trabalho humano”:
Qual é portanto o problema geral da humanidade? É este transformar com o menor gasto possível, a maior quantidade possível de energias universais dispersas em energias utilizáveis. Decorre daí, a noção bem clara, a noção de desperdício. (A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 1, 30-11-1914, p.7).
Ao informar seus leitores sobre a exploração do trabalho feminino, demonstrando que a exploração do trabalho feminino é maior ainda que a do trabalho masculino, Oiticica informa ao seu o leitor sobre a situação de depauperamento do trabalho feminino no campo:
Todos sabemos que a mulher tem muita menos resistência física que o homem. Pois na sociedade moderna a mulher esta sujeita aos mesmos trabalhos físicos [...] quem percorre as lavouras pode ver o estado de depauperamento precoce das mulheres do povo [...] nos engenhos do Norte paga-se a um trabalhador do campo 1$000, 8000rs, ou 600 rs, mesmo a seco; a uma mulher 500 rs no máximo, a uma criança meia pataca. Dez tostões por dia, a um homem que trabalha ao sol no cabo da enxada, durante 12 horas; 10 tostões para comer, vestir-se e claro criar os filhos. Qual pode ser a alimentação desses homens, dessas mulheres, dessas crianças? [...] Nas fábricas as mulheres se acham expostas a toda sorte de envenenamentos [...] Doentes sem dinheiro, recorrem ás mezinhas, aos curandeiros, ao espiritismo explorador, aos hospitais infeccionados, porque o médico é burguês e exige sempre o pagamento da consulta ou a compra do remédio na farmácia preferida [...].(A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 1, 30-11-1914, p.7, grifos nossos).
Com esse procedimento Oiticica quer explicar aos seus leitores que:
A-) as condições aviltadas do trabalho feminino afetavam as gerações seguintes, pois “[...] o desperdício das energias físicas femininas [estendiam-se] nos seus estragos irreparáveis, às gerações futuras, por que a hereditariedade não perdoa”.
B-) a mulher precisava ser emancipada para poder oferecer aos filhos uma educação libertária, só se assim ocorresse, seria possível criar a humanidade nova, para a construção da
150 sociedade nova, por meio da revolução social e a partir da ação direta, das ações espontâneas.
C-) a emancipação intelectual ofereceria-lhes condições para que a mulher pudesse se defender dos perigos dos fanatismos.
Em seu ensaio Oiticica reprovava a hierarquia entre “os dirigentes” (que tudo possuem e nada produzem) e a “massa de produtores” (que tudo produzem e quase nada possuem). Com todo o poder dos dirigentes, aos trabalhadores era oferecida uma educação repleta de preconceitos, ainda assim à minoria, pois grandes contingentes da população permaneciam analfabetos, ou seja, a “base” da sociedade. A educação fica a cargo dos “dirigidos ambíguos” daqueles que “se dizem como os mais instruídos”, por exemplo, os funcionários públicos, professores, sacerdotes, os jornalistas, etc. De acordo com ele, melhor dizendo:
A comunicação dos dirigentes com os dirigidos se faz por intermédio de camadas ambíguas, isto é, indivíduos dirigentes e dirigidos ao mesmo tempo. No topo se acham os que se dizem mais instruídos, médicos, engenheiros, advogados, capitalistas, diplomatas, padres, generais; na base a multidão analfabeta. A educação dessa massa se faz pelos dirigentes através dos ambíguos, quer dizer dos funcionários públicos que se encarregam de ministrar aos trabalhadores as idéias, ou antes, os preconceitos favoráveis á supremacia deles dirigentes. Esses preconceitos são o freio com que se contem a besta. As leis, a polícia, o exército e a armada são a espora e o chicote com que se domam os ímpetos de revolta. [...].(A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 2, 30-11- 1914, p.7, grifos nossos).
O antídoto a essa educação de preconceitos que “doma a rebeldia”, argumenta Oiticica, são as greves, estas representam “o abrir de olhos da massa trabalhadora”. Com as greves os trabalhadores podem se opor à “organização parasitária” e combater a “educação cívica, a educação clerical e a não educação”, que são as produtoras da massa de ignorantes, defendia Oiticica.
Outro tema tratado em seu ensaio, “O desperdício da energia feminina”, era sobre a idéia do livre trabalho, um tema que foi título de uma de suas conferências em 1914. A abordagem do tema é feita por Oiticica em forma do diálogo com o seu leitor. Essa estratégia, com variações aparecem utilizadas pelo professor em outros de seus materiais pedagógicos. Pode-se dizer que com essa estratégia o professor Oiticica pretendia provocar a reflexão, um procedimento do “método socrático”, cujo objetivo era interagir com o seu leitor para que ele se voltasse ao próprio pensamento, mas com variação, pois a conclusão neste caso que se segue foi apresentada pelo mestre:
Permite a sociedade atual [o] desenvolvimento livre das aptidões? Não. Faça cada qual o exame de sua vida e pergunte a si mesmo: pude eu cultivar devidamente as minhas aptidões? Posso responder por mim e por todos: Não. Por que não? Por que não sendo a formação intelectual livre, nem livre a vontade, livres não podem ser os atos e muito menos livre a escolha do trabalho. A ação individual é comprimida por todos os lados.
151 O operário em geral segue a profissão do pai, ou a profissão do primeiro mestre a quem serve de aprendiz, ao acaso da necessidade, conforme os apertos da fome. [...].(A Vida, Rio de Janeiro, ano I, nº 3, 31-01-1915, p.4).
A idéia da “formação intelectual livre” é recorrente nos escritos de José Oiticica e lembra a sua explanação sobre a sistematização de seu método de ensino usado no Colégio Latino-Americano e defendido como adequado para o ensino de português na escola, tal como foi comentado no primeiro capítulo a propósito de sua conferência radiofônica de 1948. Na passagem recortada de seu ensaio para a revista A Vida, a formação intelectual livre é a condição imprescindível para as escolhas livres. Esta afirmação é precedida no artigo de uma importante condicionante: a necessidade de estar fora da sociedade capitalista que tira de todos a possibilidade de efetivar escolhas.
Oiticica faz referências, na seqüência de seu ensaio, às escolas profissionais, às escolas técnicas, aos liceus de artes e ofícios, como as poucas iniciativas tomadas pelo poder não em prol das aptidões, mas assevera que a intenção de tais instituições visavam atender às necessidades da indústria moderna, ou seja, são meros interesses dos capitalistas, não se tratando de ações voltadas à “formação do homem livre”.