O contrato de comunicação entre a Folha e seus leitores prevê que a primeira página traga um recorte dos principais acontecimentos do dia. O compromisso do
jornal em suas chamadas é o de apresentar informações de assuntos atuais. Percebemos essa finalidade informativa em várias chamadas, inclusive em assuntos que já seriam de amplo conhecimento, como os resultados de disputas esportivas. Vejamos o exemplo esportivo do dia 2 de fevereiro, de um assunto atual.
FIGURA 50 - Chamada com resultado de futebol Fonte: Folha de S. Paulo, 02 fev. 2009, p. 1.
Este exemplo de informação sem a pretensão de interpretação ou análise, mas com a intenção, principalmente, de colocar o leitor a par das novidades aparece em diversas áreas. Na pauta internacional, por exemplo, lemos, no dia 5 de fevereiro de 2009: “Obama limita a U$$ 500 mil por ano salários de executivos”. Essa informação teve muita repercussão nos meios eletrônicos de notícia. Para chamar o leitor a ler a editoria econômica dinheiro, temos, no dia 9 de fevereiro de 2009: “Desemprego atinge 31% dos lares de SP”, mas a chamada não aprofunda os motivos ou soluções.
Como exemplos mais contundentes do compromisso que o jornal estabelece com seus leitores de mantê-los atualizados, temos as prestações de serviço, como, por exemplo, o lembrete na primeira página do fim do horário de verão, no dia 14 de fevereiro de 2009, e as informações diárias sobre o clima:
FIGURA 51 - Chamada prestação de serviço sobre o fim do horário de verão Fonte: Folha de S. Paulo, 02 fev. 2009, p. 1.
FIGURA 52 - Chamada prestação de serviço sobre o clima
As chamadas de primeira página da Folha são mais ligadas a um presente noticioso, ou seja, o jornal normalmente não se reporta à análise de consequências futuras ou a episódios passados.
Vejamos o exemplo de atualidade em notícia sobre as eleições na Venezuela:
Venezuela vota hoje sobre fim do limite para reeleição
Fabiano Maisonnave de Caracas
Eleitores venezuelanos decidem hoje, pela segunda vez, se o presidente Hugo Chávez poderá concorrer ao cargo que ocupa há dez anos. O “sim” lidera pesquisas. Chávez disse querer governar até 2049. (Folha, 15/02/09).
Já o exemplo abaixo destaca, com enfoque no futuro, estudos do governo para financiamento de imóveis:
Governo estuda facilitar financiamento de imóvel
O governo estuda conceder a famílias com renda de até cinco mínimos (R$ 2.325) um prazo de 24 a 46 meses no qual elas poderão deixar de pagar financiamentos habitacionais sem ser consideradas inadimplentes, informa Sheila D´Amorim. Essas parcelas só seriam cobradas no final do contato. O objetivo das medidas em estudo é tentar estimular o setor imobiliário e contornar os efeitos da crise.(Folha, 07/02/09).
A finalidade informativa pode ainda vir acompanhada de um texto interpretativo, opinativo ou didático. Vejamos um exemplo de chamada interpretativa, que contextualiza as dificuldades do novo presidente americano em compor sua equipe:
Problemas com imposto abalam equipe de Obama
O escolhido para a secretaria da Saúde da gestão Obama, o democrata Tom Daschle, desistiu do cargo por problemas com Imposto de Renda. Pelo mesmo motivo, Nancy Killefer, convidada para fiscalizar gastos governamentais, cargo subordinado à Casa Branca, retirou a candidatura. (Folha, 04/02/09).
A primeira página da Folha tem como objetivo informar os principais acontecimentos do dia, e também fazer o leitor conhecer a interpretação e a opinião desse locutor autorizado do espaço público. Apresentamos dois exemplos de chamadas opinativas na primeira página: da jornalista Eliane Castanhêde, sobre o resultado das eleições no Congresso, e do jornalista Vinícius Torres Freire, sobre a situação econômica.
Resultado eleitoral no Congresso não incomoda Lula
Eliane Castanhêde
Lula jamais deu bola para o Congresso, mesmo quando deputado constituinte. Vencesse o PMDB nas duas Casas, ou o PT no Senado e o PMDB na Câmara, tanto fez como tanto faz. Lula ganharia de qualquer modo. Serra e o PSDB perderiam de qualquer modo. (Folha, 03/02/09).
Desempenho das fábricas lembra piores fases da nossa economia
Vinicius Torres Freire
Imaginava-se que a produção das fábricas havia afundado em dezembro de 2008. Mas os resultados dão a impressão de que a indústria foi varrida da Terra num clique alienígena.
O desmaio industrial foi de grandeza semelhante aos piores momentos da nossa história econômica - como o confisco de Collor, em 1990, ou a crise do início dos anos 1980. (Folha, 04/02/09).
No gênero informativo didático, o jornal informa e apresenta um modelo, um guia que orienta o leitor. Por exemplo, no início do período escolar, a chamada no alto da página é para um guia que ajuda na escolha de uma pós-graduação:
Especial
Guia de 40 págs. Traz: como financiar os estudos com bolsa ou linhas de crédito; que carreiras estão em alta no mercado; quem são os pós- graduados mais bem remunerados; da especialização até o pós-doutorado. (Folha, 01/02/09).
A Folha constrói sua primeira página com muitas informações e com algumas
chamadas mais interpretativas, opinativas ou didáticas. Se considerarmos quantitativamente os destaques, teremos, num total de 229 chamadas de primeira página, 7 chamadas no gênero informativo didático; 52 no gênero informativo opinativo; 75 no gênero informativo interpretativo e 95 chamadas apenas no informativo. A primeira página da Folha é, em suas chamadas, mais informativa e interpretativa. Vejamos o GRAF. 2 a seguir:
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Informativo e didático Informativo e opinativo Informativo e interpretativo Informativo
GRÁFICO 2 - Gêneros informativos da Folha de S. Paulo Fonte: elaborado pela autora, 2011.
Outra finalidade do jornal, além de informar, é a de apresentar aos leitores uma hierarquia daquilo que considera mais relevante entre os destaques. O leitor sente-se confortável quando seu jornal apresenta a agenda de acontecimentos devidamente hierarquizada. Assim, há uma expectativa de que ele compreend o que, aparentemente, é mais relevante para a opinião pública.
Como sabemos, essa hierarquia pode ser facilmente identificada pelo leitor pelo modo como a primeira página é construída: as manchetes no alto e à direita são as mais importantes. Além disso, o tamanho das fontes, o tamanho das fotos, e o uso de cores também colaboram para representar essa hierarquia.
A Folha, normalmente, usa o alto da página, o cabeçalho, para as chamadas
de suas editorias, cadernos internos e suplementos. A manchete principal vem logo abaixo do nome do jornal, com destaque, em títulos grandes e/ou fotos. Como pode ser observado no exemplo abaixo, do dia 13 de fevereiro de 2009, as chamadas de cima são realçadas pela localização e uso de cores: ilustrada, ciência e cotidiano. A principal delas, com foto, é o lançamento do filme O lutador. Há três manchetes principais relacionadas à crise econômica mundial, uma com título, subtítulo e texto e outra com foto e legenda: indicam, respectivamente, que bancos se previnem de calote e Obama discursa a respeito do plano americano de ajuda econômica e
FIGURA 53 - Primeira página da Folha de S. Paulo
A primeira página da Folha traz normalmente 15 chamadas, com quatro mais destacadas. Os assuntos que mais mereceram destaque, com títulos grandes, fotos ou localização no alto da página, são os relacionados à economia (crise econômica e desemprego), educação, política, acidentes aéreos, assuntos internacionais (crise econômica e eleições), esportes, cultura (cinema e música), ciências, violência urbana, carnaval e turismo. Esses temas mereceram, nos dias analisados, destaque maior na primeira página.
Além de hierarquizar os acontecimentos noticiosos, a Folha parece pretender que os leitores conheçam minimamente o assunto já na primeira página. Para isso, além do título informativo, a maioria das chamadas apresenta de um a quatro parágrafos com dados suficientes para que o leitor se inteire do tema. Nos dois exemplos que veremos, o jornal começa a informar o assunto já no título, mas os parágrafos seguintes ampliam o entendimento do leitor com dados e breve contextualização, tentando satisfazê-lo com mais informações.
No primeiro exemplo, o caso da mulher que está há 17 anos em estado vegetativo na Itália:
Berlusconi tenta barrar eutanásia e gera crise na Itália
O primeiro-ministro Silvio Berlusconi tenta interromper a eutanásia da italiana Eluana Englaro, em coma há 17 anos. Ele fez passar decreto-lei que proibia interromper a alimentação de pacientes em estado vegetativo, mas o presidente se negou a assiná-lo. Depois apresentou o texto no legislativo como projeto de lei. (Folha, 07/02/09).
A finalidade da primeira página, de informar minimamente o leitor, mantê-lo ciente da hierarquia proposta pelo jornal e oferecer-lhe uma interpretação e uma opinião, quando possível, parece ser alcançada pela Folha.