A habilidade de adaptação do sistema nervoso a mudanças ambientais denomina-se neuroplasticidade, um conceito amplo que abrange desde a resposta a lesões traumáticas destrutivas até as sutis alterações resultantes dos processos de aprendizagem e memória. Por ocorrer em todos os momentos da vida, é uma característica marcante e constante da função neural (LENT, 2005; MUSZKAT, 2006). Durante o desenvolvimento ontogenético, há uma fase de grande plasticidade – denominada período crítico ou sensível – onde o sistema nervoso do indivíduo é mais suscetível a transformações provocadas pelo ambiente externo. Nesta fase, a influência do ambiente é determinante para o estabelecimento das características fisiológicas e psicológicas do indivíduo (LENT, 2005). Todas as funções corticais superiores da cognição, tais como gnosias, praxias e linguagem, são expressões da plasticidade cerebral, onde são consideradas as alterações em todos os níveis, do molecular ao cognitivo (ROTTA, 2006).
Em lesões hemisféricas, não está totalmente estabelecido qual é o potencial de plasticidade em relação a vários problemas específicos. No caso de crianças que adquirem lesões precoces no hemisfério cerebral direito, qual é o grau, a intensidade e a amplitude com que isso realmente ocorre? Quais funções estão mais preservadas: as da linguagem ou as funções visoespaciais? A relação cérebro- comportamento, no curso do desenvolvimento infantil, supõe a compreensão de dois conceitos fundamentais: a plasticidade cerebral e a lateralização de funções. O entendimento dos distúrbios do desenvolvimento e dos efeitos de lesões no comportamento durante a infância é, de fato, bastante relevante, notadamente quando se quer analisar as diferenças entre os dois hemisférios cerebrais, no que concerne à habilidade de compensar os efeitos de certo dano.
A lesão no sistema nervoso central (SNC) pode ter várias consequências: ser plenamente recuperada, deixar sequelas ou levar à morte. Para cada caso devemos considerar dois aspectos: a gravidade da lesão e a plasticidade cerebral que, no cérebro em desenvolvimento, é muito presente. Apesar de muitas regiões estarem bem conectadas, outras, como o córtex cerebral, estão abertas a inúmeras influências, tanto intrínsecas como ambientais (ANTUNHA, 1998). A ocorrência da lesão em determinada área do cérebro perturba ou impede que ela desempenhe sua função, dando origem ao transtorno primário que, por sua vez, produz sintomas secundários, alterando todas as formas de atividade mental que requeiram a participação desses sistemas cerebrais. Entretanto, uma lesão cerebral local não leva à “perda” direta de uma condição mental particular, uma vez que as partes íntegras do cérebro podem se reestruturar. Quando isto ocorre, a função perturbada pode ser desempenhada de diversas maneiras (LURIA, 1985).
Existem na literatura várias análises a respeito de lesões cerebrais na infância. Diferenças de localização, de envolvimento de áreas críticas e de extensão hemisférica podem determinar manifestações neuropsicológicas diferentes. A topologia das alterações de linguagem do hemisfério cerebral esquerdo na criança difere bastante das que ocorrem no adulto, por exemplo. Assim, uma lesão na área temporal posterior acarreta, em adultos, um déficit de compreensão da linguagem, mas se ocorrerem em crianças, elas resultam, com maior probabilidade, em dificuldades articulatórias da fala. Áreas temporais estão
relacionadas ao nível ortográfico e semântico da linguagem, enquanto áreas fronto-temporais relacionam-se ao processamento sintático e gramatical (Muszkat, 2006).
De acordo com Cypel (1996), a recuperação de crianças que em fases precoces da vida apresentaram lesões cerebrais localizadas ou difusas manifesta características especiais, pois o sistema nervoso central (SNC) encontra-se ainda em desenvolvimento. Consequentemente, quanto mais precoce a ocorrência da lesão, maiores as chances de recuperação integral de uma determinada função, devido à plasticidade do cérebro: áreas do hemisfério cerebral contralateral podem assumir aquela tarefa. Segundo o autor, nos diversos estudos sobre afasia em crianças, há um consenso sobre a compensação do hemisfério cerebral esquerdo, por intermédio do hemisfério direito, em relação à linguagem. Ressalta, no entanto, que a recuperação do indivíduo com afasia, mesmo sendo bastante jovem, está diretamente relacionada à estimulação adequada, no intuito de assegurar o bom funcionamento dos mecanismos preexistentes. Se, por um lado, existe um consenso em relação à compensação hemisférica referente à linguagem, Cypel (1996) destaca que pouco se comenta sobre esse fato em relação às outras funções corticais. “Teriam essas crianças as mesmas chances
ou o mesmo prognóstico observado na linguagem?” (p. 1.055). Para Antunha
(1998), apesar da compensação no plano linguístico, o indivíduo com uma lesão no hemisfério esquerdo poderá apresentar problemas de ordem espacial. Isto se explica porque, ao compensar a função da linguagem, o hemisfério direito, responsável pelas relações espaciais, não apresentará mais condições de bem desempenhá-las, porquanto se ocupou de outras tarefas.
De acordo com Luria (1973) em Cypel (1996), quando as lesões ocorrem em áreas primárias, os prejuízos são piores; já a lesão em áreas secundárias implica a participação de outros circuitos funcionais para a recuperação das funções. A lesão nas áreas terciárias exige, por sua vez, a participação ativa do paciente por longos períodos, com uma perspectiva de recuperação modesta. Sem poder negar a possibilidade de recuperação de uma função por meio da plasticidade neuronal, deve-se mencionar que ela segue critérios muitas vezes não tão evidentes no momento da compensação, mas que se tornam ostensivos
em outras fases do desenvolvimento. Outra coisa a ser ressaltada é que muitas outras funções executadas por regiões específicas do cérebro, não poderão jamais ser desempenhadas por qualquer outra de suas partes, não havendo, portanto, nenhuma esperança de recuperação (CYPEL, 1996).
A despeito de a maioria dos estudos mostrar que a lesão acometida em um indivíduo mais jovem apresenta um melhor prognóstico graças à flexibilidade do sistema nervoso, deve-se ter em conta que, apesar da recuperação, algumas formas de sequela podem se apresentar em fases posteriores do desenvolvimento. Muitas vezes, estas sequelas trazem sérios prejuízos, pois estão relacionadas a funções que só virão a aparecer em fases mais avançadas da vida humana e, portanto, mais complexas. Por exemplo, as funções dos lobos frontais amadurecem mais lentamente e, desta forma, tanto a memória como as funções de planejamento podem sofrer grandes alterações (ANTUNHA, 1998).
Para Sans et al. (2009), durante muito tempo a capacidade de plasticidade cerebral na criança foi interpretada de forma muito simplista, dando a ideia de que os processos de reorganização cerebral depois de uma lesão cerebral difusa compensavam, em sua maior parte, os déficits provocados. Contudo, há inúmeras evidências de repercussões neuropsicológicas a longo prazo de lesões cerebrais adquiridas. Segundo os autores, esse tipo de problema afeta tanto as funções já conquistadas, como também as que se encontram em desenvolvimento e as que devem aparecer no futuro. É por este motivo que os problemas podem surgir muito tempo depois da ocorrência do dano cerebral, quando aumentam as demandas escolares e sociais. A causa mais frequente da lesão cerebral adquirida é o dano cerebral secundário ao traumatismo cranioencefálico grave (TCE). De fato, essa é uma das principais causas de deficiência adquirida na infância. Com os avanços ocorridos nas últimas décadas, houve uma diminuição significativa da taxa de mortalidade de crianças com TCE. No entanto, as crianças que sobrevivem virão, muito provavelmente, a apresentar sequelas cognitivas e comportamentais em médio ou longo prazo. Muitas destas sequelas são muito sutis e só poderão ser detectadas com uma investigação minuciosa e um acompanhamento sistemático de todas as crianças que tenham sofrido um TCE moderado ou grave (SANS et al., 2009).
Na mesma linha de pensamento, Sohlberg e Mateer (2009) afirmam ser possível que crianças que sofreram lesão cerebral em uma fase precoce do desenvolvimento, venham a apresentar falhas de desenvolvimento e déficits inesperados à medida que vão ficando mais velhas.
Embora a teoria do “quanto mais cedo melhor” possa sustentar a verdade de que lesões focais incorrem na infância, a recuperação de uma lesão pré-natal, lesão difusa precoce ou lesão precoce em regiões cerebrais particulares pode ter efeitos profundos e permanentes nos muitos aspectos do comportamento adaptativo (p. 62).
Existem diversos exemplos de lesão precoce adquirida associada a distúrbios graves do desenvolvimento e inabilidade, a longo prazo, como por exemplo, a paralisia cerebral. Este tipo de lesão pode afetar significativamente, a aquisição e o desenvolvimento de habilidades motoras, linguísticas, cognitivas e sociais. Por outro lado, lesões acometidas após a aquisição de uma habilidade podem estar associadas a uma pronta recuperação, uma vez que elas já estão estabelecidas. É fundamental considerar o significado de “recuperação”, porque mesmo em situações que a ela parece ser completa, uma observação mais minuciosa da função pode revelar déficits substanciais (SOHLBERG e MATEER, 2009).
Por exemplo, após lesões precoces da área de linguagem (hemisfério esquerdo), habilidades linguísticas fundamentais podem se desenvolver. No entanto, um exame mais detalhado mostra, inúmeras vezes, limitações residuais nas funções gramaticais e sintáticas, que possivelmente não podem ser sustentadas pelas áreas remanescentes do cérebro. Conforme Eslinger e Damasio (1985), em Sholberg e Mateer (2009), existe evidência de que uma lesão precoce nos lobos frontais pode ter efeitos arrasadores a longo prazo, no desenvolvimento de diversas variedades de destrezas sociais. No entanto, tais efeitos não são evidentes até chegar a época em que se espera que tais habilidades se manifestem. E, “embora seja verdade que cérebros mais jovens
certamente têm um potencial maior para a plasticidade, lesões críticas resultam em déficits permanentes” (SHOLBERG E MATEER, 2009, p. 63). A criança com
lesão cerebral, com prejuízo em seu desenvolvimento, encontra-se limitada na realização de suas experiências e, consequentemente, apresentará dificuldades
em seu processo adaptativo. Desta forma, a busca pela melhoria efetiva de procedimentos diagnósticos e por alternativas de intervenção é fundamental para minimizar as possíveis sequelas decorrentes da condição lesional do cérebro (TABAQUIM, 2002).