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A intenção de criar um banco de registro dos currículos de pesquisadores brasileiros no CNPq, Base de Currículos Lattes (BCL), ocorreu desde meados dos anos 80, quando foi feita a primeira captação de dados de currículos, ainda em papel, com algumas etapas formalizadas em um sistema informatizado. Ao final dos anos 90, o CNPq desenvolveu um formulário eletrônico que, preenchido pelo pesquisador, deveria ser enviado em disquete para o CNPq, que os carregava na base de dados. Nessa mesma época, o CNPq contratou os grupos universitários Stela, vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, e C.E.S.A.R, da Universidade Federal de Pernambuco, para que, juntamente com profissionais da empresa Multisoft, e técnicos das Superintendências de Informática e Planejamento, desenvolvessem uma única versão de currículo capaz de integrar as já existentes. Assim, em agosto de 1999, o CNPq lançou e padronizou o Currículo Lattes como sendo o formulário de currículo a ser utilizados no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia e CNPq (CNPQ, 2016a).

Desde então, a Base de Currículo Lattes tornou-se um padrão nacional praticamente compulsório no registro da vida pregressa e atual de estudantes e pesquisadores do país, sendo utilizado pelas principais universidades federais, institutos, centros de pesquisa e fundações de amparo à pesquisa dos estados como instrumento para a avaliação de pesquisadores,

professores e alunos, dessa forma a Plataforma Lattes constitui-se hoje como um grande repositório de dados de pesquisadores de todo o país.

A BCL, de acordo com o CNPq já ultrapassou 3 milhões de currículos, sendo 6,35% de doutores, 10,85% de mestres, 27,69% de graduados, 16,18% de especialistas, 35,54% outros e 3,39% não informado (CNPQ, 2016b).

Uma das funcionalidades da BCL é gerar currículos que se tornam públicos. Esses currículos são documentos que organizam referências a documentos (alguns públicos e outros privados) do arquivo pessoal, ou institucional, dos cientistas. Desta forma, na PL o currículo é um documento que deveria refletir a relação entre os documentos/ atividades dos usuários cadastrados, contudo as informações são distribuídas isoladamente, desconsiderando o contexto na qual foram realizadas (SILVA; SMIT, 2009).

Uma das principais características da BCL é a de que as informações disponíveis estão associadas aos pesquisadores e as instituições que estes se relacionam. A base no todo é um macro dossiê que permite análises em vários níveis: individuais, por grupos, por instituição, por área de formação, por gênero, por área geográfica, por tipo de publicação, por orientações, por projetos financiados, etc. Quando reunidas e organizadas em matrizes, por exemplo, tais possibilidades se multiplicam e revelam as potencialidades das análises permitidas.

Diante desta perspectiva, Brito, Amaral e Quoniam (2016) elaboraram um esquema para compreender as publicações que já se utilizaram da Plataforma Lattes como fonte de informação. Os autores indentificaram seis categorias deste uso nos periódicos analisados. No Gráfico 3 é possível observar que mais da metade das publicações, 60% (102 artigos), estudaram grupos e/ou comunidades específicas, ou seja, partiram de um conjunto de nomes (lista) já identificados e assim realizaram análises dessas atividades registradas na PL.

Gráfico 3 – Distribuição das publicações nas categorias

Fonte: Brito, Amaral e Quoniam (2016)

Neste estudo, Brito, Amaral e Quoniam (2016) afirmam que a PL é uma rica e importante fonte de informação para compreensão de cenários científicos e tecnológicos no Brasil. E que embora tenha sido utilizada como uma fonte de informação para analisar indivíduos ou grupos de indivíduos já conhecidos (60%), há iniciativas que tentam ampliar este uso (8%), realizando o movimento contrário, ou seja, tentam responder quais são os principais pesquisadores de uma determinada área e onde se encontram geograficamente. Entretanto, para este último fim, há grandes dificuldades relacionadas as possibilidades de elaboração de buscas sofisticadas e também para a extração efetiva dos dados.

Sobre o preenchimento dos campos que formam o formulário dos currículos da BCL, eles podem ser classificados em três grupos: autonomia total, autonomia parcial e sem autonomia. Essa especificidade apresenta vieses interessantes, pois quanto mais autonomia for concedida aos usuários, maiores serão as chances das buscas resultarem classes de baixa frequência, resultando em um núcleo reduzido e em alta dispersão. A BCL é baseada num princípio denominado “regras de negócio dos sistemas”, onde cada um dos usuários utiliza e gera a informação que conformará o sistema. No entanto, ao optar por seguir a chamada regra de negócio dos sistemas, o desenvolvimento da BCL priorizou a economia de custos, abrindo mão da sua qualidade (SILVA; SMIT, 2009). O debate sobre “regras de negócio dos sistemas” está relacionado com os novos modelos de serviços da web, abertos à participação dos usuários para o compartilhamento de serviços e informações. Na percepção de Catarino e

60% 12% 9% 8% 8% 5% Grupos/ Comunidades Melhorias/ caracterização PL Redes e coautorias Produção científica Assuntos Diversos Grupos/ Comunidades Melhorias/ caracterizaçã o PL Redes e coautorias Produção científica Assuntos Diversos Nº artigos 8 13 14 16 20 102

Baptista (2007), trata-se de um novo paradigma para a organização dos conteúdos de recursos digitais na Web designados, genericamente de folksonomias7.

O estudo de Bassoli (2016) exemplifica essas reflexões ao levantar alguns indicadores bibliométricos. Tal estudo trabalhou com o universo de 3.262 currículos de docentes ativos da UFSCar entre 1968 e 2014, conforme a Tabela 1, 30% eram de artigos em periódicos científicos e 70% de artigos em anais de eventos, a coluna “registros” compreende a somatória deles.

Tabela 1 – Artigos publicados encontrados nos Currículos Lattes

Registros Centros - Universidade Federal de São Carlos Fora da WoS 8 WoS9 %Fora

11657 Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia 3905 6849 33%

5733 Centro de Ciências Biológicas e da Saúde 2420 2724 42%

3970 Centro de Educação e Ciências Humanas 3357 230 85%

1539 Centro de Ciências Agrárias 769 523 50%

930 Centro Ciências Tecnologias para Sustentabilidade 356 503 38%

761 Centro de Ciências Humanas e Biológicas 487 211 64%

430 Centro de Ciências da Natureza 227 197 53%

414 Centro de Ciências em Gestão e Tecnologia 303 89 73%

Fonte: Bassoli (2016)

Na coluna “fora da WoS” está o total de publicações preenchidas nos currículos Lattes, que não estão indexadas na base Web of Science, chamando a atenção para o Centro de Educação e Ciências Humanas, que só possui 5,8% do total das publicações indexadas na WoS. Todos os centros possuem publicações não indexadas na WoS, até mesmo centros da

7 A folksonomia é uma maneira de indexar informações. Esta expressão foi cunhada por Thomas Vander Wal. É

uma analogia à taxonomia, mas inclui o prefixo folks, palavra da língua inglesa que significa pessoas.

O ponto forte da folksonomia é sua construção a partir do linguajar natural da comunidade que a utiliza. Enquanto na taxonomia clássica primeiro são definidas as categorias do índice para depois encaixar as informações em uma delas (e em apenas uma), a folksonomia permite a cada usuário da informação a classificar com uma ou mais palavras-chaves, conhecidas como tags (em português, marcadores). Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Folksonomia>. Acesso em: 23 out. 2016.

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Algumas publicações não foram consideradas nesta coluna por não terem sido preenchidas corretamente no currículo.

9 Algumas publicações não foram consideradas nesta coluna por não terem sido preenchidas corretamente no

área de “Ciências Exatas Tecnologia” e “Ciências Biológicas e da Saúde” que são áreas de interesses mais globalizados e desta base de dados.