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O japonês Yutaka Toyota no XXIII SMBA-BH recebeu o prêmio de pesquisa pela obra Espaço “In” (Para-Negativo) (ANEXO 1.13). Trata-se de uma pintura com tinta vinílica sobre tela estirada em suporte rígido tipo lâmina de madeira e aplicações de folhas metálicas recortadas e coladas. O fundo é todo pintado de branco. Na parte superior, há um grande círculo irregular que ocupa pouco mais da metade da tela. Este círculo foi pintado de branco e os frisos metálicos foram feitos em baixo relevo, ou seja, todo o círculo é uma lâmina de metal pintada de branco, onde a tinta foi raspada em finos frisos para deixar o brilho do metal aparente. Na parte de baixo do círculo, há uma ondulação que o deixa irregular proporcionando uma sensação de deformação que retira a estabilidade do círculo como esfera perfeita. Os frisos proporcionam certa movimentação, dando a impressão de uma onda que sofreu turbulência (ANEXO 3.14).

FIGURA 38 – Espaço “In” (Para-Negativo). Yutaka Toyota, 1968. (121 x 80 cm).

Foto: Nelyane Santos, março de 2014.

Abaixo do círculo há sete lâminas de metal recortadas e cinzeladas. As formas das lâminas são iguais, assemelhando-se a cristas de ondas com extremidades afinadas. O metal é brilhante, sem grandes marcas de oxidação, assemelhando-se a aço inoxidável. Toda a tela possui manchas de oxidação decorrentes do contato com a madeira e a cola utilizada para aderir as partes metálicas. No verso, há as seguintes inscrições feitas pelo próprio artista:

“Yutaka Toyota / Novembro 1968 / S. Paulo, Brasil / Espaço In (para negativo) / R. Ferreira

de Araújo, 818 / Pinheiros , S.Paulo, Brasil”.

As pinturas abstratas, com formas que insinuavam movimento, começaram a fazer parte da obra de Yutaka Toyota desde o início da década de 1960, tendo os círculos presença marcante. Para Mário Schenberg, seus círculos, que tiveram início em monotipias antes de passar para a pintura, apresentavam uma dimensão energética cósmica, insinuando movimentações e texturas complexas65. Em 1963, com estadia fixa em São Paulo, participava de inúmeros salões, dos quais adquiriu muitos prêmios, o que lhe proporcionou a possibilidade de viajar para a Europa em 1965, onde permaneceu em Florença e Milão até 1968 (PRIETO, 2009).

Em Florença, iniciou pesquisas pictóricas que resultaram em formas e materiais mais compactos, aliando curvas e linhas mais geométricas. A partir daí, percebe-se na sua produção uma recorrência de obras abstratas influenciadas pela associação de materiais e pela cinética da visão, trabalhando com formas que se repetem e com distorções que criam efeitos de profundidade e reflexão.

FIGURA 39 – Obras de Yutaka Toyota de 1966 (à direita) e de 1967 (à esquerda).

In: PRIETO, 2009, p. 43, p. 47.

A obra pertencente ao MAP está ligada a esta produção de Yutaka Toyota que priorizava as linhas curvas proporcionando um efeito de movimentação ondulatória. Em Espaço “In” (Para-Negativo), percebe-se um verdadeiro despertar óptico da reflexão e do

65 Com o subtítulo “Schenberg apresenta Toyota”, Jayme Maurício registrou os comentários do crítico de arte Mário Schenberg sobre a obra do artista naquele período e a inauguração de sua exposição na Galeria Goeldi (Rio de Janeiro), em sua coluna Itinerário das Artes do jornal Correio da Manhã, de 25/03/1965.

brilho do metal em meio ao branco que deixa de ser uniforme e passa a ser translúcido. Os comentários críticos de Schenberg (citado acima) e os de Jayme Maurício (1969), além do registro do artista na história da arte no Brasil, por Walter Zanini (1983) e a biografia do artista de Sonia Pietro (2009), todos enfatizam o caráter zen budista das obras de Yutaka Toyota. Sua formação inicial no Japão e sua permanente espiritualidade remetem à coesão da harmonia oriental.

Em relação à sua técnica, a inserção de folhas metálicas a princípio não o afastou da pintura. Utilizava as folhas metálicas, com sulcos, incisões e brunimento, associando-as à pintura, intermediando a luminosidade do metal com variações de cores que sobressaíam sobre fundos claros. Segundo Prieto (2009), o artista desta forma procurava representar concepções dualistas e a unidade, neutralidade, harmonia.

Deixando de pintar a óleo ou tinta acrílica, Toyota passou a se preocupar mais com problemas relativos ao espaço. Procurou então materiais provenientes da época tecnológica: o alumínio e o poliéster. A madeira permaneceria sempre, necessária mais como suporte: ou seja, revestida de chapas de metal a fim de serem construídos relevos, objetos e futuras esculturas. (PIETRO, 2009, p. 46).

Na fotografia de seu ateliê em Milão, percebemos que, já no ano de 1966, Yutaka Toyota transpôs esta movimentação óptica para o universo tridimensional da pintura. Suas pesquisas por espaço resultaram em telas que deixaram suas figuras ondulatórias salientes, saindo do plano da pintura e indo em direção ao observador como se quisesse aproximar ainda mais o olhar em direção às ondas cósmicas.

FIGURA 40 – Yutaka Toyota no ateliê em Milão, 1966.

Pensando que desde este momento o artista já se utilizava das figuras ondulatórias e já experimentava a tridimensionalidade, torna-se questionável a premiação de pesquisa para uma pintura do artista que seja bidimensional. Ainda em Milão, o artista deu início à confecção de objetos que transpunham para o espaço seus círculos e figuras cósmicas. Mas de volta ao Brasil, em 1968, teria escolhido uma pintura bidimensional para participar do XXIII SMBA-BH. É bom considerar também que a obra Espaço “In” (Para-Negativo) demarca um longo processo de pesquisa do artista, que lhe proporcionava um reconhecimento de uma expressão individual e única nas artes.

Talvez tenha sido esta expressão individual valorizada pelo júri na premiação e não propriamente o momento de pesquisa da trajetória do artista. Jayme Maurício, em artigo de jornal de 1969, ao comentar sobre a nova fase tridimensional de Toyota, confirmou que o premiou em pesquisa no XXIII SMBA-BH. O crítico Walmir Ayala, participante do júri naquele Salão, comentou sobre a obra de Toyota, reafirmando assim seu voto à premiação deste artista.

O prêmio especial de pesquisa coube ao magistral artista japonês Toiota, conjugando tela e formas metálicas, num exercício de perfeição formal, de execução primorosa, partindo de um desenho ondulatório, de abstração geométrica, para uma continuidade em que o metal e o branco são apenas sutilmente enriquecidos pelo cromatismo de um friso verde sublinhando um dos planos. Toiota, diga-se de passagem, enriquece com o exemplo de um perfeccionismo técnico, raramente visto em nosso ambiente cujo relaxamento se justifica frequentemente através do subterfúgio da tropicália, os salões a que vem concorrendo. Eis um artista que não se preocupa com o mambo dos indígenas, e cintila num timbre universal de altíssima categoria. (AYALA, Jornal do Brasil, 05/12/1968).

O apuro técnico de Toyota é ressaltado por Ayala, em contraposição às produções da época, julgadas por ele como de menor dedicação à técnica e maior assimilação da visualidade do momento. A obra que o crítico descreve não se trata da pintura pertencente ao acervo do MAP, pois nesta não há o friso verde citado. Toyota participou do XXIII SMBA- BH com mais duas obras, Espaço “In” (Negativo) e Espaço “In”(Positivo). Esta denominação de suas obras, segundo Prieto (2009), foi recorrente em sua fase em Milão, em que as pesquisas com as feições ópticas e espaciais da pintura demarcaram produção com criações chamadas Espaço In, Espaço Infinito, Espaço Contraste, Espaço Metamorfose, Espaço Negativo.

Os críticos citados eram conhecedores da trajetória do artista e de sua produção naquele momento de retorno muito recente ao Brasil. A escolha de uma de suas obras para

integrar o acervo do MAP pode demarcar como hipótese a intenção que a comissão de júri teria com suas escolhas: a de constituir este acervo institucional com os exemplares mais representativos da produção artística daquele momento no Brasil.