Neste trabalho adota-se a definição de acessibilidade utilizada pela ONU, ou seja, é o processo de conseguir a igualdade de oportunidades em todas as esferas da sociedade.
Segundo Godinho (2005), existem três perspectivas da acessibilidade:
• Usuários - Nenhum obstáculo pode ser imposto ao indivíduo em face de suas capacidades sensoriais e funcionais. Implica flexibilidade da interface de modo a permitir o seu uso por pessoas com necessidades especiais.
• Situação - O sistema deve ser acessível e utilizável em diversas situações, independentemente de software, comunicações ou equipamentos.
• Ambiente - O acesso não deve ser condicionado pelo ambiente físico envolvente, exterior ou interior.
Sales e Cybis (2002) levantaram alguns aspectos do envelhecimento e das alterações funcionais decorrentes da idade e sua influência na interação do idoso com o computador, como se mostra no quadro a seguir:
Quadro 1 - Dificuldades de interação do idoso com o computador e suas ferramentas Alterações Funcionais Dificuldade na Interação Idoso-Computador Limitações motoras
• Osteoporose: diminuição da massa óssea;
• Osteoartrose - desgaste das articulações;
• Parkinson: rigidez e tremor em função do tônus muscular excessivo ou perda da precisão
• Dificuldade de utilizar o teclado ou mouse;
• Executar ações que impliquem precisão ou rapidez.
Alterações visuais
• Presbiopia (vista cansada) -
prejudica a capacidade de foco em pequenos objetos próximos.
• Catarata, glaucoma e outras doenças provocadas pelo diabetes e hipertensão - podem levar à cegueira.
• Leitura de textos com fontes pequenas ou de uma cor particular;
• Distinguir variações cromáticas (semitons) de contraste ou de profundidade;
• Localizar e/ou seguir o ponteiro do cursor, manipular objetos gráficos.
Alterações auditivas
• Diminuição da capacidade de audição em todas as freqüências, especialmente as mais altas.
• Escutar beeps e sinais sonoros de alerta e
feedback.
Alterações cognitivas
• Alterações de concentração, memorização, leitura ou percepção.
• Dependem do ambiente de estresse, de doenças (Alzheimer), remédios, de fatores genéticos’
• Diminuição da capacidade de manter a atenção (principalmente em situações divididas).
• Diminuição da capacidade na memória de trabalho (principalmente a visual);
• Diminuição da capacidade para o tratamento da informação (lógica e aprendizado).
• Diminuição da capacidade na compreensão do discurso.
• Executar tarefas com tempo definido;
• Ler e compreender as informações em tela com muitas informações, propagandas etc.
• Identificar a função de um objeto (interpretar qual é a função de um ícone, por exemplo).
Alterações emocionais
• Declínio na auto-estima, apatia, desmotivação
• Falta de iniciativa (esperando e acatando ordens).
• Pouca exploração do meio, pouca iniciativa.
• Depressão, tristeza, irritabilidade, isolamento social devidos principalmente à diminuição das atividades diárias (inatividade).
• Preocupação com o dinheiro, a saúde, a segurança.
• Defasagem ou exclusão tecnológica.
• Lidar com erros e incidentes.
Essas alterações podem dificultar a interação do idoso com o computador para: executar tarefas com tempo definido; ler e compreender um volume grande de informação e propagandas na tela; perceber a função de um objeto (interpretar qual é a função de um ícone, por exemplo) ou lidar com erros e incidentes.
4.5 Considerações do capítulo
Este capítulo buscou caracterizar algumas técnicas de avaliação de acessibilidade; conceituou o design centrado no usuário e como as alterações decorrentes da idade podem dificultar a interação do idoso com o computador.
O objetivo deste capítulo foi levantar um referencial teórico para avaliar a interação do idoso com o computador, como nas oficinas de interação; e do design centrado no usuário, que pode ser uma técnica bastante útil para desenvolver e avaliar produtos ou serviços para o usuário idoso. As oficinas de interação e o design centrado no usuário foram as técnicas escolhidas, porque envolvem e encoraja os usuários finais a participarem das etapas de concepção, desenvolvimento até chegar à versão final do produto ou serviço. Passa-se agora, ao capítulo de inclusão digital.
5 INCLUSÃO DIGITAL
“Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém”. (Freire, 1996)
A difusão dos meios informatizados na sociedade abriu um espaço grandioso para as novas formas de tráfego de informação e comunicação.
Os conceitos relacionados à inclusão digital vêm sendo estudados exaustivamente em torno da natureza desse processo de democratização. O mais comum trata-se ao acesso ao computador e suas ferramentas de comunicação e informação disponibilizadas na internet. Entre os conceitos de inclusão digital encontram-se a visão de que essa inclusão reflete na inclusão social do individuo incluindo digitalmente (TAMBASCIA et al., 2006a, p. 6) “Os conceitos associados à inclusão digital é um passo importante na contextualização e identificação do verdadeiro potencial representado para diminuição da exclusão social”.
Segundo Paraguay (2007, p.1) inclusão digital é:
“gerar igualdade de oportunidades na sociedade da informação. A partir da constatação de que o acesso aos modernos meios de comunicação, especialmente a Internet, gera para o cidadão um diferencial no aprendizado e na capacidade de ascensão financeira e com a percepção de que muitos brasileiros não teriam condições de adquirir equipamentos e serviços para gerar este acesso, há cada vez mais o reconhecimento e o empenho (governamental, social, técnico, econômico) de se encontrar soluções para garantir tal acesso. Com isto pretende-se gerar um avanço na capacitação e na qualidade de vida de grande parte da população, bem como preparar o país para as necessidades futuras.
A exclusão digital é comentada por Castells (2003) como uma forma de o individuo se sentir menos autônomo diante de sociedade:
o processo pelo qual determinados grupos e indivíduos são sistematicamente impedidos do acesso a posições que lhes permitiriam uma existência autônoma dentro dos padrões sociais determinados por instituições e valores inseridos em um dado contexto (CASTELLS, 2003, p. 98).
De acordo com o Censo 2000 do IBGE (2006b), para cada 100 mil habitantes, o Brasil tem apenas entre 10 e 20 usuários de informática, o que o coloca abaixo dos padrões mundiais atuais. No que diz respeito ao acesso à internet, a Região Sudeste agrupa 58% dos provedores de acesso nacionais. A capital paulista destaca-se com 12% dos provedores nacionais, secundada pelo Rio de Janeiro.
O afastamento digital entre ricos e pobres na era da revolução digital é conseqüência do aprofundamento da exclusão socioeconômica, de fatos históricos e da inexistência de políticas públicas que privilegiem o acesso à tecnologia.
Silveira (2001) avalia que analfabetismo digital, pobreza, lentidão comunicativa, isolamento e o impedimento do exercício da inteligência coletiva resultam de um processo de exclusão digital. Segundo o autor,
[...] o rompimento com a mais liberal das idéias de igualdade formal e de direito de oportunidade, a exclusão digital impede que se reduza a exclusão social, uma vez que as principais atividades econômicas, governamentais e boa parte da produção cultural da sociedade vão migrando para a rede, sendo praticadas e divulgadas por meio da comunicação informacional (SILVEIRA, 2001, p.18).
A FGV divulgou o mapa da exclusão digital no Brasil, destacando que 150 milhões de brasileiros ainda não entraram na era digital. Evidencia também que, no mundo digital, estão refletidas as desigualdades econômicas e sociais do Brasil real (FGV, 2003). Esse mapa, fonte de estudo da FGV que se baseou nos dados do Censo 2000 e da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNDA) de 2001, revela: 12,46% dos brasileiros têm computador em casa e 8,31% dispõem de acesso à internet; 52,11% são mulheres; 47,89% são homens; 97,24% dos que têm computador vivem em áreas urbanas; 41,66% são de raça amarela; 15,14% são brancos; 4% são negros; 3,72 % são pardos.
Tambascia et al. (2006b, p. 9) citam que a inclusão digital exige uma grande diversidade de recursos, como: capacitação; meios tecnológicos; recursos de usabilidade; ferramentas de acessibilidade; apoio social e institucional.
Além disso, Tambascia et al. (2006a, p.7) defendem que:
a inclusão digital se dá quando aos excluídos digitais são oferecidos capacitações e habilidades, meios tecnológicos, recursos de usabilidade, ferramentas de acessibilidade e apoio social e institucional para que eles possam superar todas as modalidades de barreiras e percorrer a trajetória rumo ao centro participativo da sociedade informacional.
Declara Silveira (2001, p.18) com relação aos resultados da exclusão digital: “o analfabetismo digital, a pobreza, a lentidão comunicativa, o isolamento e o impedimento do exercício da inteligência coletiva podem ser comparados aos estragos que a fome gera nos primeiros anos de vida de uma criança”.
Na visão de Silveira (2001), a inclusão digital exige propostas ou alternativas de inclusão que oportunizem a todas as classes sociais um aprimoramento para conduzir às mais variadas formas de serviços, como o acesso e a facilidade na
utilização das tecnologias, tornando acessíveis os conhecimentos estimulados pelas Tecnologias de Informação e Comunicação.