3 Teoretisk grunnlag
3.4 Sverm
A imensa maioria das famílias pesquisadas efetivou o projeto migratório, resolvendo emigrar de suas terras natais, em virtude de sua condição de pobreza e de falta de trabalho e de oportunidade. São famílias pobres, vítimas de um sistema perverso que promove a desigualdade social e regional, a exploração e a falta de empregos estáveis e valorizados. Tais famílias, não mais aguentando a sua situação de pobreza e a falta de oportunidades de emprego e de uma vida
melhor em sua região, colocaram em prática o projeto migratório e hoje estão residindo em São Carlos.
Era difícil por causo que não tinha serviço, porque dependia da lavoura e a lavoura hoje, você sabe que o pessoal da lavoura não tem valor, porque tudo o que você colhe, não tem preço. Nós mexia com o bicho da seda, mais o bicho da seda, chega no final do mês, só dava supor para a gente. E daí é isso, né, porque na roça só sofre demais, e no fim das contas você não tem nada (Maria, 37
anos, paranaense, referindo-se à sua condição de vida no Paraná, condição essa que motivou a migração).
Lá é bom, assim, porque é um lugar sossegado. Mas como eu to falando, é muito sofrido, pra gente morar mesmo e conviver, muito difícil, lugar muito sofrido, emprego muito difícil, salário baixo, pouca oportunidade. (Fátima, 52 anos,
nordestina, referindo-se ao motivo que levou sua família a migrar).
São mulheres e famílias inteiras que tiveram poucas oportunidades na vida, sobretudo de estudar, diante, muitas vezes, de uma condição imposta por um sistema perverso de desigualdade social, situação que lhes exigia a obrigação de trabalhar ao invés de estudar. Isso as leva a uma situação difícil: ao trabalhar e não estudar, essas mulheres e famílias estão condicionadas a assumirem serviços instáveis, desvalorizados, penosos, que remuneram mal e não garantem boa qualidade e boa condição de vida. Ao analisarmos detalhadamente o quadro resumo exposto na introdução, observamos que nenhuma das mulheres migrantes conseguiu estudar além do ensino médio, sendo que a maioria delas possui o ensino fundamental incompleto. Assim também ocorre com aquelas que possuem maridos e companheiros, sendo que a maioria deles, de acordo com as entrevistas, é de analfabetos ou não completou o ensino fundamental.
Todos esses fatos reunidos projetam um cenário para uma boa parte dessa população migrante, estabelecida em São Carlos, não muito diferente do vivenciado por ela em suas localidades de origem. Ou seja, ao chegarem em São Carlos, muitas famílias pobres, e com pouca instrução escolar, não conseguiram deixar a sua situação de pobreza e nem aumentar a sua escolaridade. Muitas conseguiram, sim, emprego e até melhorar de vida, se comparado à sua condição na terra natal, o que para boa parte das entrevistadas já é um grande e importante progresso. Para muitas delas, ter o que comer todo dia, além de ter acesso fácil aos serviços públicos de saúde, é uma enorme conquista, já que isso não era sempre possível em sua
localidade de origem. Porém, para muitas outras mulheres e suas respectivas famílias, a situação socioeconômica, se não está pior, continua igual ao que era na terra de origem.
É importante afirmar que não estamos dizendo que a migração para São Carlos não promoveu a melhora da condição de vida das famílias migrantes em geral, que residem no bairro Cidade Aracy. Tanto é que se torna muito fácil encontrar ali, famílias migrantes, donas de estabelecimentos comerciais ou empresas no bairro, ou até mesmo fora dele, ou funcionários de empresas e indústrias, que progrediram financeiramente na sociedade de destino e hoje possuem uma condição socioeconômica boa, vivendo em residências de médio a bom padrão, ali dentro do bairro. Temos exemplos assim em nossas entrevistas. Um deles é o caso de Maria, de 39 anos, que estudou até a oitava série e veio para São Carlos depois de partir de Santa Amélia-PR. Ela migrou juntamente com o seu marido em razão da falta de serviço na região e da pouca renda que o trabalho com o bicho da seda estava gerando. Em São Carlos, sua situação, e de sua família, mudou bastante. Seu marido, que trabalha numa empresa de colocação de gesso em casas e apartamentos, instalada no próprio Cidade Aracy, possui uma renda, segundo ela, satisfatória, o que lhes proporciona uma boa condição de vida. Tanto é que eles, que vieram sem nada, em três anos residindo no município de São Carlos já conseguiram construir uma excelente casa para os padrões de um bairro periférico, além de terem conseguido comprar uma caminhonete. Em sua visão, a vinda para São Carlos melhorou muito a condição socioeconômica de sua família.
Graças a Deus, deu tudo certo para a gente. Hoje, a gente tem que ir no lugar que é melhor para a gente, né? (Maria, 37 anos, paranaense)
Porém, não são todos os casos de sucesso. Há muitas famílias migrantes pobres vivendo no Cidade Aracy, sem trabalho e com pouca escolarização, em muitos casos, sobrevivendo apenas com o auxílio do bolsa família. Assim, podemos afirmar que estamos trabalhando nesta pesquisa com mulheres e famílias migrantes que são, em geral, pobres, chegando muitas delas num estado de miserabilidade.
Além da situação socioeconômica dessas mulheres migrantes e de suas famílias estar diretamente ligada à questão da distribuição de renda no Brasil, da oferta de oportunidades e da escolaridade, certamente ela também está associada aos modelos de arranjos familiares. Ou seja, conforme o modelo de arranjo familiar dessas mulheres migrantes, a sua situação socioeconômica
tende a ser melhor ou pior. Foi isso pelo menos o que constatamos em nossa pesquisa. Há uma grande tendência das famílias de mulheres provenientes de núcleos familiares baseados no arranjo conjugal nuclear e no modelo de família reconstituída de terem uma condição socioeconômica melhor do que a de famílias de mulheres migrantes provenientes de núcleos familiares baseados no arranjo monoparental feminino e na família extensa.
Embora a maioria das mulheres entrevistadas não tenha informado a renda familiar, a nossa visita em suas casas permitiu verificar que as famílias cujos arranjos se baseiam no modelo conjugal nuclear, vivem, em sua maioria, em casa própria, nas melhores localidades do bairro Cidade Aracy (por exemplo, no Cidade Aracy I, considerado muito melhor e mais valorizado pelos moradores, do que o Antenor Garcia e parte do Aracy II) e dependem menos do Bolsa Família e dos auxílios assistenciais do CRAS. Já as famílias cujos arranjos se baseiam no modelo “família extensa” e, sobretudo, monoparental feminino, vivem nos lugares mais afastados do grande Cidade Aracy, considerados locais mais violentos e mais desvalorizados, além de dependerem de auxílios do CRAS e do Bolsa Família, bem como da ajuda de vizinhos.
Contudo, mesmo dentro de um mesmo arranjo familiar, é perceptível uma diferenciação socioeconômica entre famílias paranaenses e nordestinas, sobretudo se o arranjo familiar for o conjugal nuclear. Famílias paranaenses tem uma condição socioeconômica considerada melhor do que as famílias nordestinas: vivem em casas melhores, têm uma renda familiar melhor, dependem menos do CRAS e de ajuda de vizinhos. Apesar disso, as mulheres provenientes de famílias nucleares, sejam paranaenses ou nordestinas, têm uma condição socioeconômica melhor do que as provenientes de famílias baseadas no modelo monoparental feminino. Por isso podem, em alguns casos, acabar se dedicando mais aos cuidados da casa e dos filhos, bem como do serviço doméstico, não trabalhando fora, na esfera pública, embora isso não seja regra. Por sua vez, as mulheres provenientes de famílias baseadas no modelo monoparental feminino são obrigadas a trabalhar fora de casa, para conseguirem compor uma renda familiar, visto que sua força de trabalho se constitui como principal fonte de renda. Algumas das entrevistadas não estavam trabalhando no momento da visita, mas somente porque estavam desempregadas. Quando isso ocorre, a subsistência familiar é provida por auxílios assistenciais e por ajudas de amigos, parentes e vizinhos.
Mas, o que explica a família nuclear ou família reconstituída possuir uma condição socioeconômica relativamente melhor do que a da família monoparental feminina? São várias as
explicações. A primeira delas é a de que no caso da família nuclear e da família reconstituída, a renda familiar pode ser composta pelo marido/companheiro e pela esposa, visto que ambos podem trabalhar fora. Assim, embora o salário do homem seja complementado pelo salário da esposa e/ou companheira, podendo isso gerar conflitos intrafamiliares, a combinação da renda de ambos pode gerar uma renda familiar fixa e estável, que consiga atender com mais facilidade boa parte das necessidades da família. Já no caso da família baseada no arranjo monoparental feminino, a mulher é a única provedora da casa, sendo a única a gerar uma renda familiar. Muitas vezes, essa renda, em virtude de sua pouca qualificação, não é fixa, o que gera instabilidade na composição da renda familiar e uma baixa na condição socioeconômica da família.
Além disso, a renda dessa última família é menor em virtude da mulher ainda continuar ganhando menos no mercado de trabalho, quando comparado ao trabalhador do sexo masculino. Apesar de todas as conquistas das mulheres nas últimas décadas referentes ao mundo do trabalho, como vimos no capítulo III desta tese, pesquisas mensais do IBGE revelam que elas ainda continuam ganhando menos do que os homens. Segundo o IBGE (2010), no geral, o salário do trabalho das mulheres é inferior ao dos homens, recebendo cerca de 72,3% do rendimento recebido por aqueles do sexo masculino. Mesmo em grupos mais homogêneos, nos quais homens e mulheres possuem a mesma escolaridade, ou realizam o mesmo grupamento de atividades, a diferença entre os rendimentos persiste.
Fora isso, as mulheres pesquisadas, oriundas de famílias cujo arranjo se baseia no modelo monoparental feminino, como têm pouca escolaridade e qualificação, geralmente realizam trabalhos desvalorizados socialmente, que remuneram pouco.