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12 Vedlegg

12.2 Nordisk kartlegging

12.2.2 Sverige

Várias perspectivas têm colocado o actual “culto do corpo”, manifestada quer num amplo desejo de concretização corporal com correspondentes possibilidades mercantilizadas (Kaufmann, 2000:22), quer de proliferação discursiva sobre o corpo, como reflexo de um mundo organizado a partir do primado do indivíduo, que se crê (ou se pretende) capaz de ser mestre e protagonista da sua história pessoal. A ampla inflação social dos valores individualistas no tecido social, a par da poderosa dinâmica de individualização colectiva que atravessa o conjunto deste e que afecta os diferentes campos de experiência social do indivíduo – o trabalho, a família, as instituições, as sociabilidades quotidianas –, teria vindo a modificar profundamente as atitudes comuns perante o corpo.

Numa «sociedade de indivíduos» (Elias, 1991), estes ver-se-iam estruturalmente isolados dos grandes valores e causas colectivas, bem como das sociabilidades vinculativas e institucionais a que estavam sujeitos, sentindo-se relativamente autónomos na expressão da sua acção perante as inúmeras proposições sociais disponíveis. O processo de individualização fabricaria e generalizaria a imagem moderna de um homo clausus, um indivíduo que se crê como sujeito hiper-independente, desconectado, descomprometido, autónomo, e que se tenta concretizar enquanto tal arriscando colocar-se “em excepção”, escapar às categorias ordinárias de produção e classificação social para se realizar a “si próprio” e conquistar um “eu autêntico” e “singular”, bem como procurar novos suportes de subjectivação disponíveis ao empreendimento de uma individualidade, de uma singularidade irredutível, como se “ser como os outros” fosse irremediavelmente ser “qualquer um”. 31

Boa parte da literatura sociológica desenvolvida depois dos anos 70, na esteira de um Lasch, Sennett, ou Lipovetsly, vem justamente debruçar-se sobre a problemática das tensões que este indivíduo encontra, na dificuldade ou possibilidade de conciliar a sua pretensão em ser auto-suficiente e a exigência de fazer sociedade com os seus semelhantes. Aliás, a tradição da discussão entre agência e estrutura acontece, em grande medida, na sequência da exacerbação das tensões entre indivíduo e sociedade. No quadro de pensamento daqueles autores, a conquista de um espaço autónomo de subjectividade e de realização pessoal seria uma ambição

31 Anseios que, apesar de não serem novos (Elias situa a sua emergência por alturas do Renascimento), são hoje

difícil de conciliar com a vida em comum, considerando os sistemas de regulação colectiva próprios da vida em sociedade.

A aparente descredibilização social e o consequente desinvestimento nos sistemas simbólicos de ordem mais colectiva e colectivista, acarretaria a centralização do indivíduo sobre si próprio e o seu “mundo de vida”. Num mundo em constante movimento e transformação, onde as certezas e as verdades se evaporam perante um sistema de valores tornado flutuante, os referentes quotidianos e mais próximos de si possível vislumbrar-se-ia a realidade mais soberana. Ao procurar na esfera privada a segurança, a estabilidade e a coerência identitária que havia deixado de obter numa estrutura social cada vez mais fugaz e fragmentada, o indivíduo voltar-se-ia sobre si próprio e encontraria no que de mais concreto, imediato, perene e seu sente deter – o corpo – um mundo que va de soi, familiar, tangível, portátil e sempre disponível a representá-lo na singularidade da sua identidade e no nomadismo da sua acção social.

Com efeito, não existe nada mais certo, omnipresente e permanente na existência individual que a existência corporal do indivíduo, nas aparências, movimentos e sensações que proporciona, funcionando como dispositivo definidor e proporcionador do sentimento de concretitude de si mesmo (Kaufmann, 2000:22-23, 65). Daí a sua ascensão a objecto de culto e de crença: «é a perda da carne do mundo que impele o sujeito a recorrer ao seu corpo para dar carne à sua existência» sustém Le Breton, (2000 [1990]:229), metaforizando sobre a hipótese da relação inversamente proporcional entre o crescente investimento simbólico no corpo e o decréscimo de laços sociais mais vinculativos, de tipo comunitário. Tal processo tem como consequências a elaboração de ritualidades que visam o investimento e a gestão da relação do sujeito com o seu corpo e, neste sentido, a emergência de um cuidado aparentemente narcísico onde o corpo se torna a última âncora, o último valor perante a precariedade, a incerteza e a imprevisibilidade do mundo social.

É neste contexto que, como bem aponta João Teixeira Lopes, as abordagens mais pós- modernas sobre a época contemporânea têm colocado «a pessoa, a subjectividade, o corpo e a identidade (conceitos equívocos e difusos) no centro das agendas de investigação» (2002:60). Para minimizar a ambiguidade que envolve estes conceitos e compreender o seu alcance heurístico, vale a pena determo-nos um pouco sobre os mesmos, e explorar os alicerces do pensamento sociológico sobre o “indivíduo contemporâneo”, enquanto pessoa dotada de um mínimo de capacidade de iniciativa e de poder de tomada de decisão sobre a sua conduta (agência), subjectivamente responsável (e socialmente responsabilizado) pelos seus actos, mas sempre socializado e socialmente contextualizado.

Nas ciências sociais, a noção de identidade tem vindo a ser progressivamente desconstruída e abandonada na sua visão essencialista (Pinto, 1991:218), onde era entendida como “substância”, “património”, “essência” ou “raiz” do ser (Melo, 2003:9). Num alargado consenso de base construtivista, tal noção tem vindo a ser sociologicamente conceptualizada enquanto produto simbólico de processos de interacção e de negociação social, construído a partir da relação do ego consigo mesmo (intrasubjectividade),32 com alter e com o mundo em

geral (intersubjectividade)33, num dado momento no tempo, e a partir de uma dada situação,

localização ou, mais ainda, de um conjunto de localizações no espaço social. Neste processo de desenvolvimento conceptual, a sociologia dominante – representada pelas correntes e autores de pendor mais estrutural-funcionalista – foi privilegiando os processos de construção identitária de base supostamente mais colectiva, relegando para segundo plano a abordagem do que veio a designar de identidade pessoal, ou de self, sobretudo na sua dimensão relacional intra- pessoal, também designada por espaço de subjectividade, referente à forma como o indivíduo se vê e se constrói a si próprio enquanto objecto de reflexão e sujeito de actuação no mundo, espaço (do) simbólico que foi sendo deixado a cargo da psicologia.

Mais recentemente, contudo, até por via da forte dinâmica colectiva de individualização que se faz sentir34, a sociologia tem sentido a necessidade de ocupar-se mais desse espaço,

dedicando-se, designadamente, à caracterização e compreensão da relação existente entre as características históricas e culturais de uma dada formação social e as formas de construção e tipos de identidade pessoal ou subjectividade manifestas nessa mesma formação. As causas objectivas para o incremento recente dessa problemática na disciplina sociológica seguem, por sua vez, a mudança da sociedade contemporânea no sentido da maior fragmentação, descentramento e descontinuidade nos processos sociais de construção do self. Pode dizer-se que a procura de uma identidade individuada e a tentativa de construção e manutenção de um espaço autónomo de subjectividade, são dinâmicas que têm vindo a colectivizar-se. As singularidades pessoais são cada vez mais valorizadas social e subjectivamente, e a “autenticidade” do self funciona como valor de referência a pôr em acção nos projectos individuais. O indivíduo e os processos de construção de si tornam-se, assim, objectos sociologicamente apetecíveis.

32 Dimensão da identidade pessoal que Mead definiu como “I”, correspondente às disposições subjectivas definidas

e reivindicadas pelo ego para o ego, em contraponto ao “Me”, dimensão da identidade pessoal definidas e atribuídas ao ego por alter (Mead, 1963 [1933]:134).

33 A dimensão intersubjectiva, Mead conceptualizou-a, por sua vez, sob a forma de “ME”, fazendo corresponder este

conceito às dimensões da identidade pessoal definidas e atribuídas ao ego por alter.

34 Que se traduz na crescente institucionalização de valores individualistas e na consequente proeminência do Eu

Um dos corolários desta crescente sociologização da escala individual (Lahire, 2004), está no pressuposto de que a identidade pessoal não é um dado biológico ou uma forma de “natureza” tangível, mas de um produto reflexivo e socialmente construído, proveniente de um trabalho dialógico intra-subjectivo (na forma de se recontar a si próprio) e inter-subjectivo (na forma em que se forja o reconhecimento de si), progressivo e sempre inacabado. Desse trabalho resulta um conjunto de sentimentos, representações e expectativas da pessoa acerca de si própria – do que se é, do que se foi e do que se pretende ser num futuro (sonhado ou ponderado), bem como do que se pensa que os outros pensam que o próprio é, foi e virá a ser – quadro simbólico formulado a partir de um dado contexto cultural e sempre em relação com os outros. Nesta perspectiva, o self surge como um processo (aberto) mais do que como uma estrutura (imutável), resultado de uma dinâmica simultaneamente reflexiva e interactiva, isto é, construído tanto a partir das relações consigo próprio como nas relações com os outros.

Foi Mead que colocou no centro da discussão e compreensão da construção do self a noção de reflexividade em relação com a de interacção, colocação que forneceu uma fundação programática fundamental para perceber a possibilidade de agencialidade, de acção criativa e da constituição de movimentos emancipatórios que faltava na tradição de pensamento sobre a identidade (Callero, 2003; Joas, 1998). O processo reflexivo, resultado da dialéctica entre o “I” e o “Me” (Mead, 1963 [1933]:134), introduz a experiência de auto-objectificação e refere-se à capacidade do indivíduo tomar “consciência de si”, de reflectir sobre as suas acções, ideias e sentimentos, de se tornar simultaneamente sujeito e objecto para si próprio.

A identificação da dimensão de reflexividade inerente aos processos de construção do self não significa, porém, a aceitação analítica do indivíduo como uma unidade social substancial, capaz de se autonomizar perante as forças da sociedade por força da sua acção e reflexividade própria. O eu separado da sociedade é uma ficção, ainda que possa ser tomada e (simbolicamente) vivida como realidade empírica, ao constituir-se como crença estruturante do espaço da subjectividade, esse espaço simbólico consubstanciado em relações intra-individuais, a partir do qual o indivíduo constrói um sentimento de ensimesmamento, de distância perante o mundo, nomeadamente o mundo social, fundador de uma experiência de liberdade individual.35

Objectivamente, o self não é uma instância independente, autónoma e irredutível da vida social, uma instância mais profunda, verdadeira ou elementar que qualquer outro tipo de identidade social, mas apenas um nível desta, entre outros. A identidade pessoal também é social, um produto relacional, sendo este um princípio fundamental no enquadramento da maior

35 Daí Dubet privilegiar a subjectividade dos actores sociais como objecto de uma sociologia da experiência social,

parte da actual pesquisa sobre o self (Callero, 2003:121; Pinto, 1991:218). Ao processo contínuo da sua construção, subjaz um campo de identificações que se entrecruzam, estabelecido por empatia e por oposição, por semelhança e por diferenciação, com e contra, onde entra em jogo uma série infinita de instâncias particulares de identificação e identização36 sócio-cultural:

familiares, sexuais, amicais, educacionais, profissionais, étnicas, políticas, religiosas, musicais, etc. (Pinto, 1991:218-219). Em conjugação com estas, opera ainda na construção do self um conjunto de dispositivos objectivadores da identidade pessoal, como o nome, o corpo, a forma de apresentação, as memórias biográficas, os interesses pessoais, etc., em torno dos quais o sujeito vai fabricando, sustentando, reforçando ou reconfigurando os sentimentos de consistência, unicidade e continuidade da sua identidade própria.

Ultimamente, contudo, são diversas as abordagens teóricas que, por força de dinâmicas várias, vêm presumir a extinção da identidade pessoal enquanto construção relativamente estável e durável a partir de determinado momento da vida do sujeito.37 Consistência, unicidade

e continuidade são elementos “clássicos” constitutivos da identidade pessoal cuja sobrevivência na sociedade contemporânea é posta em causa, por acção de processos estruturais que os tornam obsoletos. Segundo alguns autores, mais do que uma identidade coerente, una e duradoura, o indivíduo contemporâneo é detentor de uma combinatória heteróclita, polimorfa e efémera de identificações.

Já Weber sublinhava o facto de, na modernidade, os indivíduos serem confrontados com problemas de abertura identitária particulares, ao afirmar que a «identidade não é mais, do ponto de vista sociológico, do que um estado de coisas simplesmente relativo e flutuante» (1992 [1913]:331). Hoje, essa postura analítica tende a ser levada às últimas consequências, sendo a identidade qualificada como múltipla (Elster, 1985), polifónica (Grumbach, 1988), evanescente e porosa (Maffesoli, 1988a, 2002 [1992]), saturada (Gerden, 1991), proteica (Lifton, 1993), incerta (Ehrenberg, 1995), dissociada (Dubet, 1996 [1994]), dispersa (Dortier, 1999), fragmentada (Scott, 1999), flutuante (Memmi, 1997), contingente (Dubar, 2000; 2003), líquida (Bauman, 2001b), provisória (Martuccelli, 2002), paradoxal (Aubert, 2005), ou tão somente plural (Lahire, 2003), entre tantos outros qualitativos, provenientes de propostas analíticas diferenciadas.

36 Termos de Pierre Tap (1996:12). O primeiro corresponde ao processo pelo qual os actores sociais se integram em

conjuntos mais vastos, de pertença ou de referência, com eles se fundindo de modo tendencial; o segundo corresponde ao processo através do qual os agentes tendem a autonomizar-se e a diferenciar-se socialmente, fixando em relação aos outros distâncias e fronteiras mais ou menos rígidas.

37 Momento esse em que se presumia, justamente, que a identidade pessoal estabilizasse, habitualmente situado na

“pós-adolescência”, como postula, por exemplo, Erikson (1972 [1968]), bem como muitos outros psicólogos e psiquiatras adeptos das teorias do desenvolvimento cognitivo.

Na base destes epítetos está evidência empírica, recolhida a partir de domínios sociais variados, que aponta para um drástico aumento do fenómeno de multiplicação e dispersão das experiências sociais38 na sociedade contemporânea, em virtude da sua intensa decomposição,

diferenciação ou fragmentação social. Na sua vida e ao longo dela, os indivíduos zapam, agem e estão inevitavelmente implicados, com um grau de compromisso variado, em cada vez mais esferas sociais, e cada vez mais diferenciadas. A partir destas, estabelecem-se relações de identificação e identização cuja densificação e complexificação podem potenciar fenómenos de sobresaturação simbólica e social, com a consequente desintegração da coerência, unidade e estabilidade do self. Ao circular nomadamente na multidimensionalidade topográfica própria do espaço social contemporâneo, o indivíduo torna-se ele próprio multíplice, aberto, inacabado e incerto, sempre susceptível de conhecer, no futuro, outras conexões e diferenciações que o podem transformar novamente.

É nesta óptica que é hoje quase unanimemente reconhecida a natureza socialmente contingente das identidades pessoais, com alguns autores a profetizarem uma quase alietoriedade no processo da sua (re)construção, argumentando no sentido da substituição de uma suposta lógica da identidade própria da modernidade, enquanto sistema cognitivo predefinido, reificado e cristalizado, a favor da emergência pós-moderna de uma lógica da identificação (Maffesoli, 1988a; 2004), mais plástica, evanescente e precária, resultante de sucessivas afectações a categorias diversas e variáveis ao longo de uma trajectória de vida.

De facto, a identidade pessoal dos sujeitos não é, actualmente, um dado adquirido de uma vez por todas. Porventura nunca o foi, ainda que os constrangimentos sociais no sentido da plasticidade e liquefacção identitária sejam, hoje, mais pesados. O processo de construção da identidade pessoal é constante ao longo de toda a vida, já não podendo ser reduzido à interiorização passiva, determinista e mecânica de características fixas e imutáveis, herdadas por via da pertença a categorias estatutárias com papéis pré-definidos. A realidade social contemporânea, donde o indivíduo faz parte integrante, é substancialmente mais complexa e intrincada, exigindo-lhe uma capacidade de selecção, apropriação e gestão de recursos simbólicos e sociais cada vez mais diversos, através de uma aprendizagem experiencial que se faz sempre através e na relação social.

Contudo, ainda que a lógica da identidade possa estar saturada em função dos constrangimentos sociais que sobre ela imperam, pode-se colocar a hipótese de, no nível mais “rasante” da existência quotidiana dos indivíduos, subsistirem reacções e resistências aos

38 Usamos aqui o termo experiência social no sentido dado por Dubet, como «maneira de construir o real e,

mecanismos que impelem a tal saturação, nomeadamente localizadas nessa dimensão identitária que é a pessoalidade. Assim, mais do que ficar pelo deleite analítico sobre a ideia de dispersão e disseminação ad infinitum da estrutura identitária do sujeito, importa questionar, como bem formulou Lahire (2004), sobre as condições sócio-históricas, as instituições sociais e as configurações de relações que possibilitam a produção social de um actor plural ou de um actor caracterizado por uma profunda unicidade.

Importa ainda averiguar, acrescente-se, quer as estratégias utilizadas pelos próprios actores sociais, nomeadamente pelos mais jovens, para, numa sociedade que tende propiciar a dispersão social e numa fase do ciclo de vida que tende à reconfiguração do self, fazer vigorar e reforçar o sentimento de coerência, unicidade e singularidade identitária; quer os dispositivos sócio-simbólicos escolhidos como detentores da capacidade de produzir a ilusão de um self unificado, homogéneo, coerente, durável e estável, ilusão que, sendo uma empresa difícil nas sociedades de hoje, não deixa de ser socialmente bem fundamentada, produzida e certificada pelos seus mecanismos de funcionamento.

Em termos de condições socio-históricas, as recentes mutações estruturais sentidas nos domínios sociais que acolhem os dispositivos de pertença (social) e de referência (simbólica) típicos da sociedade industrial (como a família, a escola, o trabalho, a classe ou o status social, a política ou a religião, por exemplo), bem como a emergência de todo um conjunto de micro possibilidades de adesão inclusiva que popula o tecido social (“tribos”, “seitas”, “grupos de auto- ajuda”, grupos formados em torno de actividades de lazer, promovidas com maior ou menor regularidade no tempo, etc.), têm vindo a actuar no sentido da desinstitucionalização dos laços sociais e da destradicionalização da ordem simbólica (atitudes, valores e representações que densificam éticas de vida) característica da modernidade, condições que não deixam de potenciar fenómenos de pulverização identitária.

Os laços tradicionais flexibilizam-se e tornam-se menos vinculativos e estáveis: na família, os laços do casamento já não são perpétuos; na escola, o diploma já não é garantia de emprego no futuro; no trabalho, a precarização do vínculo laboral é uma realidade incontornável para um número cada vez maior de jovens. Outros laços mais voláteis, como os amicais, ganham um valor vivencial e referencial sem par. Ao mesmo tempo que o poder simbólico dos tradicionais dispositivos de socialização e integração social declina, as identidades estatutárias que produziam tendem a perder preponderância, e com elas a repartição mais institucionalizada e estereotipada de papéis sociais (masculino/feminino, classes dominantes/dominadas, direita/esquerda, crente/ateu, patrões/empregados, pais/filhos, professores/alunos, etc.).

Com a relativização e politização crescente da arbitrariedade dessas categorias sociais, o processo de construção identitária deixa de ser puro reflexo de papéis sociais institucionalizados e normativos, para passar a integrar, com regularidade, a possibilidade de ruptura, afrontamento, distanciamento e reinterpretação pessoal no respectivo desempenho. O que faz com que haja, hoje em dia, um espaço de agencialidade cada vez mais alargado, fundamentado na decalage entre o modelo prescrito pelo papel social39 e as suas possibilidades (mais ou menos legítimas)

de desempenho. Neste contexto, a par da concepção objectivista e reificada da identidade por outro – consubstanciada no conjunto de identificações exteriormente atribuídas ao indivíduo –, as preocupações sociológicas recentes com a identidade pessoal passam a focalizar também, intensamente, a elaboração subjectiva e evanescente da identidade para si – densificada no feixe de identificações reivindicadas por si próprio para si mesmo (Dubar, 2000:54).

Se esta noção não integrava o jargão conceptual da “sociologia clássica”, de natureza funcional-estruturalista – onde a identidade, reduzida ao desempenho de papéis sociais institucionalizados, se tornava sinónimo de identidade para outro e atribuída por outro –, a crescente reflexividade outorgada por muitas teorias ao indivíduo contemporâneo na selecção, projecção e monitorização de categorias objectivadas sobre si mesmo impele à análise dos fenómenos de subjectivação40, isto é, dos fenómenos que remetem para a exacerbação social,

na forma massificada de narcisismo de grupo, de um sentimento de subjectividade (Maffesoli, 2002 [1992]:274-275). Tal sentimento, individualmente sentido mas socialmente compartilhado, passa pela assumpção do self enquanto actor dotado de um espaço autónomo onde, supostamente em liberdade, se tecem as dinâmicas do “eu” consigo próprio41, uma das

dimensões fundamentais da experiência social na sociedade contemporânea que, como tal, não pode escapar à abordagem sociológica (Dubet, 1996 [1994]; Touraine, 1994 [1992], 1995; Touraine & Khosrokhavan, 2000).

39 O conceito de papel social é tradicionalmente utilizado na sociologia para articular a posição social que o actor