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Symbolic Politics Theory

CHAPTER 2. Analytical Framework

2.2 Symbolic Politics Theory

O dramaturgo Fernando de Macedo, de origem são-tomense angolar, busca nas tradições daquele povo e sua cultura os fundamentos para a construção da escrita. Em seu

Teatro do imaginário angolar (2000), as referências locais de São Tomé e Príncipe tornam-

se base de construção das personagens de suas tramas, reconstruídas e novamente situadas num espaço e tempos imaginários.

O primeiro texto a ser analisado, O rei obó (1999), mostra a saga mítica de um rei chamado Amador, que constitui ainda hoje uma referência nacional para toda a população de São Tomé e Príncipe. As forças telúricas e os heróis da “guerra do mato” fazem por tal forma parte dos arquétipos que perpassam o cotidiano são-tomense. No segundo texto,

Capitango (1998), o autor constrói o drama no qual as personagens seguem de perto as

mesmas figuras fixadas por Pascoal Viegas Vilhete, pintor de Santana, São Tomé – também conhecido como Canarim - nos seus quadros sobre o Danço Congo. Apresenta coerência com o seu significado mítico da antiga tradição angolar. Assim, destacam-se com nitidez

dois planos: o primeiro composto pelo Capitão e seus soldados, também denominados Guias, tendo ao fundo os simbólicos “Anjos de cantar”; o segundo plano é composto pelo povo despreocupado ou Bôbos e Pés-de-Pau, protegidos pelo Feiticeiro, e tentados por Lúcifer e pela Rainha e seu algoz. Trata-se de colocar frente a frente dois universos que, sendo completamente diversos, se interpenetram no imaginário popular: a evocação histórica do antigo reino de Anguéné com seu Capitão e guerrilheiros, que asseguram a unidade etno- cultural, e a apresentação de um povo distante do seu passado e, portanto, sujeito quer a forças desmotivadoras simbolizadas por Lúcifer, quer aos apelos centrípetos da sociedade contemporânea, representados pela Rainha. Já em Cloçon Son (1997), o terceiro texto, o título escolhido pelo autor corresponde ao nome de um tubérculo usado em infusão como tônico revigorante. De significado “coração do chão”, toma aqui um sentido múltiplo, de medicamento popular, de coração da terra pátria, ou ainda, da própria personagem a quem a terapia foi aplicada. A ação decorre em Angolares, ao sul de São Tomé, e reflete um cotidiano onde as raízes lendárias se entrelaçam e subveretem, por vezes, a distância temporal e os ditames de uma cronologia lógica.

José Mena Abrantes, por sua vez, retoma narrativas tradicionais originárias da língua

kimbundu, bem como narrativas, também, de São Tomé e Príncipe. Em Nandyala ou a Tirania dos Monstros (1985) o autor inspira-se num conto tradicional nyaneka – região do sudoeste de Angola - e trata da afirmação e aprendizagem de vida de um jovem, sobrevivente junto com sua mãe de um massacre de sua aldeia perpetrado por monstros. A obra, conforme o próprio autor afirma, insinua que os verdadeiros “monstros” nunca vêm do exterior, mas são gerados no próprio meio social do homem ou no interior de si próprio.

Os Nyaneka Nkumbi, segundo a explicação de Mena Abrantes na introdução do drama, formam um agregado humano no planalto do Sudoeste de Angola, que possui unidade étnica e coesão linguística bem definidas. Têm como característica própria o hábito do cultivo da terra e são grandes criadores de gado. Entre eles, no entanto, o oficio mais estimado é o de ferreiro, razão pela qual todos os mestres são iniciados nessa arte por um rito espírita. Para esse povo, a maior parte dos contos da tradição oral são cantados e, por vezes, os narradores alternam as passagens faladas com as partes cantadas. Suas narrativas contam com a presença de monstros, os oma kisi, de aspecto semelhante aos humanos, mas cuja voracidade desrespeita a vida e os outros seres e geralmente recorrem à força bruta para

alcançarem seus objetivos. Esses seres tornam-se, assim, obstáculos a serem transpostos pelas personagens humanas e suas ações.

A narrativa dramática enfatiza as regras de comportamento moral dos Nyaneka Nkumbi, provérbios e outros aforismos populares que condenam o vício e exaltam a virtude. Os povos Nyaneka Nkumbi são muito apegados às suas tradições e lugar de origem, o que explica que tenham sido dos últimos na região a entrar em contato e a adaptarem se à vida urbana.

Em Na Nzuá e Amirá ou de como o Prodigioso Filho de Kimanaueze se Casou com

a Filha do Sol e da Lua (1998), tem-se o drama inspirado em dois contos tradicionais da

área cultural kimbundu, próxima de Luanda, e em dois contos dos Camarões que com eles têm afinidades temáticas. A obra retrata a formação social de um jovem que, confrontado desde seu nascimento com uma ordem social autoritária e discriminatória, à qual se acrescentam interditos culturais impostos pela tradição, consegue romper a ordem vigente e concretizar uma utopia fundada na sabedoria e no amor, sempre recorrendo a recursos fantásticos e à base do saber acumulado pelos antepassados.

E, finalmente, Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante (1989), Mena Abrantes constrói uma comédia que funde contos populares de São Tomé e Príncipe com provérbios e rifões locais, pondo em evidência algumas das características do imaginário e filosofia de vida do povo são-tomense. Em sua compilação, faz uma versão livre para teatro dos contos tradicionais A tartaruga e seu compadre gigante e A tartaruga e Pedro Andrade, de onde retira personagens das mitologias locais e figuras simbólicas como o Gigante e a Tartaruga.

Todos os seis dramas a serem analisados têm em comum o fato de serem baseados em narrativas tradicionais das regiões entre São Tomé e Príncipe e Angola. A reescrita dessas histórias, para encenação, aproxima autores e obras e situa o imaginário dentro do contexto histórico, geográfico, mítico e tradicional dos dois países estudados.

5 DRAMATURGIA SÃO-TOMENSE DE FERNANDO DE MACEDO

5.1 HISTÓRIA DA POVOAÇÃO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E A ORIGEM