Ainda pensando na foto com meu ídolo, vi a entrevista coletiva com Jean começar, terminar...e nem sinal do Juca. Começava a escurecer e esfriar; eu não tinha blusa. Andando pelo CT, encontrei a sala da imprensa, mas sem ele. Pouco depois, apareceu com Márcio Santos, de 37 anos, chefe de segurança do São Paulo. Um homem alto e forte, como a maioria dos seguranças, que exalava perfume e arrumava seus cabelos ainda molhados do banho. Se fosse torcedora são-paulina, desistiria de qualquer manifestação só por olhar para ele: era enorme e intimidador.
Juca disse ter demorado um pouco para encontrá-lo e, novamente, disse para que eu icasse à vontade e saiu. Conversamos em frente à sala da imprensa. Már- cio, com seu perceptível sotaque nordestino, contou que trabalha com segurança há quase 19 anos e que já vivenciou histórias felizes, tristes e bizarras.
– Desse tempo, 14 anos passei aqui no São Paulo. A gente já tivemos diversos poblemas positivos e negativos, a maioria quando o time não tá bem. A torcida quer resultado e, quando não vem, a chapa esquenta.
Muitos torcedores vão agredir jogadores em aeroportos ou no próprio CT quando o time não está em uma boa fase. Mas, de acordo com Márcio, a diicul- dade é maior está em lidar com os membros de organizadas, que costumam ser mais eufóricos. Os torcedores que não fazem baderna – principalmente famílias que acompanham o time – têm pontos positivos com a segurança do clube, já que colaboraram para que não haja brigas e agressões.
– Vocês recebem algum treinamento especíico pra lidar com os torcedores? – A gente faz o curso de vigilante exigido pela Polícia Federal e a cada dois anos há reciclagem. Além disso, o clube aqui oferece cursos durante o ano, pra gente lidar com incêndios, essas coisas, e saber lidar com o público no dia-a-dia.
Márcio airma que as torcidas grandes, como as do Palmeiras, Corinthians e Flamengo, são bem parecidas e estão quase todas em um nível igual. Nos mo- mentos bons eles adoram e nos momentos ruins eles cobram o clube, de todas as maneiras. Além de haver pouca diferença, ele airma gerações de torcedores mais novos não são diferentes das mais antigas; são apenas mais organizadas. Com o aumento do aparato tecnológico – celular e internet principalmente – icou mais fácil marcar confrontos entre rivais.
– E o que vocês, como seguranças, fazem pra impedir a violência dos torce- dores?
– Na verdade, a gente tem uma contribuição para que não aconteça o pior. Cuida para deslocar os atletas com segurança e diicultar o acesso dos torcedores até a gente. Tem vários fatores em que a gente contribui para nada dar errado, tanto a gente como a Polícia Militar.
Márcio airma que a Polícia de São Paulo é uma das mais preparadas do Bra- sil, uma vez que é bastante preocupada com a proteção humana e investe bastante em formação proissional e tecnologia para realização de seus trabalhos. Quando há clássicos, a equipe de segurança do São Paulo vai até o Batalhão de Choque participar de reuniões sobre a estratégia e a logística que serão aplicadas no dia do jogo – assim como Nélson havia me dito na Independente.
– Vão funcionários do clube, membros de torcidas organizadas. Existe uma porrada de coisas para que haja o espetáculo. Marronzinhos isolando áreas, a pre- feitura cuidando dos ambulantes para que não vendam bebidas alcoólicas, tudo isso faz parte da segurança. Até quando você vê torcedor falando que não tem ingresso é pra não ter confusão.
A parte da segurança envolvia mais do que o cordão de isolamento que estava acostumada a ver pela televisão; era um planejamento tão grande, tão detalha-
do, que quanto mais pensava ter entendido, mais percebia que ainda podia ser melhorado. Lembrava-me do que tinha ouvido na Independente e os motivos para não concordarem com essas reuniões; com o Ministério Público, a PM e os seguranças traçando estratégias e caminhos diversos, a torcida icava submetida a uma série de decisões que deveriam ser cumpridas.
Além de pensarem nas ações das torcidas e como vão proteger os atletas, os seguranças têm quase a função de psicólogo. Quando os jogadores se preparam para alguma partida complicada ou vivem uma má fase durante um campeonato, eles entram com o apoio e com a certeza de que dará tudo certo, que o time vai ganhar.
– A gente procura deixar eles tranquilos ao máximo possível, falando que a gente tá ali preparado se alguma coisa negativa acontecer. A gente vai com refor- ços, seguranças e deixa os jogadores bastante à vontade. Se der certo em campo, beleza; se não der, os meninos da segurança garantem nada mais vai dar errado.
Márcio continuou me explicando suas atividades proissionais quando Rho- dolfo me veio à mente, ressaltando seu lado torcedor. Será que o segurança sem- pre foi tricolor?
– Eu nasci na Bahia e naquele tempo você torcia para dois times: ou Vasco ou Flamengo. Eu tinha uma quedinha pro Flamengo. Mas hoje, se jogar São Paulo e Flamengo eu sou São Paulo. É minha casa, é o time que eu gosto.
– E como o torcedor e o segurança dividem o mesmo corpo?
– Ah, o lado torcedor tem hora que dá aquela loucura, que você xinga, mas logo volta o lado proissional e lembro que não posso, que tô trabalhando! Eu que tenho que manter a cabeça no lugar.
– Mas você faria parte de alguma torcida organizada?
Foi a única vez, em todas as perguntas, que ele demorou para responder. Demorou, olhou para baixo, para os lados, para mim. Finalmente, ouvi sua voz outra vez.
– Não. Sinceramente não. – Por quê?
– Olha só, a torcida organizada...ela é bem isso que você vê. Ela não é diferen- te. Eu iria pro estádio torcer, com a minha família, mas não com essa violência. A torcida organizada motiva muito a violência. Não todos, porque a gente não pode generalizar, mas na hora que junta aquele grupo pode ocasionar problemas.
C A P Í T U L O 7
EU NÃO QUERO CADEIRA NUMERADA,
EU VOU DE ARQUIBANCADA PRA SENTIR MAIS EMOÇÃO
“Tem jogo no Morumbi Eu vou assistir São Paulo vai golear E a festa vai começar Vamo vamo tricolor Laranja é sempre que eu vou”
C
inco dias após minha primeira visita à sede da Independente, liguei para Japão para conirmar sobre o jogo do inal de semana. O São Paulo ia en- frentar o Atlético Goianiense no Morumbi, em uma partida da 11ª rodada do Campeonato Brasileiro. Como tinha combinado com ele, queria ver o que os torcedores fazem na sede e ir com o grupo até o estádio, com o ônibus que a organizada freta. Além disso, ia icar entre eles, acompanhando o jogo como se fosse da organizada, disfarçando minha vontade de ver o São Paulo perder.Simpático, se lembrou de mim e disse que seria possível cumprir minha ideia. A partida se iniciaria às 18h30 e haveria gente na sede cerca de quatro horas antes. Ao contrário do que havíamos combinado, porém, não ganhei o ingresso. Enquanto conversava comigo pelo telefone, havia outra pessoa na sala que não permitiu que ele cumprisse nosso combinado.
– Cara, é foda, eu falei que ia dar o ingresso pra ela! – Eu sei, mano, mas não vai rolar...
– Mas a mina é gente boa!
Discutiam sobre dar ou não o ingresso para a “mina da faculdade”. Aguardei na linha enquanto decidiam meu futuro. Alegando haver um probleminha com os ingressos, declarou não poder me dar uma cortesia. Paguei R$ 30 para ver o inimigo jogar e fazer cara de feliz! Pedi para que deixasse um reservado para mim e nos despedimos após um pedido de desculpas. Senti que por ele não havia pro- blema, mas realmente não teria como. Tudo bem.
DESLIZES
concentra antes da saída do ônibus. Apenas quando estava chegando lá me dei conta de um erro gravíssimo.
– Caramba, eu tô de rosa!
Nem pensei que estava vestindo uma roupa que podia me trazer problemas; lembrava-me da reunião da escola de samba, em que comentavam sobre torce- dores que usavam a camisa rosa do São Paulo no jogo contra o Corinthians. Já estava icando nervosa quando vi alguns pingos de chuva pelo vidro do ônibus. Para a minha sorte, minha blusa de frio era preta. Ufa, estava resolvido.
Passei por dentro da Galeria do Rock e cheguei ao prédio da Independente. Subi pelas escadas rolantes até chegar a Japão e comprar meu ingresso. Descul- pando-se novamente, vendeu-me os ingressos e, novamente, disse que podia icar à vontade. Agradeci e comecei a passear por aquele andar tricolor.
Em pouco tempo, encontrei as meninas da oposição – Laiane, Carol e Letícia, com outra menina da torcida, Sami. Elas me reconheceram e vieram perguntar se eu iria ao jogo com a torcida. Após minha resposta positiva, veio um convite para almoçar em uma lanchonete na mesma galeria onde estávamos. Recusei o almoço, mas fui até lá com elas.