Interessa-nos procurar entender como é que se aprendia a ser republicano. Nas memórias referentes a este período do final da monarquia encontramos várias pistas que nos ajudam a compor percursos para o republicanismo, para o socialismo, para o anarquismo, para o livre-pensamento ou ainda para uma atitude auto denominada de progressista ou avançada. Ou dito de outra forma, procuramos perceber como é que se faz a politização do indivíduo, como é que se ganha consciência política.
A politização podia ter lugar bastante cedo na vida de um indivíduo. Em Junho de 1908 foi criado o Grupo Republicano França Borges. A iniciativa partira de um grupo de rapazes de 12 e 16 anos, empregados do comércio que se propunham fazer propaganda e fundar, logo que possível uma escola democrática138.
135 Estatutos e Regulamento Interno da Associação do Registo Civil, Lisboa, Tipografia Almeida & Machado, 1912.
136 O Mundo, n.º 2788, 10 de Agosto de 1908.
137 Ilustração Portuguesa, n.º 235, 22 de Agosto de 1910. 138 O Mundo, n.º 2739, 22 de Junho de 1908.
Aprendia-se a ser republicano com os outros que já eram republicanos. Insistimos na ideia de que a sociabilidade política teve um peso determinante na expansão das ideias do republicanismo. Daí o peso e a responsabilidade que os republicanos punham em si mesmos, procurando encarnar, sempre que possível, as virtudes do cidadão.
Há um conjunto de autores e de obras que foram importantes para todo o movimento republicano e que são referidos como uma influência matricial. As colecções republicanas fizeram a divulgação destes títulos considerados fundamentais para a educação e ilustração do cidadão que se desejava esclarecido. Ou seja, existiu um
corpus científico, cultural e político. Isto não equivale a dizer que todos os indivíduos
que liam estes autores eram republicanos; mas a formação ideal de um republicano contemplava a leitura, ou pelo menos o conhecimento das ideias de um conjunto de autores. De entre eles, podemos referir os nomes de Augusto Comte, Zola ou Victor Hugo.
No entanto, as leituras e as aprendizagens não foram todas feitas, nem dependeram exclusivamente do contexto escolar. Em grande parte dos casos, há a registar uma educação com base no autodidactismo. A um alto nível, registe-se o caso de Sampaio Bruno. Podemos ainda olhar para o exemplo de Barros Queiroz. Este republicano não tinha diploma, aprendendo e estudando por si e no trabalho. Neste sentido, o percurso de Barros Queiroz aparece-nos como um verdadeiro protótipo do que era entendido como a democracia139. Ainda recorrendo ao exemplo de Barros Queiroz é importe frisar a ideia de trabalho associada aos republicanos. Neste caso, trabalho intelectual que possibilita tanto o crescimento do indivíduo, como a possibilidade de mobilidade social ascendente. Associada a esta ideia de esforço e de trabalho está a de mérito. Os republicanos mereciam, porque trabalhavam para isso, um lugar de destaque na cidade política.
O percurso de um vulto republicano de primeira água como Brito Camacho traz-nos informações valiosas sobre a formação intelectual e sobre o percurso de um
republicano140. A influência da política francesa, da III República, da figura de
Gambetta e do anticlericalismo foram determinantes na sua visão política. Intelectualmente a sua aprendizagem passou pelo positivismo de Augusto Comte e pelo
139 QUEIROZ, Vasco de Barros, Episódios da vida do político Thomé de Barros Queiroz, Lisboa, Editorial Eva, 1985, pág. 74.
140 MIRA, Ferreira e RIBEIRO, Aquilino, Brito Camacho, Lisboa, Bertrand, s.d. [prefácio de 1942]. De salientar o capítulo “O Homem Público”, escrito por Mira Ferreira.
evolucionismo de Spencer. De igual modo, os nomes de Darwin, Buchner, Huxley e Haeckel fazem parte da sua biografia intelectual.
Em vários casos, a conversão era descrita de uma forma simples. Aquilino Ribeiro diz do regicida Alfredo Costa: “Era um romântico, formado para a vida civil nos Mistérios do Povo, para a política, a ouvir a cantata de Convenção por toda a plêiade de idealistas impenitentes.”141 O texto Os Mistérios do Povo é uma obra do escritor francês Eugène Sue (Marie Joseph Sue) que foi deputado e socialista, tendo escrito romances sociais, de entre os quais, e para além do referido, podemos recordar Os Mistérios de Paris e O
Judeu Errante. A obra Os Mistérios do Povo (1849) tem um esclarecedor subtítulo: História de uma família operária através dos tempos. Eugène Sue procurou fazer, não a
história dos reis, mas a o que ele apelidou de nossa história, isto é, de proletários e
burgueses142. Podemos encontrar três edições em português. Uma da Empresa Editora
do Mestre Popular, sem data mas do século XIX; outra da Tipografia Franco- Portuguesa, datada de 1867; a terceira, sem data mas, em princípio, já do século XX, da Biblioteca Popular. Alfredo Costa, fazendo fé na sugestão de Aquilino Ribeiro, aprendeu a ser republicano através de um romance, acentuando a consciência das desigualdades sociais, através da história da Revolução Francesa, da Convenção, dos jacobinos e de Robespierre e ainda de toda a plêiade de idealistas impenitentes, ou seja através de exemplos de homens que lutaram pelos seus ideais.
Luz de Almeida relatou143 o percurso de Constantino Mendes, o “Norte” um homem de “ideias avançadas” e que tomou parte activa nos movimentos revolucionários de 28 de Janeiro de 1908 e no 5 de Outubro de 1910. Foram os folhetos libertários, que lia e fazia circular, que o tornaram um “revoltado”. A rede de contactos pessoais foi determinante para a politização de Constantino, que conviveu com anarquistas do Grémio Obreiros
do Futuro, com conspiradores do café Gelo, com operários e republicanos combativos.
José de Carvalho deixou-nos nas suas Memórias de um Revolucionário Civil144 o
caminho percorrido para começar a amar a República. Foi no mundo da imprensa de finais do século XIX em Vila Real que começou a privar com republicanos, nomeadamente com Manuel Maria Coelho. Esta convivência com homens deste
141 RIBEIRO, Aquilino, Um escritor confessa-se, Lisboa, Bertrand, 2008 (1974), pág. 278.
142 Eugène Sue citado em RONCARI, Luiz, Literatura brasileira. Dos primeiros cronistas aos últimos
românticos, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
143 ALMEIDA, Luz de, “A obra revolucionária da propaganda. As sociedades secretas.” In Montalvor, Luís de (dir.), História do Regimen Republicano em Portugal, Lisboa, Ática, 1932, pág. 246.
144 CARVALHO, José de, Antes e depois da República. Memórias de um Revolucionário Civil
(oficialmente desconhecido) e empregado público pouco lembrado para recompensas, Lisboa, edição do autor, 1923.
movimento foi fundamental para a sua republicanização. Das leituras, as suas referências são Victor Hugo e Eugène Sue. A imprensa republicana tem um lugar de destaque, sendo que José de Carvalho lia O Século, de Magalhães Lima, A Vanguarda, de Faustino da Fonseca, Folha do Povo, de J. Ferreira e ainda o jornal humorístico O
Berro. Este exemplo ilustra a importância que os órgãos de imprensa tinham na
formação da consciência política, perante as dificuldades sentidas na constituição de uma biblioteca particular, apesar de existirem edições baratas (e consequentemente de baixa qualidade).
As memórias de Maria Veleda145 ajudam-nos a perceber a politização e o percurso de uma republicana. Colaborando em vários órgãos de imprensa, muitos deles regionais, foi tecendo uma rede de contactos, alguns dos quais fundamentais para a sua aprendizagem política, outros centrais para a seu trabalho de escrita. A colaboração com a revista folclórica A Tradição, permitiu que conhecesse Ladislau Piçarra e Manuel Dias Nunes, republicanos e livres-pensadores, de quem, segundo Maria Veleda, recebera as primeiras ideias emancipadoras que a guiaram vida fora. Foi através de um conhecimento pessoal, o comerciante J. D. Pires, que conseguiu a colocação como professora–regente no Centro Escolar Dr. Afonso Costa. Nesta fase da sua vida considerou importante conhecer o republicano Agostinho Fortes, que tinha um estabelecimento de ensino que acolhia o seu filho. Foi no Centro que conheceu vários republicanos, de entre os quais o patrono do mesmo, Afonso Costa, começando a ler jornais políticos como O Século e a Vanguarda, de Magalhães Lima. Maria Veleda começou a publicar artigos na Sociedade Futura, da qual eram directoras Ana de Castro Osório e Olga de Morais Sarmento, interessando-se pela questão feminista, colaborando também na Vanguarda, com artigos dedicados ao mesmo tema. Próxima de Ana de Castro Osório e de Paulino de Oliveira, adensava-se a sua rede de amizades com individualidades ligadas ao feminismo e ao republicanismo. A sua pertença ao Centro Afonso Costa abriu-lhe as portas para a ida a conferências políticas. Frequentadora de sessões públicas e de conferências, Maria Veleda conheceu os “(…) homens mais notáveis da família republicana (…)”146 e colaborou em acções de propaganda eleitoral. Pela mão de Boto Machado passou de assistente a oradora em sessões republicanas. Os seus caminhos cruzaram-se com o feminismo e com a pertença à LRMP bem como com
145 República, vários números de Fevereiro a Abril de 1950.
146 VELEDA, Maria, “Memórias de Maria Veleda”, República, 3 de Março de 1950.
o livre-pensamento. O seu percurso político não terminou com a implantação da República. Antes pelo contrário, o seu percurso foi marcado pela participação política. Para além da importância de se aprender a ser republicano, o movimento e o partido precisavam de adesões, tanto de desconhecidos como de figuras públicas. Para isso apelavam aos homens independentes, tentando cativar aqueles que, descontentes com o andar dos negócios públicos, não estivessem seguros da sua convicção monárquica. As adesões ao partido republicano significavam, a seus olhos, que cada vez mais pessoas reconheciam as suas razões e a validade da sua luta. Por isso, os jornais publicitam as listas de “conversões”. Sem dúvida que uma das mais importantes foi a de Bernardino Machado. E, por isso, este político foi bastante visado pela crítica da imprensa monárquica, sendo muitas vezes tratado de forma pejorativa como El Presidente, que procuraria encontrar todos os pecadilhos da sua actuação política na monarquia constitucional, acusando-o de ditador quando passou pela cadeira ministerial. Os jornais monárquicos não deixavam, ainda, de jogar com a ironia dizendo que viam nas listas de
adesão aos republicanos tantos capitalistas147, como se se estivesse perante uma
contradição, por parte dos republicanos, que afirmavam defender o povo trabalhador. Para além de Bernardino Machado, existiram outras adesões importantes. Durante o período franquista, no final de 1907, os republicanos acolheram no seu campo político Augusto José da Cunha e Braamcamp Freire. A causa imediata ou a justificação para esta adesão prendeu-se com o comportamento do rei D. Carlos I. Foram as suas declarações ao redactor do Temps, consideradas ofensivas para os políticos, que explicaram esta mudança de campo. Em 1910, Miguel Bombarda fez a sua profissão de fé republicana. A 3 de Julho realizou-se um comício, presidido por Teófilo Braga, num recinto junto da avenida D. Amélia no qual falaram alguns dos mais destacados vultos do PRP, sendo apresentado Miguel Bombarda, apenas alguns dias depois da sua entrada no partido148. Pouco depois da sua adesão, Miguel Bombarda foi um dos cérebros do 5 de Outubro e, depois da morte, como veremos, figura maior no panteão republicano.