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A coleção Biologia (MENDONÇA, 2013) não apresenta os conceitos estudados nesta tese de maneira destacada, carecendo de definição para os três e com raros exemplos a eles relacionados. Os critérios de análise propostos são, portanto, muito pouco úteis para esta obra. Uma busca por palavras no DVD ROM que acompanha a obra mostrou que biodiversidade é uma palavra raramente usada no texto, com grande parte das ocorrências relacionadas a exercícios e ao Manual do Professor; diversidade tem quase sempre o sentido estrutural; sustentabilidade aparece em dois exercícios; sustentável e sustentabilidade aparecem uma vez e conservação não foi localizada, apesar de estar presente no texto pelo menos uma vez. Considerei a possibilidade de esses temas aparecerem como parte de alguma discussão em que não fossem explicitados, mas isto não se confirmou. A obra tem uma estrutura muito voltada a tópicos de apresentação de formas e funções, com textos curtos, sem uma estrutura narrativa mais elaborada. Como na obra de Lopes e Rosso, as unidades para o estudo dos seres vivos são denominadas Diversidade biológica I, II e III, diferindo daquela por incluir nelas vírus, procariontes e todos os grupos de eucariontes.

No capítulo 3 do primeiro volume, a obra discute os desequilíbrios ambientais e em Desafios para o futuro, ao se referir aos temas lixo, reciclagem, consumo, desmatamento e aquecimento global, entre outros56. A urbanização e a

55 As discussões sobre meio ambiente se concentram nos capítulos de 2 a 5 do primeiro livro (BR2.1),

páginas de 44 a 143, e é sobre esse recorte da obra que é feita a maior parte das análises.

56 Em meio a esta discussão, é dado destaque para uma citação que aparece em uma caixa de texto:

“Não herdamos a terra (sic) dos nossos antepassados, mas a tomamos emprestada de nossos descendentes futuros”, creditada como “antigo provérbio indígena” (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 83). Citações com este mesmo sentido vêm sendo utilizadas amplamente, inclusive em documentos oficiais,

industrialização são usadas para descrever a sociedade contemporânea, assim como a redução contínua das populações rurais, associando à primeira um padrão de consumo que excede suas reais necessidades e gera grandes volumes de resíduos, com níveis de poluição crescentes, inclusive não materiais, como sonora e visual. O texto segue pontuando que “cientistas afirmam que, apesar de terem existido períodos de desequilíbrios ecológicos e extinção de espécies ao longo da história da Terra, nenhum deles ocorreu de forma tão rápida e intensa quanto agora”, um claro exagero se considerarmos os fenômenos que encerraram o Cretáceo (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 82).

A autora apresenta os problemas ambientais como dependentes de soluções complexas que não poderiam ser alcançadas por leis ou ações governamentais, mas que podem ter decisiva contribuição pessoal, citando como exemplo a reciclagem de materiais e a participação na coleta seletiva de lixo, a reutilização e o reaproveitamento. O consumo consciente ganha destaque na discussão:

A simples decisão do que vamos consumir, de se vamos comprar um produto cuja embalagem pode poluir o ambiente, ou se vamos sair de carro em cidades onde o nível de poluição do ar é alarmante, onde e como vamos jogar os “lixinhos” do dia a dia – tudo isso, feito por você e seus colegas, já terá um efeito positivo para o ambiente da escola, do bairro, da cidade e do planeta.

Quando decidimos, por exemplo, não comprar um produto embalado em diversos saquinhos plásticos, estamos enviando uma mensagem aos fabricantes e vendedores: não queremos adquirir algo que gera tanto lixo desnecessariamente (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 83). Existe aqui uma mescla de narrativas, problematizadora e otimista, e um viés de aplicabilidade que claramente aposta no protagonismo dos leitores. Outras duas questões discutidas são o aquecimento global e os resíduos sólidos. No primeiro caso há um texto centrado no histórico das negociações para a assinatura do Protocolo de Kyoto, numa narrativa sistematizadora. Já a questão dos resíduos sólidos é abordada em A duração do lixo no meio ambiente, que trata do ciclo de vida de diferentes tipos

e atribuídas a diferentes autores, muitas vezes, como aqui, apresentadas como um provérbio indígena. A origem da frase pode ser mais recente: a página Quote Investigator

(http://quoteinvestigator.com/2013/01/22/borrow-earth/, acesso em 29 dez 2015), situa em 1971 a primeira manifestação com este sentido. Assim, caso este seja o verdadeiro momento do surgimento dessa ideia, ela não seria uma expressão da sabedoria ancestral de povos tradicionais pré- colombianos, mas uma manifestação recente de um estilo de pensamento desenvolvido contemporaneamente, em resposta à crise ambiental.

de material, e argumenta no sentido da necessidade da aplicação do princípio dos três erres, reduzir, reutilizar e reciclar, que são apresentados de maneira contextualizada. Em uma alusão aos resultados da reunião RIO+20, realizada em 2012, são acrescidos outros erres “como meta para o desenvolvimento sustentável de uma sociedade”, cada um seguido de breve descrição de como podem ser aplicados: repensar, recusar, reeducar e recuperar. Há uma citação à Política Nacional de Resíduos Sólidos e à determinação de fechamento dos lixões, e o Parque Villa-Lobos, na cidade de São Paulo, é apresentado como exemplo de recuperação de área degradada pelo despejo de resíduos da construção civil (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 86-88).

Merece reflexão um exemplo de desequilíbrio ambiental que teria sido provocado pela tentativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) de erradicar a malária em Bornéu, no Arquipélago Malaio, na década de 1960, com o uso do inseticida DDT (dicloro-difenil-tricloroetano) para combater o mosquito transmissor. A aplicação do DDT teria levado a uma cadeia de acontecimentos que envolveram o aumento das populações de ratos, a redução das populações de outros insetos além dos mosquitos, de lagartos e gatos domésticos, e à proliferação de baratas que comiam a palha do teto das casas dos habitantes locais provocando seu desmoronamento (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 118). Este episódio gerou muito interesse no meio científico, tanto pelo desequilíbrio provocado pelo uso de inseticida, tido a época como uma resposta definitiva para o combate a determinadas zoonoses, como pelo fato de ter sido a primeira situação documentada de morte de mamíferos em uma cadeia de acumulação de DDT no meio ambiente (O'SHAUGHNESSY, 2008). O texto atribui a baratas a predação da palha do teto das casas, mas na verdade se tratavam de lagartas de um tipo de lepidóptero (thatch-eating caterpillars) e não uma espécie de barata (Blattodea). Apesar de ser uma narrativa em que tudo se encaixa, a versão do livro de Mendonça é uma entre muitas que circulam desde que esses eventos tornaram-se públicos, e que incluem ainda uma grande controvérsia sobre se os gatos teriam sido lançados na ilha por paraquedas em uma operação militar (Operation Cat Drop), o que gerou uma grande quantidade de publicações que vão desde livros infantis até artigos em revistas de medicina e de história da ciência, e que foi potencializado com o advento da rede mundial de computadores (MODIS, 2005; O'SHAUGHNESSY, 2008). Este é um bom exemplo de como ideias circulam entre diferentes coletivos de pensamento, nem sempre de maneira precisa, e, da mesma

forma, chegam a um público com alta capacidade de solidificar a mensagem como verdadeira.

A introdução de espécies exóticas é discutida em duas oportunidades. A primeira, Abandonados por traficantes, papagaios nordestinos ocupam Sul, texto baseado em outro publicado no jornal Folha de São Paulo, em agosto de 2012, com o mesmo título57. Trata-se de um relato da presença de papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) na cidade de Porto Alegre e em outras cidades gaúchas. A matéria escolhida pela autora tem a característica de ter sido publicada em jornal de circulação nacional, tratar de assunto atual e oferecer a professores e alunos a possibilidade de refletir e discutir sobre práticas ambientalmente danosas, como o tráfico de espécies silvestres e a introdução de espécies exóticas, mas é na verdade uma fonte de desinformação e preconceito. Na matéria original lê-se que o Ibama e a prefeitura de Porto Alegre preparam um censo dos papagaios, e que “após o censo, a ideia é capturar os papagaios e realocá-los no hábitat de origem” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2012). No livro, a mesma informação aparece com outra redação: “Após o censo, a ideia é capturar as aves e realocá-las no hábitat de origem, em áreas verdes de Estados como Piauí, Tocantins e Bahia.” Ocorre que a distribuição natural de Amazona aestiva inclui os estados do Piauí, Pernambuco, Bahia, Tocantins, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Amazonas e Acre, além da Bolívia, Paraguai e da Argentina (SICK, 2001; SIGRIST, 2014). Não há, portanto, qualquer razão para se atribuir a origem dos invasores de Porto Alegre aos estados do Nordeste, e seria muito mais razoável supor que esses espécimes tenham vindo de bem mais perto, do Paraná, Paraguai ou Argentina, por exemplo. Além disso, a chamada da matéria do jornal, e repetida integralmente no texto do livro, parece feita sob medida para reforçar o preconceito de determinados setores do sul do Brasil em relação à presença de nordestinos em seus estados, utilizando a expressão “ocupam Sul”. A autora parece não ter dimensionado corretamente a repercussão da escolha deste texto para seu livro, tanto do ponto de vista da informação sobre a distribuição geográfica de uma das espécies de psitacídeos brasileiros mais conhecidas, e relativamente comum em grandes

57 O texto da Folha de São Paulo é atribuído a Natália Cancian, mas esta informação não pode ser

confirmada, pois na edição impressa do jornal não aparece a autoria do texto (FOLHA DE SÃO PAULO, 2012).

centros urbanos como Brasília e São Paulo, como por seu potencial de estimular e reforçar o preconceito em relação aos nordestinos.

A segunda discussão sobre espécies exóticas trata do capim-gordura que é apresentada em foto do sul de Minas Gerais, e está na forma de proposta de atividade prática, não sendo, portanto, objeto de análise deste trabalho, mas vale um breve comentário, diante da falta de outras opções para esta coleção. O texto informa que “as plantas invasoras produzem prole fértil e numerosa, e suas populações têm o potencial de se espalhar por grandes áreas” Prossegue dizendo que “o capim-gordura é uma gramínea nativa da África, e tem despertado a atenção de pesquisadores brasileiros, preocupados com a conservação biológica” A partir daí, é solicitado ao aluno que monte um experimento para determinar a influência do capim-gordura sobre uma determinada espécie nativa e é acrescida a informação de que “há previsões de que o Cerrado seja praticamente eliminado das áreas não protegidas por lei, até 2030” e que, no momento, “cerca de 5,5% das áreas de Cerrado estão protegidas por Unidades de Conservação ou reservas indígenas” (MENDONÇA, 2013, v.1, p. 135). Essa afirmação ganha importância por se contrapor àquela de Lopes e Rosso de que chamava de exagerada a preocupação com o futuro da região de domínio dos cerrados. Já é possível inferir, a partir dessas duas posições contraditórias, que o LD brasileiro de biologia toma posições em relação ao meio ambiente e que estas devem refletir coletivos de pensamento que não estão apenas no campo do conhecimento científico, mas aproximam-se de posicionamentos políticos.

Mesmo oferecendo pouca oportunidade de análise texto pelos critérios definidos por este trabalho, o livro de Vivian Mendonça possibilitou outro tipo de abordagem crítica importante para esta tese. Em uma primeira oportunidades, quando narra o combate ao mosquito vetor da malária, a obra reproduz informações que não têm comprovação histórica, em um exemplo de como o saber popular dialoga com o círculo esotérico, em uma interação intercoletiva que pode servir para legitimar fatos sem comprovação, o que poderia ser evitado com a verificação da situação narrada (FLECK, 2010, p. 166). O segundo exemplo é o da discussão da presença de papagaios-verdadeiros na cidade de Porto Alegre a partir de uma reportagem do jornal Folha de São Paulo. Neste caso, a obra legitima um texto que é incapaz de articular informações básica e facilmente verificáveis sobre a espécie, como sua distribuição

geográfica. Mais que isso, sugere uma “invasão nordestina” no Sul do Brasil, em afirmação potencialmente reforçadora de preconceitos.