Inúmeros são os autores que trabalharam com as definições e delimitações do CBD, mas nos estudos de todos é possível perceber que está é a principal área comercial e de serviços da cidade, para onde se dirigem e se concentram os diversos fluxos, enfim, é o local de maior expressão do capital na cidade. De acordo com a definição de Murphy e Vance Jr. (1954, p.189) o CBD é o local em que se encontra
A maior concentração de escritórios e lojas varejistas refletida no valor da terra mais elevado da cidade, e os mais altos edifícios. Aqui também é o foco principal do tráfego de automóveis e pedestres. Por meio da rede de transportes o restante da cidade e uma área longinquamente situada, além dos limites da cidade, estão orientadas em direção ao CBD.
Além desta, também existe a definição de que o CBD:
[...] é o local onde se reúnem as atividades que dirigem e que relacionam, tal como das que visam dar à população a possibilidade de satisfazer as suas mais elevadas exigências. Objeto de intensa concorrência, o solo atinge, aí, os mais elevados preços que repelem a função residencial e só podem ser suportados por atividades muito lucrativas, com necessidade de localização particularmente acessível e de grande procura (BEAUJEU-GARNIER, 1997, p. 392).
Nas duas definições anteriores é possível perceber a idéia de que o CBD é o local onde estão concentradas as principais atividades comerciais da cidade, atraindo consumidores de todo o espaço urbano, além de estar localizado em uma área de alto valor da terra, incompatível com o uso residencial.
Além da definição conceitual do que é o CBD, vários autores também se debruçaram sobre a definição de métodos de delimitação desta área. De acordo com Beaujeu-Garnier (1997), os primeiros trabalhos significativos sobre a delimitação do CBD foram desenvolvidos por William-Olsson, na década de 1940, sobre Estocolmo. Este autor utilizou um indicador calculado a partir do aluguel pago pelas boutiques e restaurantes, dividido pelo comprimento da fachada. Jaqueline Beaujeu-Garnier, na década de 1960, utilizou alguns critérios cartográficos para a delimitação do CBD de
Paris. Mas os método mais conhecido e utilizado no Brasil é o proposto por Murphy e Vance Jr., ainda na década de1950,o que merece maior destaque.
1.4.1. O método de delimitação do CBD de Murphy e Vance Jr.
Murphy e Vance Jr. iniciaram uma investigação a respeito dos métodos usados em diversas cidades para a delimitação do CBD. Eles analisaram os mapas de aproximadamente 30 cidades de tamanho médio dos Estados Unidos da América, chegando à conclusão de que apenas duas, Worcester e Denver, possuíam técnicas definidas de delimitação: a primeira baseada no valor da terra e a segunda no uso do solo. Vários métodos foram utilizados até que os autores chegaram à conclusão de que todos eram impraticáveis para os EUA. Assim, decidiram elaborar seu próprio método.
Após a análise de vários métodos e variáveis, Murphy e Vance Jr. definiram que os mapas de uso da terra seriam mais práticos para a determinação do CBD.
O método foi aplicado em nove cidades dos EUA, com população entre 150.000 e 250.000 habitantes. Os autores partiram da avaliação de três grupos de possibilidades:
1 - A distribuição da população e dados relacionados - os dados referentes à localização das unidades residenciais mostram que o CBD é um lugar de baixa densidade de residências permanentes. O fluxo de pedestres e veículos forma outro possível enfoque para a delimitação, porém, apresentam muitas deficiências para efetuar as generalizações.
2 - O valor da terra e das edificações – essa é outra possibilidade de interesse para a delimitação do CBD. No entanto, há que ser considerados os contrastes entre a avaliação ou taxação do valor da propriedade para fins de impostos e o seu valor real de mercado. Além disso, o valor da terra difere de uma cidade para outra.
3 - Uso do solo - é a possibilidade que fornece uma base mais direta e realística para a delimitação do CBD, por intermédio da qual se observa, em relação ao pavimento térreo, a quebra na continuidade de uso dos negócios centrais (RIBEIRO FILHO, 2004, p. 55)
Nesse contexto, foi muito importante para o aprimoramento do método a definição do que seriam atividades centrais e atividades não-centrais.
Para Murphy e Vance Jr. o comércio varejista e os serviços são as funções essenciais para os negócios centrais. Lojas de venda a varejo, lojas que oferecem serviços e escritórios foram considerados usos centrais. Já as residências, prédios governamentais, estabelecimentos industriais, atacadistas, lotes e prédio vazios foram considerados como usos não-centrais. Os mapeamentos foram feitos para três níveis: para o andar térreo, para o primeiro andar e uma síntese das atividades acima do segundo andar. O quarteirão foi definido como unidade de análise.
Por meio destes mapeamentos e dos conceitos de atividade centrais e não- centrais, foram calculados dois índices: Central business heigth index (CBHI), que é o número de andares de atividades centrais em relação à superfície do bloco; e Central
Business Intensity Índex (CBII), que é o percentual de espaço total utilizado, nos
diferentes andares, pelas atividades centrais, em relação à área total de todos pavimentos. Para um quarteirão ser considerado central ele deve possuir o CBHI maior ou igual a um e o CBII acima de 50%. Além disso, o quarteirão deve fazer parte de um grupo contíguo ao ponto de maior concentração de pedestres; se o quarteirão não alcançar os índices acima citados, mas for cercado por quarteirões que alcançaram, ele é considerado central, assim como um quarteirão ocupado por prédios governamentais, adjacente a quarteirões centrais, também é considerado central.
Este método foi bastante utilizado no Brasil, como no trabalho de Ribeiro Filho (2004) sobre a área central de Manaus; Duarte (1967), sobre a área central do Rio de Janeiro; Cordeiro (1980), sobre o centro de São Paulo, entre outros pesquisadores.
A definição da Área Central, do CBD, perpassa também pelas definições dos modelos da estruturação do espaço urbano. A Escola dos Estruturalistas de Chicago, também conhecida como Ecologia Urbana, foi responsável pela idealização de alguns
modelos que visavam a explicar a forma do espaço urbano, pensando nas noções de centralidade e no centro como algo fixo. A seguir serão analisados alguns destes modelos e discutir-se-á sobre o conceito de centralidade e suas implicações.