Surgido em plena vigência da ciência pautada pelo racionalismo cartesiano, o pensamento junguiano colocou-se à frente de seu tempo. Jung anteviu e descreveu não apenas dinamismos essenciais da psique humana expostos em sua obra - como também antecipou proposições metodológicas só mais recentemente reconhecidas e integradas pela comunidade científica da pós-modernidade.
Questionam-se na atualidade, por exemplo, o caráter extrovertido da chamada ciência moderna – e sua abordagem supostamente objetiva dos fatos observados – e a pretendida exclusão dos aspectos subjetivos do pesquisador do processo de fazer ciência. No entanto, Jung já equiparava, em relevância, a observação dos fatos em estudo e a auto-observação atenta do pesquisador da psique como condições essenciais à construção de uma visão dialética, aberta à diversidade e complexidade do seu objeto de análise. Ao lado da busca da harmonização dos opostos - sem que se anulem as diferenças -, estas são algumas proposições que, segundo Penna, caracterizam o pensamento junguiano como “afinado com as características da ciência pós-moderna”. (PENNA, 2006, p. 19)
Dessa forma, o paradigma junguiano de pesquisa e construção do conhecimento sobre a psique antecipou as propostas epistemológicas surgidas na pós-modernidade. A inclusão do sentimento e da intuição32 do pesquisador como
funções “indispensáveis ao conhecimento psicológico” são apontadas por Penna (2006, p. 18) como características ilustrativas do caráter antecipatório do método de Jung.
32 Sentimento e intuição são empregados no sentido junguiano desses termos, isto é: como componentes subjetivos das funções da consciência (JUNG, 1989, § 40).
Byington (1995) desenvolve a proposta junguiana sobre o processo de fazer ciência, ao considerar a investigação sobre a psique como processo estreitamente interligado à individuação do próprio pesquisador (BYINGTON, 1995, p. 56):
No que diz respeito à sua pesquisa, a pergunta é: se vocês querem uma pesquisa que reúna a subjetividade com a objetividade, mas querem ao mesmo tempo fazer ciência, a primeira coisa é recorrer ao seu processo de individuação. É perguntar: Qual sua relação emocional com sua pesquisa? Há um chamado para sua pesquisa? [...] Vocês sentem seu Ser, sua alma, sua integridade em jogo? [...] se vocês quiserem fazer ciência à luz da modernidade, vocês têm que procurar essa ligação da pesquisa com seus sonhos, suas emoções, com suas esperanças, com seus interesses pessoais, com as suas motivações políticas, sociais, mas absolutamente únicas dentro de vocês.
Para Byington (1995), é justamente desse envolvimento visceral do pesquisador com seu objeto de estudo que emergirá a objetividade pretendida e cultivada em seu trabalho. Inicialmente imersa no símbolo, a objetividade será o fruto resultante desse empenho confiante do investigador: “Então, se nós mergulhamos na inspiração e no simbólico, a objetividade aparecerá. O esforço da busca dessa
objetividade é que vai ser o caminho da tese.” (BYINGTON, Ibid. p. 57). Na pesquisa o
“Eginho” do investigador torna-se uma espécie de “para-raio do cosmos e da sociedade complexa” na qual está imerso, e passa a desempenhar a função de um canal de expressão do coletivo (BYINGTON, Ibid.).
A consideração da subjetividade do pesquisador como elemento relevante para a produção de conhecimento não é tendência exclusiva da Psicologia. Localiza-se ideia semelhante em autores de outras disciplinas das ciências humanas. O sociólogo Wright Mills (1982) apresenta proposições que poderiam ter sido enunciadas por algum representante da Psicologia Analítica: “Os pensadores mais admiráveis não separam seu trabalho de suas vidas. Encaram ambos demasiados a sério para permitir tal dissociação, e desejam usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra”. (MILLS, 1982, p. 211-212). É interessante mencionar também o título do capítulo onde está inserida a formulação de Mills, pois fornece uma referência sobre a tônica do seu pensamento: “Do artesanato intelectual”.
Na apresentação da “Observação Participante”, publicada por May (2004) há uma proposta metodológica também sintonizada às ideias acima expostas. Essa forma de pesquisa qualitativa advoga a participação imersiva do pesquisador no seu campo de estudo de tal maneira que - inserido no contexto onde ocorre o processo alvo da
sua investigação – possa ele melhor identificar seus aspectos relevantes, em lugar da convencional definição a priori dos mesmos aspectos: “[...] este método encoraja os pesquisadores a mergulharem nas atividades do dia a dia das pessoas as quais eles tentam entender. Diferentemente da testagem de ideias (dedução) elas podem ser desenvolvidas a partir das observações (indução)” (MAY, 2004, p. 174-175). Prosseguindo, May explicita também a inclusão dos fatores subjetivos do observador como elementos integrantes da sua busca de entendimento da situação em estudo:
[...] a meta de entender é reforçada concretamente pela consideração de como eles são afetados pela cena social, o que acontece nela e como as pessoas, incluindo eles mesmos (os pesquisadores) atuam e interpretam nas suas situações sociais – daí o termo observação participante.” (MAY, 2004, p. 181).
Conforme a introdução deste trabalho, é mais correto dizer que, em lugar de termos “escolhido um método” para a elaboração deste estudo, a Observação Participante foi assumida naturalmente durante seu desenrolar. A coordenação das atividades do NPPI33 implicou na automática imersão no ciberespaço, condição que, por sua vez, gerou oportunidades de observação e registro dos comportamentos e relacionamentos expressos no espaço da virtualidade. Simultaneamente, o interesse pelo estudo dos fatos observados à luz da Psicologia Analítica direcionou a opção teórica fundamental deste trabalho, bem como a definição do seu objetivo.
3.2 - Método
Este estudo foi realizado por meio da Observação Participante. Os comportamentos e situações coletados e registrados foram analisados qualitativamente segundo o referencial da Psicologia Analítica.
3.3 Procedimentos
A maior parte dos casos selecionados para descrição e análise foi recolhida em duas fontes principais: na prática clínica desenvolvida pelo NPPI e nos diversos meios de divulgação da imprensa. Outros – como os sonhos que ilustram o capítulo 5.2 -
foram relatados e enviados, via e-mail, pelos próprios sonhadores, ou através de seus terapeutas. Em cada apresentação indica-se suas fontes.
Simultaneamente à observação e registro de casos houve a revisão da literatura acerca das publicações contendo estudos psicológicos sobre a Internet, sua origem e seus desdobramentos, incluindo análises teóricas e pesquisas sobre as vivências verificadas no espaço virtual. Para essa revisão coletaram-se livros, publicações on-line, dissertações de mestrado e teses de doutorado, abordando o fenômeno Internet, seus usos e implicações para o comportamento e os relacionamentos humanos. Os artigos e demais publicações relacionados foram selecionados a partir de palavras chave: Internet e psicologia, Internet e Psicologia Analítica, Jung e tecnologia, psicologia e ciberespaço, simbolismo e Internet, arquétipos e Internet, e outras que se mostraram pertinentes no desenrolar da pesquisa.
As fontes consultadas foram revistas científicas impressas e as disponíveis na Internet (como Medline, Lilacs); bibliotecas convencionais e on-line, ou seja, todas que se mostraram úteis no desenrolar da pesquisa, como o caso da enciclopédia virtual Wikipédia. O período das publicações pesquisadas abrangeu janeiro de 1995 a março de 2009.
A análise das observações foi feita com base no referencial teórico oferecido pela Psicologia Analítica. Os comportamentos e situações considerados na análise foram organizados em torno de três tópicos ou temas centrais:
Ciberespaço como espaço psíquico.
Ciberespaço como novo campo de expressão de antigos conflitos humanos. Ciberespaço como campo de expressão de novas formas de construção do
saber e ampliação da consciência.
Durante a análise dos temas centrais foram destacados três subtemas, indicados no sumário sob os títulos:
o O corpo no espaço virtual
o Sonhos informatizados: a presença da tecnologia no imaginário o Quantos “eus” nos habitam?