Huambo, estado da Angola, está localizado no Planalto Central, ao sul. O Planalto Central foi habitado pelos povos ovimbundu. A área foi uma das últimas zonas da Angola a ser ocupada pelos portugueses. Sua ocupação efetiva ocorreu por volta de 1920195.
O Huambo faz fronteira ao nordeste e leste com o estado do Bié, ao sul com o estado da Huila, a oeste com o estado de Benguela e ao noroeste com o estado do Kuanza Sul. A superfície do estado é de 37.771,15 km², representando 2,61% da extensão nacional. O estado tem 2.075.713 habitantes e a capital é Huambo. É constituído administrativamente por 11 Municípios, 35 comunas, 3.093 bairros e aldeias196.
A região é essencialmente agrícola, com solo favorável a esta atividade. O clima é tropical úmido, influenciado pela altitude do planalto. Tem duas estações chuvosas, com sete meses de duração e cacimbo (seca) com cinco meses. A precipitação anual em média atinge 1400mm/ano e a temperatura média anual é de 19ºC, que se caracteriza como clima temperado197.
A cidade nasceu de forma diferente das outras. Ela foi fundada pelos construtores da ferroviária denominada Caminho de Ferro de Benguela – CFB, após um decreto colonial, de 8 de agosto de 1912, que dizia respeito à projeção da linha ferroviária passar pela região do Huambo. Nessa época, havia duas estações missionárias, Bailundo e Dôndi. Na estação missionária do Dôndi, estava iniciando a construção da sua primeira instituição
195 LUKAMBA, André. Evangelização: Encontro vivo na cultura umbundu de Angola. São Paulo, Edições
Loyola, 1987, p.21.
196 Carta de apresentação do Governador. A nossa grande aposta. In: revista cidade do Huambo. Huambo,
1995, Angola, p.2.
educacional, o Instituto Currie. Em setembro de 1912 foi inaugurada a Estação Ferroviária do CFB e com ela a cidade. Segundo explica Fernando Marcelino:
Um grupo de colonos considerados mais representativos assinará para a posteridade, com o governador Geral, uma espécie de Termo de Fundação da cidade que os ingleses no seu à vontade vitoriano, baptizam entretanto de Pauling Town ( do nome de uma companhia de Sua Majestade Britânica engajada na construção de ferrovias), até bem dentro dos anos 40, por Bairro da Pauling198.
Significa que os primeiros habitantes da cidade capital do estado eram trabalhadores ingleses e portugueses do CFB. O crescimento da cidade não se deu por passos, como por exemplo, de vilarejo para município e depois cidade. A cidade foi inaugurada, mesmo tendo apenas um bairro. O nome de Pauling Town que os ingleses atribuíram a cidade criou irritação ao governador nacional português, que não aceitou. A disputa de atribuição de nome à cidade impulsionou o governador a denominar a até então conhecida como Planalto de Benguela, de Nova Lisboa, isto em 1926. Após a independência nacional, o estado e sua cidade capital tomaram o nome de Huambo, em memória de um dos anciãos que habitou a região antes da criação da cidade199.
2.1.1– Análise de conjuntura do estado de Huambo
A região do Huambo, até 1975, era o suporte nacional, em virtude de seu potencial
agro-industrial, cujas referências ultrapassaram as fronteiras nacionais, superada apenas por Luanda200. Nesse período, o estado tinha adquirido o estatuto de “gigante”, por possuir
consideráveis estruturas econômicas, produtivas, sociais e de suporte à atividade de prestação de serviços nos diferentes domínios implantados na região, antes e após a independência201.
Uma das grandes contribuições ao referenciado estágio, além do povo, se deveu ao comboio da linha férrea do CFB (Caminho de Ferro de Benguela), que parte de Benguela202, passa pelos estados Huambo, Bié, Moxico, até a fronteira Luau (fronteira leste), fazendo ligação com a linha do país Zaíre, ex-Congo Belga, e as linhas deste país
198 MARCELINO, Fernando. O Huambo e o comboio. In: jornal “Jango”. Huambo, 1992, p.8. 199Idem, p.8.
200Idem, p.1. 201Idem, p.1.
fazem ligação com Zimbabwe e Moçambique. A inauguração oficial da linha ocorreu em 1929203.
Com o passar do tempo, o comboio passou a ser um agente de contribuição para o desenvolvimento, pois facilitou a transação dos produtos produzidos na região. Os ovimbundu, que eram comerciantes e agricultores, após a extinção da atividade comercial a longa distância, transformaram-se essencialmente em camponeses e incrementaram uma rede comercial que chegava até as aldeias mais distantes da linha férrea. Aliada à agricultura estava a pecuária que, nas palavras de Fernando Marcelino, mais tarde
agravada severamente pelo angariamento de mão de obra para o café (...)204.
As informações fornecidas por Lídia Cutala revelam que a linha férrea de comboio seguiu praticamente a mesma rota por onde as caravanas comerciais passavam com suas mercadorias. Ela diz que quando seus pais contavam suas viagens, falavam das localidades onde acampavam para descansar e as vias por onde passavam eram Bié, Moxico, até o Zaire, onde se encontravam com comerciantes de outras regiões da África205.
Em 1926 é fundada a Associação Comercial do Planalto de Benguela, e em 1929 a Agência do Banco de Angola. Cria-se o Sindicato dos Agricultores, com sede no Município de Chikala-Colohanga, ex-Vila Nova e no mesmo dá os seus frutos, com uma reunião dos agricultores do Huambo, que define as bases do primeiro Congresso Agrícola206.
E neste contexto, a Igreja Congregacional em Angola exerceu papel preponderante, que se dá com a conversão das famílias ao cristianismo, sua expansão por meio da escolaridade, os agentes da pastoral nacionais e estrangeiros e a dedicação do povo que contribuíram com os fatores do desenvolvimento207.
Os fatos revelam que os aspectos apontados concorreram para a aceleração das transformações sociais, econômicas e religiosas nessas regiões. Nesse contexto, vale um olhar para a situação social das mulheres.
203 MARCELINO, Fernando. Op., cit., p.8. 204MARCELINO, Fernando. Op., cit, p.8.
205Lídia Cutala. Entrevista concedida á pesquisadora. São Bernardo do Campo, junho de 2003.
Lídia Cutala é filha do Soba Mukandavandu da área do Dôndi. Lídia Cutala conta que seu pai antes de ser Soba, fazia parte do grupo que chefiava as caravanas comerciais. Daí o nome que tem haver com o conhecimento de conduzir as pessoas na caravana, conhecimento das rotas da África e as relações exteriores. Ainda conta que era necessário saber magia, pois em casos de ameaças durante a viagem, era necessário virar borboleta. Em caso de ameaças de animais ferozes era preciso usar ervas para afugentá-los.
206 MARCELINO, Fernando. Op., cit.,p.8.
2.1.2– Situação social das mulheres no estado de Huambo, entre 1965-1975
A situação social das mulheres em Huambo, pode ser entendida levando-se em consideração as culturas tradicionais dos povos bantu e povos não bantu e sua dinâmica. O governo colonial, o ensino do cristianismo e a luta pela libertação socio-política do povo angolano, exerceram função determinante na vida social das mulheres em Huambo, no período 1965-1975208.
Nesse período, era nítido o perfil das classes sociais. De um lado, o colonizador a imprimir sua hegemonia sobre a economia, a política e a religião. De outro lado, os
assimilados que tentavam se adaptar à aculturação que se exigia a essa categoria. Por outro, os membros das igrejas protestantes que marcavam sua diferença, sobretudo, na sua
forma de agir, vestir e falar. André Cangovi Eurico comenta que nessa época pertencer à Igreja Congregacional era fazer parte da elite209. O povo majoritário não tinha condições
econômicas de atingir categorias favorecidas e estavam constrangidos a viver sua vida na dimensão cultural africana.
No âmbito político, o governo colonial estava promovendo campanhas de registro do senso populacional, o que antes era restrito àqueles que ascendiam ao estágio de assimilação210.
A situação geral das mulheres naquela época dependia da categoria social a que pertencia sua família nuclear, contudo, a maioria exercia mais de uma das atividades principais: agricultura, administração do lar, cuidado com a família. A atividade agrícola, a coleta, apanhar lenha, o abastecimento de água, os cuidados domésticos e das crianças pequenas e pessoas idosas, preparação dos alimentos, ocupavam o dia-a-dia das mulheres. As mulheres que eram professoras, parteiras e enfermeiras continua vam a exercer dupla jornada.
Para as mulheres que tinham maridos presos nas cadeias do governo colonial e para aquelas, cujos maridos se encontravam em serviço de contratado, a sobrevivência era difícil. Com a presença e ações dos Movimentos de Libertação, o governo colonial, por meio da sua segurança, capturava intelectuais para as cadeias. As pessoas normalmente
208NETO, Maria da Conceição. Op. cit, p.12.
209 EURICO, André Cangovi. Entrevista concedida à pesquisadora. Luanda Angola, dezembro de 2003. 210 CHIPESSE, Augusto. Entrevista concedida à pesquisadora. Luanda Angola, dezembro de 2003.
presas eram os intelectuais. O governo colonial desconfiava que os intelectuais fossem os organizadores dos movimentos.
Depois que se aboliu o tráfico de africanos e mercantilismo dos mesmos, o sistema colonial arquitetou outros métodos de escravatura, com o objetivo de manter a exploração que estivesse ligada à auto-suficiência das colônias. A medida primordial lançada pelo governo colonial foi a aplicação de impostos exorbitantes e arbitrários. Outra medida aplicada foi o serviço de contratado, que consistia na abertura de fazendas agrícolas, que contava com a mão de obra dos africanos211.
Na sua maioria fazendeiros, eram autorizados pelo governo colonial a angariar pessoas para trabalharem na plantação. Em Angola, o fazendeiro enviava seu gerente para o interior do país com valores monetários, para os comerciantes portugueses já erradicados nas aldeias. Os comerciantes envolvidos no processo de angariar pessoas para as fazendas recebiam uma quantia por cada pessoa que fosse trazida e por sua vez, os comerciantes e os administradores municipais e, regionais forçavam populações e Sobas a entregar pessoas para o serviço. As pessoas contratadas eram pagas no regresso, no momento do embarque, o comerciante entregava às mulheres ou familiares dos contratados panos,
vinho, enxadas e algumas coisas que queria deixar para a família212. As mulheres dos
contratados que ficavam na aldeia, por vezes eram coagidas a contrair dívidas e quando o marido retornava, descontava-se o valor dos créditos, o saldo restante a receber não era suficiente para pagar o imposto e, para não ir para a cadeia, por vezes ele optava por ir novamente ao contrato. Uanhenga Xitu dá um esclarecimento, ao dizer que havia três tipos de contratos:
(...) o primeiro é aquele que tem o carácter voluntário, em que o empresário através de meios próprios e complicados adquire mão-de-obra braçal, ou antes, serviçal. O segundo que tem a legalidade oficial de obrigatoriedade em que mensalmente, determinados chefes de Postos administrativos têm de fornecer um número X de indígenas para socorrer aquelas empresas que de uma ou de outra forma não conseguiram o número suficiente. Vêm das sanzalas onde são arrancados à força pelos Sobas, Cabos Civis, e Sipaios, e a qualquer pretexto para completar o número. Neste contrato dispensa-se ao cumprimento da praxe de pôr todos os contratados na fila diante da autoridade administrativa, do gerente, do angariador para se saber dos serventes se “vão de vossa livre vontade, não houve interferências ou influências de pessoas estranhas como Sipaios e de outras autoridades tradicionais, e se já sabem o preço que vão
211 FAGE, Roland Oliver J. D. Breve história de África. Lisboa Portugal, Sá da Costa Editora, 1980, p.229. 212 UANHENGA XITU – Agostinho A. Mendes de Carvalho. Mungo: Os sobreviventes da máquina colonial
ganhar e a espécie de trabalho a fazer. São formalidades para legalizar a ilegalidade”.
O terceiro contrato é benzido, talvez pareça menos pesado, é o dos padres. Com uma diferença o tempo parece ser curto de 8 em 8 dias uma semana ou umas sanzalas; mas se admitirmos beber hóstia da comunhão todos os meses, por ano teremos 8 x 12 dias, é igual mais de três meses de trabalho por ano. Também aqui não há ração, as alfaias são dos cristãos, o vencimento é a doutrina, é o sacramento do batismo, é o sacramento do casamento213.
Esse procedimento se mantinha em circulo vicioso para aqueles cujas condições econômicas não eram suficientes para satisfazer o exorbitante imposto. Algumas mulheres nestas condições preferiam ir com seus maridos às fazendas, o que degradava mais ainda a sua situação social, com tendência à pobreza. Essas atrocidades criavam revoltas e fugas de muitos angolanos para outros países da África, o povo denunciava o sofrimento e a opressão de muitas maneiras, inclusive pela música ou cânticos.
Tendo sido apresentada a questão da situação social da mulher em Huambo nos anos de 1965-1975, faz-se necessário tratar a formação e as relações de gênero na cultura angolana.