Para um autor como Sartre cuja expressão se multiplica em vários estilos, é preciso, como tentativa de elaborar um esboço mais aprofundado de análise, considerar suas várias formas de expressão conjuntamente, pois mesmo que essas formas estejam voltadas para o eixo filosófico, vale aqui considerar especialmente suas duas configurações de expressão: filosófica e romanesca, mais precisamente da década de 30.
Temos certamente que tomar essa atitude de harmonizar essas duas formas de expressão para compreender a variedade de expressões, que futuramente, irá incluir também o político e o cênico. Essa relação a que aqui, especificamente, nos referimos neste capítulo se dará entre A náusea e o pensamento filosófico do jovem Sartre. Encontramos aqui a elaboração composta de uma obra filosófica que exige uma exploração narrativa.
Além do mais, é notável que o romance comporta-se numa relação de complementaridade entre o pensamento filosófico e a expressão literária, ou melhor, as duas formas de expressão desenvolvem uma relação recíproca, onde os temas filosóficos de Sartre tornam-se concretos, tornam-se um equacionamento, uma
40Ibidem, p. 83. 41
exigência da expressão literária na expressão multifacetada do concreto, equacionamento esse que, por meio de ficção, dá-se também como uma forma de enfretamento na vida real, no mundo dos homens.42 Com essa constatação de complementaridade das duas formas de expressão, foi visto que Sartre sente a insuficiência que a forma de expressão só teórica tem por ser totalmente atingível, compreensível, e, assim, a exposição literária aqui se torna precisa por essa necessidade, essa ânsia de realidade, de enfretamento na realidade que a exposição da nova atitude filosófica necessita para se configurar precisamente na vida do homem, na constatação do que é vivido.43 O romance apresenta-nos em realidade concreta situações que ficariam somente na abstração do pensamento teórico.
Na obra A náusea é apresentado um indivíduo que vive o simples cotidiano, isso sendo preciso para que ele não se perca, não se torne incompreensível aos nossos olhos, à realidade, pois a personagem realizando-se sempre no chão concreto, e não suspenso em uma atmosfera abstrata, faz do romance, esse plano ficcional, um acesso para se apreender a verdadeira existência humana, sendo isso conseguido pela própria sensação da personagem Roquentin perante o universal, que logo se constata no livro como sendo toda a concretude.44 Para o existencialismo de Sartre não há lugar para abstrações, essa diferença entre abstrato e concreto que a tradição filosófica tomava como tese para então constituir uma hierarquia entre as duas. Sartre nega a anterioridade da essência, por isso aqui fica claro que seu existencialismo não poderia aceitar um universal abstrato como prioridade. Afirmar que a existência precede a essência, e isso para o próprio homem, é dizer que ele eternamente será uma questão para si mesmo, perpetuando-se nessa busca de si.45 O homem, sendo um ser que estará sempre na dúvida de si, sempre em questão.
Será uma angústia que Roquentin sentirá quando o posicionamento fenomenológico fornecerá sempre o questionamento, até esse questionamento voltar para si, esse questionamento sobre a ordem das coisas. A realidade que vivemos deve ser posta em questão, digo, passiva de um posicionamento investigativo, e aqui sendo na expressão filosófica e no enfrentamento no concreto pela literatura. A atitude de Sartre não se resume em posicionar no centro do pensamento filosófico o homem, e
42Silva, Franklin Leopoldo, Ética e literatura em Sartre, p.11. 43
Ibidem, p.12.
44
Trataremos sobre o universal concreto mais adiante.
então fazer que dele dependa toda a filosofia, Sartre quer precisamente mostrar que a filosofia tem que ser direcionada para a realidade 46, e a realidade é humana, sendo que a literatura é o lugar da pesquisa da vida do homem e de suas relações com o mundo, e é por meio dela que se atinge esta realidade, esse enfrentamento na concretude, para que possa realizar o equacionamento das questões éticas.47
Em A transcendência do ego, Sartre diz que o Ego é um objeto transcendente, é assim que ele permanece face à reflexão, realizando continuamente a síntese do psíquico. Esse Ego a que nos referimos é psíquico e não psicofísico. Há dois aspectos do Ego: psíquico e psicofísico. Sartre dirá que o Eu (Moi) psicofísico é um
“enriquecimento sintético do Ego psíquico, o qual pode muito bem existir em estado
livre.” 48 O Ego nunca pode ser indiferente aos seus estados, pois o Ego está
comprometido com eles.49 É a totalidade concreta dos estados e das ações, é o Ego que unifica todos os estados.
Observemos que o Ego é “espontâneo”, é uma unificação transcendente “espontânea” dos estados e das ações. Ele não pode ser tratado como uma hipótese: “talvez tenha um Ego”. Como poderíamos dizer: “talvez odeie fulano”.
Nessa “espontaneidade” o Ego é sempre ultrapassado pelo que produz. Vemos que,
apesar do ódio não poder existir por si, só ele possui certa independência em relação ao Ego50, e nisso Sartre dá exemplos de frases como: “como pude Eu fazer
isso!”, “como pude Eu odiar meu pai!”. Já dissemos que o Ego é um objeto
apreendido, mas notemos também que ele é constituído pelo saber reflexivo.
É um foco virtual de unidade e a consciência constitui-o no sentido inverso ao que a produção real segue: o que é primeiro realmente são as consciências, através das quais
se constituem os estados, depois, através destes, o Ego.51
46 Esforço notório de Sartre em A transcedência do ego de relacionar exemplo literário e impressões de sentimentos, sempre em foco a realidade humana.
47Silva, Franklin Leopoldo, Ética e literatura em Sartre, p.15. 48
Sartre, Jean-Paul. A transcendência do ego, p. 65.
49Veremos que no romance A náusea, Roquentin nunca se livrará de seus estados e nem tanto conseguirá ser indiferente às suas ações.
50Como o exemplo do ódio aqui citado, veremos que a náusea em relação à Roquentin será de forma independente a ele, ele não conseguirá ter controle a sua sensação.
O Ego vem depois, Sartre afirma ser produzido por uma consciência que se aprisiona no mundo para fugir de si. A consciência joga sua espontaneidade ao Ego, um objeto, dando-lhe o poder de criador.
É neste sentido que Roquentin tentará se aprisionar em um mundo que está se metamorfoseando, que não tem mais estabilidade, isso força-o a voltar-se para si e constatar posteriormente que ele é também fluxo de espontaneidade e, portanto, é também angústia.
O Ego só mascara a espontaneidade verdadeira, que é a da consciência, espontaneidade que desencadeia no sujeito uma liberdade tal que o joga em uma inacabável angústia perante o campo das possibilidades infinitas. Roquentin verá que ele (seu Ego) não tem o controle sobre as coisas e sobre si mesmo, verá que tudo, até ele mesmo, está inserido no campo da gratuidade plena depois que seu Ego derrete-se a ponto de deixar perceber o fluxo espontâneo que é o verdadeiro produtor das ações, sua consciência, ele próprio. A liberdade aparece como fatalidade por essa espontaneidade da consciência.
Como dissemos acima, o Ego, como ser no mundo, surge também como função de refúgio para escapar dessa espontaneidade, dessa angústia que faz sentir-se o sujeito em uma instabilidade permanente. O Ego vai se apresentar, portanto, como uma representação de nós mesmos, e nisso ele recorre a uma moral no mundo, ao meio que ele se representa, onde ele escolherá suas opções e compromissos. Na instabilidade causada pela espontaneidade da consciência, essa angústia, o Ego aqui como ser no mundo assim como o Ego dos outros também estará à procura de fundamentos estáveis para sua existência, implicando uma questão ética em toda representação que envolve o Ego perante suas ações no mundo. O relacionar dos seres humanos se define em enfretamentos, cooperações, agressividades e etc., relações essas que estão todas vinculadas às próprias ações do Ego, ações condenadas à liberdade e comprometidas com o agente que as produz..
É neste sentido que podemos compreender a trajetória da personagem central do romance de Sartre, Antoine Roquentin. Ele é um historiador que logo depois de ter viajado pela Europa Central, África do Note e Extremo Oriente, se estabelece na cidade de Bouville, onde passa três anos trabalhando em uma pesquisa sobre a vida
do marquês de Rollebon, pretendendo, com o resultado desse projeto, escrever um livro biográfico.
Roquentin vive só, em Bouville onde ele só tem contato freqüentemente com o Autodidata. Há aqui uma suspeita de que vivendo sozinho, sem se relacionar diretamente, mais intimamente com outras pessoas, seu diálogo interior pode se tornar enganoso perante o mundo.52 As constatações solipsistas de Roquentin se tornam para ele próprio algo vago: “Quando se vive sozinho, já nem mesmo se sabe
o que narrar: a verossimilhança desaparece junto com os amigos”53.
Por outro lado, Roquentin parece achar reconfortante estar só, pois poderia estar mais atento às particularidades da vida, coisas que, de contrário, poderiam passar despercebidas: “Em compensação, tudo o que é inverossímil, tudo o que não seria acreditado nos cafés, não nos escapa.”54 Roquentin é um extremo solipsista que se divide na escrita e na vida consigo. Ele tem a noção de sua situação, de seus pensamentos consigo mesmo sem nenhum compartilhamento com o outro.
Roquentin avalia sua vida, nutrido de um vazio e de muita calma nesses três anos em Bouville. Podemos ver que Bouville, com uma característica de ser tediosa, previsível, fornece à personagem Roquentin um cenário muito propício a essa observação, onde toda essa previsibilidade, se olhada de perto, se torna mutável, no seu olhar atento aos mínimos detalhes. Sua ação é fruto de sua solidão na cidade.
Tudo o constrange a se relacionar com os objetos à sua volta, com o mundo do cotidiano. Roquentin não se interessa pela cidade e nem pelas pessoas - vemos que Sartre constrói um cenário totalmente propício às meditações de Roquentin acerca dele e dos objetos em sua volta.
Sartre lança a investigação filosófica acerca das relações entre consciência e mundo num enraizamento total e concreto, devolvendo-a ao cotidiano, buscando não somente o conhecimento das coisas, mas sim, e em última análise, o enfrentamento da realidade, que se faz, primeiramente, pelo caminho comprometido na busca do próprio
52Em A transcendência do ego, Sartre coloca uma questão onde se uma pessoa se questiona ser preguiçosa ou trabalhadora, essa questão a si mesmo seria inútil, o Eu (Moi) tenta beneficiar de sua intensidade para conhecê-lo sendo ao mesmo tempo uma barreira. Conhecer-se bem se torna forçadamente tomar a opinião dos outros que me conhece, que não vai deixar de ser um ponto de vista falso.
53Sartre, Jean-Paul. A náusea, p. 22. 54Ibidem.
sentido da existência humana. É neste sentido que o personagem principal é um indivíduo aparentemente sem relevância histórica, apenas um indivíduo dentre tantos.
É no meio do mundo concreto, das coisas existentes que para Roquentin revela- se a constatação acerca do sentido último das coisas e do mundo: a absurdidade. É preciso, então, enfatizar que aqui a literatura para Sartre desempenha o papel constitutivo, pois é através dela que se aprofunda e multiplica a pesquisa fenomenológica e onde, preferencialmente, se desenvolvem os desdobramentos éticos. A preocupação de Sartre é esclarecer não apenas um princípio intelectual, mas a relação dessa consciência no mundo, um princípio existencial que irá permitir o acesso à vida humana.
O romance está imerso na vida. É em forma de diário em que a personagem relata os acontecimentos que progressivamente vão se esboçando no sentido ontológico último da existência como facticidade.