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9.2 Final Remarks

10.1.3 Work Performance Items

“Nós tivemos, talvez, a sorte de termos tido, na gestão do negócio, sempre uma administração muito séria, bastante conservadora do ponto de vista dos conceitos éticos, conceitos morais, o que refletiu em produtos de reputação garantida, reputação inabalável, com reconhecimento do consumidor para a sua qualidade e sua constância no padrão, e isto só é conquistado com muita disciplina, com muita organização” (Walter Beiser, bisneto do fundador e atualmente presidente da empresa).

Certos conceitos relacionados ao modo de administrar um negócio podem ser considerados como uma herança cultural familiar. A cada geração, esses conceitos são transmitidos, e isso pode continuar acontecendo mesmo quando, com o tempo, profissionais contratados passam a assumir o lugar que anteriormente era ocupado por um herdeiro de sangue.

Criar uma empresa que se tornará duradoura implica dar as condições organizacionais para que ela prospere, evoluindo além dos ciclos dos produtos, que podem sair de linha ou ser substituídos. Os fundadores morrem, mas isso nem sempre ocorre com as empresas por eles inauguradas.

A fábrica fundada por Frederico Augusto Ritter em 1919 é, por um lado, um exemplo de empreendimento que resistiu ao tempo e à perda de seu fundador e, por outro, está inserida em uma categoria especial de empresa: a familiar. O que torna essa categoria especial é a sua ligação com a família proprietária. Essa categoria inclui desde pequenos estabelecimentos até destacadas multinacionais, abarcando não só negócios que ainda estão nas mãos do fundador como também negócios que possuem a tradição de ter alcançado a terceira ou quarta geração e se orgulham disso.

O sonho de criar uma empresa, torná-la um sucesso e depois garantir a sua continuidade através dos filhos ou filhas, genros ou noras, netos ou netas está presente em grande parte da população do mundo. Por essa razão, as empresas familiares predominam na maioria dos países. “Nas economias capitalistas, a maioria das empresas se inicia com as ideias, o empenho e o investimento de indivíduos empreendedores e seus parentes” (GERSICK, 1997, p. 2).

Por mais que sejam comuns, essas empresas são consideradas especiais na medida em que constituem uma cultura própria a partir da história e da identidade da família proprietária. Essa distinção converte cada empresa em “herdeira de seu próprio passado” (ORTEGA, 2003, p. 93). Além disso, a administração compartilhada entre parentes é diferente daquela que ocorre entre profissionais que não apresentam nenhum laço de parentesco.

A importância dada ao passado para formar a identidade da família que administra a empresa é expressa da seguinte forma pelo atual Diretor-Presidente da Ritter Alimentos, Walter Beiser:

“Eu diria que o primeiro ponto de partida foi a visão do fundador de enxergar a oportunidade de produtos novos a serem produzidos e fornecidos para o mercado, a disciplina de levar uma empresa adiante mantendo os rígidos conceitos de qualidade do fundador. Isto foi recebido na cultura e na educação dos sucessores: todos, sendo da família, tiveram o privilégio de receber esta carga de informação e de formação na sua educação” (Walter Beiser, 2009).

Nesse sentido, resgatar a vida de Frederico Augusto Ritter pode contribuir para a compreensão da constituição da cultura da família proprietária da empresa com mais de 90 anos e quatro ciclos de gestão. Nas lembranças da filha Gonda, Frederico apresentava os atributos de um homem pontual e trabalhador, que obedecia a um regramento, colocando a fábrica em primeiro lugar, até mesmo antes da alimentação matinal: “O meu pai era ali na

pontualidade e na hora certa. Levantava de manhã, abria primeiro a fábrica e depois vinha tomar café” (Gonda Schneider, 2009).

Situado no contexto da sociedade industrial, Frederico fazia do uso do tempo um fator para maximizar a produção. Quanto a essa questão, Domenico De Masi afirma que um fruto importante da indústria é “[...] o ritmo cada vez mais opressivo do trabalho. Taylor concebe a fórmula E=P/H, que quer dizer que a eficiência (E) é igual a P, de produção, dividido por H, horas de trabalho” (DE MASI, 2000, p. 65).

Assim, desde os primeiros tempos de existência, a Ritter regulava a jornada de trabalho dos funcionários de acordo com uma concepção de tempo disciplinar, característica de um momento imediatamente posterior à Revolução Industrial. Todo o conjunto de atividades e obrigações impostas na fábrica passa a ser controlado dentro de um esquema cronológico, no qual se cria um ritmo coletivo. Esse controle através do horário aplicado ao trabalho fabril foi herdado de um antigo modelo de ordens religiosas, especialistas no tempo e

mestras da disciplina. “O rigor do tempo industrial guardou durante muito tempo uma postura religiosa; no século XVII, o regulamento das grandes manufaturas precisava os exercícios que deviam escandir o trabalho” (FOUCAULT, 1987, p. 128).

O programa de trabalho iniciado pelo fundador da Ritter, que abria a fábrica diariamente com a mesma pontualidade, estava de acordo com esse rigor monástico. O operário saía cedo de casa e ia para a fábrica, onde o trabalho era organizado a partir do momento em que Frederico (Figura 4) a abria. O dia continuava na indústria, tendo em vista um bom dia de produção.

Figura 4 - O fundador da empresa, Frederico Augusto Ritter

Fonte: Acervo pessoal de Carlos Henrique Ritter Beiser.

Mantendo a disciplina e os atributos do fundador, os sucessores em cargos de alta gerência inseridos na família do fundador contribuíram para a longevidade da empresa. A escolha das pessoas certas para substituí-lo na liderança da Ritter foi uma preocupação do fundador, conforme o seu neto, que viria mais tarde a se tornar um diretor do empreendimento, Otto Walter Beiser:

“Eu tenho a impressão que um dos momentos mais difíceis, já no andar e no desenvolvimento da empresa, foi a época em que o meu avô se deu conta de que ele deveria se preocupar com quem viesse um dia sucedê-lo na empresa, porque o simples fato de se conscientizar desse problema obviamente requer uma introspecção e o reconhecimento de sua falibilidade” (Otto Beiser, 2011).

Por essa razão, o falecimento de Frederico Augusto Ritter, no dia 17 de junho de 1951, pouco antes de completar 72 anos, não significou o fracasso de seus negócios. Ele morreu em decorrência das complicações de um câncer na laringe e nos pulmões provocado, em parte, por ter sido fumante desde jovem. O neto Carlos Henrique recorda-se de que, para vencer a vontade de fumar, o avô costumava mascar chicletes e lhe pedia para comprá-los em um armazém a três quilômetros da propriedade onde moravam. O menino, com menos de nove anos, se deslocava de bicicleta para atender à solicitação do avô.

A ausência do fundador não prejudicou o andamento do empreendimento. Dez anos antes de falecer, Frederico havia reconhecido a necessidade de procurar as pessoas certas para substituí-lo na condução de seu projeto. Assim, a empresa teve a força organizacional para transcender a presença de seu primeiro líder e continuar existindo com as futuras gerações.

A empresa foi preservada com Fritz Bernhard Beiser e Frederico Werner Hamann no volante. Seguindo as diretrizes do fundador, eles procuraram modernizar e redefinir a empresa, apesar de limitações econômicas. Otto Walther Beiser comenta sobre essa época:

“Eu sei que eles eliminaram alguns dos antigos produtos que eram fabricados. Investiram na produtividade e na modernização de alguns processos de fabricação. Não foi um período de estagnação, foi um período em que a empresa cresceu e desenvolveu, mas não foi um período de grandes marcos, em termos de produção e desenvolvimento” (Otto Beiser, 2011).

Em princípio, é mais simples pensar que uma empresa nova surge a partir da iniciativa de um empreendedor sozinho. Contudo, na maioria dos casos, existem muitas contribuições para que tal venha a ocorrer. “Quase todas as empresas são iniciadas como parte de um processo que inclui muitos esforços menores, alguns sucessos e fracassos, a partir dos quais o fundador aprende aquilo que precisa saber. Outras pessoas contribuem com ideias, capital ou incentivo” (GERSICK, 1997, p. 141).

A história de Frederico Augusto Ritter está de acordo com a ideia de “aprendizado acumulado” para a criação do próprio empreendimento. Da condição de filho de um industrial e mestre-cervejeiro formado em Munique, Frederico passou a produzir leite, laticínios e doces de frutas em sua granja. Mesmo que não tenha feito uso do mesmo nível de conhecimento do domínio de especialistas em produção de cerveja, agiu como um empreendedor ao criar um novo negócio, onde seria, em princípio, o único líder para tomar todas as decisões, com os recursos provenientes da atividade anterior.

Embora a insatisfação com vários aspectos de um emprego – como falta de desafios ou oportunidades de promoção, bem como frustração e tédio – muitas vezes motive o início de um empreendimento, a experiência técnica e industrial anterior é importante uma vez que tenha sido tomada a decisão de empreender (HISRICH, 2009, p. 81).

O histórico profissional de Frederico Augusto Ritter justifica suas habilidades administrativas e a origem do capital para o investimento necessário no início do empreendimento. A experiência e o conhecimento prévios no ofício de industrial devem ter tido um papel em seu sucesso. Desse modo, a fabricação de cerveja, atividade tradicional da família do fundador, é o centro do processo que gerou a criação da Ritter Alimentos.