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Symbolon og apofasis: Symboltenkningens apofatiske fundament

Epistula 9: Om symbolsk teologi

5 Symbolon og apofasis: Symboltenkningens apofatiske fundament

As atividades de cunho burocrático e administrativo são criticadas pelos professores ao contribuírem para um acúmulo de trabalho e dificultarem a dedicação integral às atividades criativas, intelectuais e formativas, como a pesquisa, produção acadêmico-científica, orientação e o ensino, nas quais o professor supostamente sente maior prazer e sentido. Faceta ambivalente foi perscrutada na subseção anterior quando referiu-se aos ofícios dotados de satisfação e insatisfação no magistério superior. Mas, a psicodinâmica do sofrimento e prazer é mais complexa do que a mera dicotomia posta. E nas trilhas da dialeticidade e do movimento contraditório existente neste par é que arguiremos, nesse item, não apenas as críticas e os descontentamentos existentes no fazer administrativo e burocrático, a que poderíamos considerá-lo não prazeroso e com potencial a intensificar as dimensões do sofrimento no trabalho, mas arguiremos, também, que por detrás existem potencialidades sublimatórias e imbuídas de sentido ético-político nestas atividades.

O trabalho burocrático é muito requerido nos novos paradigmas de gestão educacional na universidade. Lima (2012) referindo-se a eles se utiliza do conceito de hiperburocratização que não se exime dos processos de controle burocrático como discursivamente se apregoam, mas sob o discurso da introdução de novas técnicas de gestão a distância - indispensáveis à suposta qualidade, eficiência, produtividade e resultados, institui-se um sistema de autonomia controlada no trabalho. A liberdade laboral se condiciona aos desempenhos individuais e coletivos e a prestação de contas por meio dos dispositivos de controle (formulários, pareceres etc.), deixando assim de ser um trabalho autônomo para ser controlado à distância e centrado em desempenhos. Nesse sentido, o fazer burocrático tem se mostrado central para o funcionamento do atual modelo de gestão das instituições educacionais e, particularmente, a UNESP utiliza-se bastante desse aparato burocrático informatizado. Este fazer que, em tese, seria uma atividade meio do magistério superior tem implicado certa dificuldade para a dedicação do professor às atividades fins da universidade. Nesse sentido, o preenchimento de planilhas, lançamentos de notas no sistema, elaboração de pareceres infindáveis não raramente desviam o foco do professor. Pari passu, esse instrumental é utilizado ainda como forma de controle diretivo ao professor, estando este feito desprovido de sentido ao profissional:

[P: Como fica a questão das atividades burocráticas?] E: Nossa, posso ser sincera? Encheção de saco literalmente, presta atenção, a gente faz o lattes né, aí a gente tem depois do lattes três tipos de planilhas de avaliação, mas escuta está tudo no lattes é só pegar. É um trabalho braçal para o docente que ele perde tempo, porque é um trabalho braçal, pois não existe um mínimo de pensamento intelectual para fazer isso, um mínimo, é tempo cronológico de descanso, de leitura, de atender aluno que a gente perde, eu não vejo sentido mesmo [pausa], para mim é um panóptico [risos] é um órgão de controle [risos]. [P: Mas é bem neste sentido]. E: Exatamente [risos] é terrível, terrível (PAULA, 2014).

O trabalho burocrático, grosso modo, mostra-se para vários professores como desprovido de prazer e sentido, remetendo-se a um ofício prescritivo e, muitas vezes, com traços mecânicos (desprovidos de pensamento intelectual). Este último fato, no entanto, não se estende a todas atividades de tipo burocrática, pois as de natureza mais acadêmica, como a elaboração de pareceres para projetos e artigos científicos possuem uma dimensão intelectual, as quais posteriormente serão apontadas, o que já encaminha para uma relativização unívoca da identificação direta desse fazer sempre com o sofrimento.

O trabalho de cunho burocrático favorece o controle laboral de forma direta ou indireta, por meio de normas e planilhas da CPA, para a manutenção do regime de trabalho na UNESP ou, ainda, para a progressão na carreira. A base do controle abusivo do trabalho, ainda que indireto, está na base da sedução institucional, em que o estabelecimento do pacto narcísico mediado pelo binômio prazer-angústia busca instituir. Sistema de transformação da energia psíquica em força de trabalho:

A empresa gerencial não é tanto uma “burocracia liberal” (COURPASSON, 2000), mas um sistema “sociopsiquico” de dominação, fundado sobre um objetivo de transformação da energia psíquica em força de trabalho. Para canalizar a energia psíquica, o gerenciamento põe em ação certo número de princípios em ruptura com o modelo disciplinar. (GAULEJAC, 2007, p. 108)

Esse sistema de poder está amparado na sedução do professor em que adentra o funcionamento do par angústia e prazer, conforme já esboçamos em momentos precedentes e que será pormenorizado em seção seguinte. Com essa “autonomia controlada” se institui na universidade o reino do controle por desempenhos e da desconfiança. O excesso de planilhas avaliativas, bem como a constante reiteração nos pareceres avaliativos entre as instâncias da universidade (departamento, congregação, CPA etc.) criam um controle sistemático do professor, não sem haver criticas e uma série de constrangimentos:

Agora, sei lá, o que é mais chatinho são esses projetos, esses pareceres que são mesmo mais burocráticos no sentido de, por exemplo, avaliar o trabalho do colega. Não que eu não goste, mas eu acho assim: está todo mundo vendo que isso daqui está tão bom, né, [risos], porque eu ainda

preciso contar quantas publicações ele fez, está tudo tão certo, né, [risos], olha aqui. Agora mesmo eu estou com um parecer trienal, que eu estou sendo parecerista pela Congregação. O parecerista do departamento já fez um parecer tão bom, tão certinho, redondinho, a pessoa avaliada é ótima, está tudo ali, mas eu ainda tenho que fazer um outro parecer, entendeu? (...) O que irrita um pouco, é vamos dizer, você elaborar um parecer em cima daquilo que já está dito, que já está tudo tão perfeito, né [risos], a minha vontade era dizer assim: olha está tudo maravilhoso, não tem o que acrescentar. Mas eu ainda tenho que redundar, contar, que dizer se cumpriu as horas, se cumpriu aquilo. Então, assim, na verdade é menos o incômodo de fazer o parecer do que o princípio que está por trás da exigência desse parecer. Que pela terceira você dizer que o cara é bom, sabe? (...) Esse princípio dessa reiteração, o tempo todo, você tem que dar conta e parece que nunca você dá conta o suficiente, porque acho que é isso que está por trás dessa insistência nesses pareceres, por mais que você faça parece que sempre tem que vir alguém para dizer que você está fazendo, sabe. E isso gera, eu acho que uma ansiedade mesmo, né, tanto do ponto de vista de quem está sempre submetido a essa avaliação que somos todos nós, como de quem está fazendo naquele momento o papel de avaliar o trabalho do colega. (SUELI, 2014).

O descontentamento com o trabalho burocrático não ocorre apenas em decorrência do trabalho repetitivo e algumas vezes mecânico ao se conferir as produções e atividades desenvolvidas pelo avaliado, mas surge, também, pelo descontentamento com o princípio avaliativo e punitivo dos instrumentos. Nesse panóptico, como bem lembrou Paula, o sentimento de desconfiança em relação ao professor é constante, pois se vende a imagem de que o professor é um criminoso seja no sentido de fraudar os relatórios para benefício próprio ou, ainda, de fraudar os pareceres para benefício do outrem ou para prejudicá-lo. É elevado o custo de uma suposta confiança do sistema de avaliação do professor, pois não só ele acumula o docente de trabalho, quanto ele desvitaliza o sentido de seu fazer em decorrência das constantes reiterações de pareceres. O funcionamento da estrutura de gestão universitária cria no docente, por meio dos valores e das normas, a sensação de angústia e de não se estar à altura do ideal da universidade e de seu trabalho. O professor, defronte desse sistema dual que ora oferta um “amor” recompensador, ora ameaça retirá-lo (AUBERT; GAULEJAC, 1991; PAGÈS, et al., 1990), vem tornar-se refém das normas, reafirmando-as para si, como Sueli expressou: “esse princípio dessa reiteração, o tempo todo, você tem que dar conta e parece que nunca você dá conta o suficiente”.

O trabalho administrativo é outra atividade que gera grande acúmulo de trabalho ao professor, não apenas pelo seu desempenho em si (trabalhar com papelada, gerenciamento de funcionários etc.), mas por estar atrelado a uma gama de comissões a participar. A insatisfação é ilustrada por muitas faces à grande dedicação deste ofício, potencializando o já intensificado ritmo de trabalho. Boa parte do tempo do professor é consumido, de forma que não é incomum ele se estender no âmbito doméstico, adentrando pelas madrugas o trabalho, como se ilustra no depoimento:

Eu sinto os efeitos disso [invasão do trabalho no âmbito privado], por exemplo, ontem à noite: atualmente eu sou vice-chefe de departamento, estava me comunicando com a chefe que estava aqui, porque na casa dela não tem internet, ela ficou aqui até às 22h cuidando de atas e eu não estava aqui, estava em casa, eu estava trabalhando, fazendo as minhas coisas, fechando notas e alimentando os dados do sistema [risos]. Então, com a compressão do tempo, você vai usando todo o tempo que você tem: trabalhar à noite, de final de semana, de feriado. É até esquisito eu me pronunciar sobre isso porque é uma coisa que eu sempre fiz, desde o começo, desde que eu entrei aqui. Mas, com o tempo começou a ser quase todos, assim, fazia muito, mas não todos, agora, é praticamente em todos [os fins-de-semana] (MARIO, 2014).

A multiplicidade de demandas multiformes de trabalho, as pressões por produção acadêmica, a internalização do ideal de excelência que conduz a busca pela perfectibilidade, a superação de si e dos outros e a auto cobrança excessiva e a grande demanda de trabalho administrativo e burocrático são os motivos para a invasão do trabalho no âmbito privado do profissional e para a degradação de seu bem-estar. Invasão que já foi amplamente analisada pela literatura e que advém pela: “indissociação do tempo e espaço pessoais e de trabalho - o trabalho que extrapola o campos e invade a vida pessoal e familiar” (SGUISSARDI, SILVA JÚNIOR, 2009, p. 234). No tocante a isto, tem-se que 80% dos professores analisados expressam desenvolver atividades relacionadas ao trabalho nos finais de semana, realidade que dentre os entrevistados amplia-se para a totalidade. Vê-se, assim, que a jornada de seis ou sete dias na semana, desenvolvida nos três turnos, é uma realidade característica desse grupo profissional, apresentando semelhança com outras profissões dotadas de jornadas de trabalho flexíveis e avaliadas por desempenhos - faceta que será melhor exposta na seção seguinte.

A insatisfação com o acúmulo de trabalho no âmbito burocrático e administrativo advém, ainda, por constantemente o professor que desempenha tais funções precisar lidar com prazos exíguos, com imprevistos e gerenciar problemas de relacionamento, como a entrevistada narrou:

Humm, então, é muito estressante, não vejo a hora de voltar a uma vida normal de docente e pesquisadora. O que é mais triste, o que é mais difícil é ter que assumir um lugar que você tem que mexer com dinheiro, burocracia, botar panos quentes em tudo e a toda hora, né? Apagar incêndio: você apaga incêndio todo dia. Então, eu não nasci para ser gerente de empresa [risos], eu não quero, não escolhi fazer isto, mas estou aí nesta situação (CLAUDIA, 2014).

Como o trabalho de gestão possui grande responsabilidade, elevada carga de trabalho física e psíquica é desprendida nesse fazer. Nesse ponto, o professor precisa lidar com dinheiro, burocracia e saber gerenciar conflitos e outras atividades sem, por vezes, se identificar e ter preparação para desempenhá-los. Com a individualização das relações humanas na universidade, como Silva (2015b) também percebe, não raramente a dinâmica da cooperação-retribuição tem, em certo sentido, ficado aquém do ideal para se ter um trabalho

vigoroso e prazeroso e, muitas vezes, fica sob o encargo do chefe de departamento, do coordenador da pós-graduação etc., gerenciar os conflitos.

Ademais, no desempenho de funções opostas, isto é, professor e coordenador, não é raro o profissional ter certa crise de sentido no desempenho desses papéis, como Claudia desabafou:

Se tem o lado professor e o lado coordenador [risos]. O lado professor sabe que tem que produzir produtos de qualidade, né? (...) e o lado do coordenador que é o compromisso de que os professores façam isto, de que a gente consiga isto no grupo, então, é um pouco esta questão. (...) Se tem, então, o compromisso de orientar os professores sobre o que está acontecendo, qual é o discurso da CAPES, qual é o de Comitê de Área, o que o programa nosso tem que fazer para continuar como está e o que falta fazer. Então, é este exercício estressante de se colocar nesta posição e cobrar dos colegas. [P. Mesmo tendo uma postura crítica]. E: É claro, porque a postura crítica significa dizer: olha isto está errado, tá? É uma luta nossa, mas é uma luta que é a longo prazo, já a nota é a curto prazo, entendeu? Você tem que ser pragmática: assim precisamos disto neste momento, tá? Não é possível no programa uma situação como essa: o professor que não tem produção. O que a gente faz nesta situação: a gente vai descredenciar o colega, a gente vai pedir para ele produzir ou a gente vai transformar ele em colaborador? Talvez a saída seja colocar ele em colaborador porque você não perde nada na UNESP - na carreira dele - e dá um tempo para ele se organizar, né? E dá um tempo para ele voltar a ser permanente, né? Então, o trabalho é este jogo político na relação com os colegas, é esta preocupação nossa de não prejudicar ninguém, porque hoje quem não está na pós-graduação não tem uma série de benefícios. Por outro lado, se o programa abaixa nota prejudica todo mundo por conta de recursos, né? Você não consegue recursos para ir aos eventos, você não consegue concorrer a editais, então, pensando na carreira dos colegas, você não quer prejudicar ninguém, né? É difícil este jogo, é estressante, para mim é o que é terrível (CLAUDIA, 2014).

No paradoxo a qual Claudia se envolveu - no cumprimento de papéis com racionalidade opostas, verifica-se certa cisão do ego, pois ora sente-se na iminência de requerer dos pares o cumprimento das normas, ora sente-se que elas são injustas e demasiado nocivas à coletividade. Tais papéis tem ocasionado certa crise de sentido em decorrência do debate que se põe entre sua condição humana (percepção da realidade, valores e princípios) e o pragmatismo que o cargo exige. O fato da avaliação ser externa conduz os coordenadores de pós-graduação a uma situação de angústia pelo rebaixamento do conceito CAPES e, como consequência, a perda de financiamentos aos estudantes e aos professores (SGUISSARDI; SILVA JÚNIOR, 2009). Por outro lado, o prazer pelo sucesso, reconhecimento e prestígio, também, aquilatam nessa situação, evidenciando o desejo pelo programa de pós-graduação ser bem avaliação e quiçá ter o conceito elevado no processo de regulação da CAPES. Desse modo, vê-se que dinâmica prazer e angústia é a base desse envolvimento psíquico com o trabalho (PAGÈS, et al., 1990). Nesse embate, a docente precisa equilibrar psicologicamente o conflito entre o desempenho de papéis com racionalidades opostas para evitar a

descompensação – dimensão que será analisada na retomada desse discurso na seção 7 com maior vagar.

Para além da ênfase no potencial não prazeroso do ofício administrativo, a dinâmica envolta é mais complexa que o binômio prazer e sofrimento. O prazer não está eliminado desse ofício, pois há alguns (poucos) docentes que se identificam com o trabalho administrativo e possibilidades de prazeres autênticos e fetichizados estão presentes. Anteriormente, vimos que o pacto narcísico se estabelece no desempenho de funções administrativas de destaque no universo acadêmico, pois elas permitem a progressão na carreira e a posse de um poder político na instituição. Ademais, a identificação com esse fazer ocorre, também, porque ele dá a possibilidade para o professor cooperar para o bom andamento da instituição, tendo, dessa forma, importante sentido social envolvido, ainda que gere grande carga de trabalho:

Já fui de quase todas as comissões que tem aqui. Já fui do conselho de curso; já fui chefe de departamento; fui coordenadora da pós-graduação [supressão dos outros cargos e comissões]. (...) Aí, normalmente, a gente faz o nosso bate e volta: sai daqui às 5h da manhã para chegar na reunião em São Paulo, e sai na hora que reunião acaba, tem vezes que chego aqui às 21h, 22h. É puxado! Essa comissão está me tomando bastante tempo, mas antes eu trabalhava muito mais do que isso. [P: Essas atividades demandam um grande empenho seu, mas você sente prazer com elas?] E: Depende. Essa comissão [nome subtraído] é uma das mais temidas da UNESP (...), mas a reunião em si era uma das melhores que eu participava, era das mais agradáveis, porque o grupo de pessoas era muito interessante. (...) Nessa comissão que eu estou agora, é uma comissão que me dá prazer, porque tem um caráter muito acadêmico. Eu gosto mais das comissões que são voltadas mais para as questões academia do que para as políticas. Eu vou para uma política agora. (...) Isso acho legal. E as condições para a participação dessas comissões estavam muito boas. A gente estava vendo um esforço da universidade para melhorar (GABRIELA, 2016).

A entrevistada já atuou na maioria das funções administrativas de sua unidade e participou de várias comissões dos órgãos centrais da UNESP cujos nomes foram subtraídos. O perfil do profissional determina a maior ou menor identificação com certa atividade e Gabriela apresenta grande envolvimento com esse tipo de trabalho. Aquilata a sua identificação, a existência de um sentido ético-político, pois nesses espaços ela sente-se partícipe do processo de construção dos rumos da universidade, cooperando para a melhoria da instituição. O potencial prazeroso e gerador de sentido no fazer administrativo não está eximido e, inclusive, estabelece relações dialéticas e contraditórias com o sofrimento de tipo criativo e patogênico. Tal fato pode ser percebido por meio do relato de Claudia. Anteriormente, a docente expressou descontentamento com o trabalho na coordenação da pós- graduação por lhe gerar sobrecarga, pressões e crise de sentido pela duplicidade de papéis. No

entanto, a possibilidade de conhecer e atuar na definição dos rumos da pós-graduação e da educação superior brasileira tem inscrito em si importante dimensão ético-política:

Você quer se livrar de um monte de coisa, mas tem muita coisa que é importante para você, né?

Assim, você não faz por obrigação, às vezes, a obrigação é porque é muita coisa: aff tem agora que fazer isto. Mas são coisas que eu gosto de fazer. Então, assim, o que eu não gosto é cuidar de papel, de dinheiro. Mas estas coisas da pós-graduação, eu acho que mudei muito porque eu aprendi muito com isto, né? Eu passei a olhar para o Brasil diferente, é um outro lugar porque você vê um monte de coisas de acontecendo: como se pensa em ciência assim, né, olha o que estão fazendo com a gente [risos]. Você vê este movimento de cima para baixo, eu descobri isto na coordenação da pós-graduação, entendeu? Então, isto para mim foi muito importante, pois me dá uma visão do meu trabalho que acho que é privilegiada, entendeu, neste sentido. E aí, saindo da coordenação acho que não vou querer sair desta política, né, porque ela é que dá andamento para tudo o que a gente faz, e, eu quero participar, né? No sentido de poder buscar caminhos. Então, você vê, as vezes, que os colegas que foram coordenadores continuam na ativa: respondendo aos e-mails, dando opinião, indo aos eventos - a gente pede quem pode ir aos eventos representar e eles vão. Sabe você vê que esta experiência faz a gente ver a universidade com outros olhos, nem melhor nem pior, mas você entende um pouco o funcionamento, e, entende que é uma construção, né? E quer participar desta construção por mais difícil que seja, né? Eles querem saber o que o Demerval está falando? O que aconteceu na reunião? Você vê que os colegas estão preocupados com isto, porque, é uma questão que eles sabem que envolvem todo o processo da pós. Que não é simplesmente ir dá aula e orientar trabalho, que tem uma politica por trás que está definindo isto tudo (CLAUDIA, 2014).

O trabalho administrativo permite a extração de fonte de prazer e sentido. Impulsionadas pelo sofrimento criativo tem-se a inscrição da subjetividade e da inteligência astuciosa, no sentido de lutar por rearranjos ao status quo (DEJOURS, 2011a; 2011b), aqui referentes à atuação política na construção de novos rumos para a universidade e ciência brasileira. A resistência coletiva ao arbítrio das transformações produtivas no papel e nas práticas universitárias, embora conduzam a lentas transformações, é importante momento de reflexão, de evitação de retrocessos e de articulações para reformas nessas práticas, como a qualificação de livros pela CAPES na área das ciências humanas.

O sofrimento e o prazer se desenvolvem em uma relação dialética e contraditória no ofício do magistério superior. Se o trabalho burocrático e administrativo é para muitos docentes desinteressantes, geradores de sobrecarga de trabalho e limitadores de maior dedicação à ofícios mais prazerosos, por outro lado, tal ofício não é só agruras, uma vez que