Esse instrumento foi elaborado por nós em parceria com o professor da turma. A aplicação dessa prova visava ao atendimento de uma norma institucional, que não necessariamente reflete o modo como entendemos que o processo de avaliação devesse ocorrer no tipo de atividade que propomos, mas que nos pode fornecer informações relevantes. Algumas questões, de caráter mais interpretativo, colocaram os estudantes na posição de leitores de informações estatísticas.
Uma delas pedia que o estudante comentasse o texto mostrado na figura 9 elaborado por nós com base na investigação realizada pelos estudantes sobre o tema consumismo.
Jornal Souza Norte 08/10/2010
Pesquisa mostra que jovens do sexo masculino são os mais consumistas
Pesquisa realizada por estudantes de 3º ano do Ensino Médio mostra que os homens são mais consumistas que as mulheres. Enquanto 29% deles declararam que ao receber um dinheiro extra o gastam comprando aparelhos eletrônicos, apenas 8% das mulheres fazem isso, segundo declararam. E mais, 17% dos homens gastam esse dinheiro com games e internet enquanto que apenas 2% das mulheres procedem assim.
Foi consultada uma amostra de 111 jovens com idade variando de 12 a 26 anos. O Índice de Confiança é de 95% e a margem de erro de10 pontos percentuais para mais ou para menos.
Figura 10 – Texto da questão 5 da prova bimestral.
A maior parte das respostas dadas continha uma avaliação crítica. Obrigatoriamente, por se tratar de uma questão de prova, a compreensão de tal informação, ou opinião a respeito dela, teve que ser comunicada. Por exemplo:
Cíntia: No título do texto mostra que o sexo masculino é mais consumista, mas na pesquisa feita ele é consumista com um determinado item (aparelhos eletrônicos).
Com isso não se pode chegar à conclusão que os homens são mais consumistas, pois não foram mostrados os outros itens que as mulheres costumam consumir mais para chegar a essa conclusão.
Essa estudante tem uma vista um pouco privilegiada uma vez que conhece os dados originais, já que participou de toda a pesquisa. Sua constatação pode ter sido influenciada por isso. Entretanto, ou comunicar sua reação diante do texto o principal elemento mobilizado para sua avaliação foi o conhecimento acerca do contexto, ou seja, seu conhecimento de mundo, de um modo mais geral.
Vejamos uma percepção semelhante, mas que, todavia, é de uma estudante que não participou dessa pesquisa, já que o tema que seu grupo estava investigando era outro.
Bianca: Eu discordo dessa pesquisa porque os homens gastam mais seu dinheiro com aparelhos eletrônicos, jogos e internet, enquanto as mulheres gastam mais com roupas, sapatos, bijuterias. Mulheres não vão ficar perdendo o tempo em lan house jogando, ou gastando dinheiro com aparelhos eletrônicos como os homens gastam. Por isso eu acho que mulheres gastam muito mais do que os homens. Ah, ainda tem salão, estética e muitas outras coisas que levam as mulheres serem mais consumistas que os homens.
Nessa avaliação também o conhecimento de mundo foi determinante. Outros estudantes, porém, concordaram em termos, pois entenderam que se considerarmos apenas esses quesitos, faz sentido pensar que os homens seriam de fato mais consumistas, nesses aspectos.
Um estudante observou também a questão da margem de erro do estudo:
(...) a margem de erro foi muito alta, com 10 pontos percentuais para mais ou para menos, isso define que pode ser mais alto ou mais baixo o consumo entre os dois gêneros.
Dessa forma, esse estudante acionou seu conhecimento estatístico, além de certa habilidade de letramento, para sua avaliação crítica da mensagem.
Em outra questão, também contextualizada com base nos dados do estudo sobre o tema internet, foram apresentados dois gráficos representando os mesmos valores com relação à acessibilidade à internet. Um elaborado de modo enganoso e o outro de maneira mais adequada, conforme a figura 10 – o primeiro, construção dos estudantes; o segundo, uma adaptação nossa.
Os estudantes deveriam observar a diferença entre eles e justificar qual deles julgavam melhor representar os dados.
O segundo gráfico, criado intencionalmente para ressaltar a diferença entre os valores, exigiu que os estudantes, enquanto consumidores de informações, tivessem essa percepção de modo a avaliá-lo criticamente. Foi destacada a diferença entre os gráficos:
Jó: Onde começa e onde termina a linha de porcentagem dos gráficos, cujos resultados são os mesmos, mas, pela aparência, o 2º gráfico aparenta ter maior diferença entre os resultados.
Iandra: A diferença é o eixo y e o 2º gráfico aparenta ter uma maior diferença, mesmo tendo a mesma porcentagem do 1º.
Sabrina: O primeiro gráfico mostra a escala realizada com maior facilidade de entendimento, pois sua escala começa do ponto 0, e já o segundo gráfico te deixa mais confuso com os números usados e por não começar a escala pelo 0.
Assim, habilidades de letramento associadas à familiaridade com as representações gráficas levam a considerar o primeiro como o mais adequado:
Maria: O primeiro, pois um gráfico sempre começa com 0, para mostrar o tamanho do percentual.
Sabrina: A do 1° gráfico, devido mostrar mais claramente o resultado da pesquisa, já que no segundo gráfico a porcentagem dos que não usam a internet parece ser menor do que mostrado no gráfico.
Júlio: O primeiro gráfico (o que começa do zero), pois com ele da pra ver o gráfico inteiro, e assim sendo é melhor e mais fácil para interpretá-lo.
A questão anterior fez com que os estudantes se deparassem com um relatório estatístico produzido de modo a forjar um resultado não verificado no estudo. Contudo, confrontá-los com relatórios preparados de forma adequada também pode dar contribuição no desenvolvimento da postura crítica. Desse modo, elaboramos também um relatório a respeito dos resultados do estudo sobre o tema internet apresentando-o de forma mais adequada e solicitamos a alguns estudantes que o lessem, comentassem sua adequação e sugerissem elementos que deveriam ser relatados nas matérias jornalísticas em geral. Conforme comentamos anteriormente, isso foi feito no momento em que convidamos alguns estudantes para avaliarem a credibilidade das estatísticas oriundas dos estudos feitos por eles.
Essa reflexão fez emergir importantes elementos para mobilização de questionamentos críticos. Os estudantes citaram ser necessário divulgar:
Quem encomendou a pesquisa; especificar porque foi feita a pesquisa; divulgar as não respostas; as variáveis analisadas; a margem de erro e índice de confiança;
como foi feita a amostragem; população alvo; explicar todos os resultados; a fiscalização [como foi feito o controle dos trabalhos de campo].