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Os formalistas russos – hoje em maré montante de prestígio graças à antropologia estrutural de Lévi-Strauss e aos novos críticos franceses como Roland Barthes – souberam ver o problema da prosa. Que há uma crise da prosa. Uma crise que põe em questão a própria sobrevivência da estrutura romanesca tradicional como meio apto para a comunicação na era tecnológica, na civilização da aceleração da comunicação (Marx e Engels sobre a literatura cada vez mais universal) e do mundo eletrônico (Marshall McLuhan, “the médium is the message”). O livro como objeto (na fórmula de Michel Butor) é que está agora em discussão.

Victor Shklovski (Teoria da Prosa “A Paródia no Romance) observava, desde 1925, que o “Tristram Shandy”, de Lawrence Sterne (1760-67) não era pela maioria das pessoas considerado um romance. Para estas pessoas, acrescenta, só a ópera é música: uma sinfonia seria para elas uma confusa mistura. E proclama, sem temer o paradoxo: “na verdade, dá-se justamente o contrário: ‘Tristram Shandy’ é o romance mais típico da literatura universal”. Típico em que sentido? No sentido de que seu conteúdo é sua estrutura. Trata-se de um romance que põe a nu o processo mesmo da ficção romanesca, de um romance cuja personagem e o próprio romance. Joyce, publicando o “Ulisses” três anos antes destas formulações teóricas de Shklovski, iria – com este “romance para acabar com todos os romances” – referendar na prática, e, por antecipação, a validade e urgência contemporâneas dessas formulações, cujos predecessores podem ser rastreados à margem do filão principal do romance “bem feito”, “acabado”, ao gosto do realismo oitocentista (além de Sterne, poder-se- iam arrolar entre tais predecessores um Rabelais, um Swift, o Flaubert de “Bouvard e Pécuchet”, e entre nós, o velho Machado, solerte e cheio de truques nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, não à-toa reclamando-se da lição sterniana).

Na posteridade joyciana, terá sido o novo romance francês o primeiro movimento (não importa se deliberadamente empostado como tal ou se identificado a posteriori como uma espécie de réseau de pontos-eventos comuns) a retomar em toda a sua plenitude a idéia do romance em seu estado de crise ou de crítica do romance. E entre os novos romancistas, destaca-se logo nesse sentido a obra de Michel Butor, desde o “Móbile” (1962), decididamente empenhada numa revolução estrutural do livro. Mas também na Alemanha, com Arno Schmidt (desde “Leviathan”), na Itália, com Carlo Emílio Gadda (“Quer

Pasticciacio Brutto di Via Merulana”, 1956-58), na Argentina, com Borges e sobretudo mais recentemente com Julio Cortazar (“Rayuela”, 1963), a problematização da prosa tem seguido por diferentes lançantes seu caminho.

No Brasil, para reduzir a questão a um esquema polar, direi que ela se põe entre Oswald de Andrade (“Memórias Sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”) e Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”, ”Cara-de-Bronze”, “Meu Tio, o Iauaretê”). Oswald: “a estética do fragmentário: a abolição das categorias poesia e prosa, em função de uma nova idéia de texto como objeto de palavras; a síntese; a sintaxe de montagem, cubista. De mentalidade industrial e urbana, Oswald parece mais moderno, mais tenso para o futuro. Guimarães Rosa: o artesanato, a elaboração minuciosa, a fabulação via linguagem, a diversificação vocabular aprofundada como nunca antes em nossa língua. Entre os dois – concentração sintática x expansão semântica – e rasgando agora para o imprevisto e o inexplorado, o espaço útil, onde, a meu ver, (---) brasileira, mas sempre em sintonia com aquele vetor já referido de uma “literatura universal”, devem ser jogados os dados de uma nova possibilidade de texto.

É o que estou pretendendo fazer com o meu “Livro de Ensaios – Galáxias”, cujos 25 primeiros fragmentos saíram em INVENÇÃO, aos 4 (sic) (1964) e 3 (?) (1966-67). Trata-se de um texto em mosaico ou constelar, previsto para 100 páginas, móveis, intercambiáveis. A leitura (destas apenas a primeira e a última seriam fixas, formantes). Uma vértebra semântica liga essas páginas soltas: a idéia do livro como viagem e da viagem como livro. Em torno dela, como limalha temática em redor de uma haste imantada, os materiais: o visto, o ouvido, o vivido, o lido. Uma fabulação sem fábula. Um presente de presenças co-presentes. Monólogo exterior, como eu o chamei na pequena introdução para a publicação das primeiras 13 páginas, levada a efeito em 1964 (neste mesmo ano, Alain Badiou usaria coincidentemente a expressão em seu “Almagestes” porém numa acepção que não é a mesma). Reporto-me a essa introdução e ao meu artigo “A Arte no Horizonte do Provável” (também em INVENÇÃO 4), para quem queira mais detalhes sobre o projeto em progresso.

Alguns dados para a inteligibilidade do fragmento isolado. Inédito, que vai aqui publicado como amostra-índice do todo a de perfazer. Este fragmento move-se entre duas linhas temáticas: a) o escritor de hoje, como contraparte paródica do poeta público, do cantor grego, simbolizado em Píndaro; com sua “fórminx de fórmicas”, (---) o primeiro tem diante de si não um auditório unido pelo mito, que o reconhece mas uma audiência problemática, indiferente ou recalcitrante ao signo novo; ao invés da sabedoria gnômica do médico grego, repousada na morigeração e no conservantismo, a filosofia bruta, antropofágica, inscrita no

pára-choque de um caminhão, no relance de uma estrada brasileira; b) o mudo que ulula seguindo uma provável partitura em Braille, cuja simples presença acaba perturbando a redundância das convenções, e que pode estar propondo assim o seu “livro estrelado”, para ser “estrelido”, como aquele “poema obscuro” do alexandrino Licofronte, precursor de Gôngora e Mallarmé, que enuncia as profecias de Cassandra (ou Alexandra) num estilo oracular isomórfico a elas (fazendo assim já um primeiro texto sobre o texto). Entre estas duas fronteiras, os eventos-palavras, encontrando-se ou desencontrando-se, carne viva da linguagem.

[Ao lado do artigo de Haroldo de Campos, foi publicado o fragmento inédito “poeta sem lira” de Galáxias.]

[CAMPOS, Haroldo. Bastidor para um texto em progresso. In: Suplemento Literário