6.3 Widening scope: valuation for awareness raising on other urban ecosystem services67
6.3.9 Supporting, experiential and cognitive service – urban pollinators
A textualidade pode ser definida, de maneira extremamente sucinta, como o conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto e não apenas um amontoado de frases. O texto não deve ser encarado como um produto, mas como um processo. Ele se define como um processo organizacional.
Sete princípios de construção textual do sentido foram elaborados por Beaugrande & Dressler (1981), a saber, coesão e coerência, esses centrados no texto, e a situacionalidade, a informatividade, a intertextualidade, a intencionalidade e a aceitabilidade, esses últimos centrados no usuário.
A coesão, em geral, designa-se pela “forma como os elementos lingüísticos presentes na superfície textual se interligam, se interconectam, por meio de recursos também lingüísticos, de modo a formar um “tecido” (tessitura), uma unidade de nível superior à da frase, que dela difere qualitativamente.” (KOCH, 2004, p.35). A coesão é dividida em dois grupos: o da coesão referencial e o da coesão seqüencial.
Para Beaugrande & Dressler, a coerência refere-se “ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual entram numa configuração veiculadora de sentidos” (BEAUGRANDE & DRESSLER, 1981 apud KOCH, 2004, p. 40). Para que haja coerência é preciso haver uma forma de unidade, ou seja, idéias ligadas a um eixo central. Não é apenas uma relação semântica, mas também uma relação de natureza pragmática.
Para a autora, a situacionalidade “pode ser considerada em duas direções: da situação para o texto e vice-versa.” (p.40) O movimento situação/texto diz respeito “ao conjunto de fatores que tornam um texto relevante para uma
situação comunicativa em curso ou passível de ser reconstruída”. No movimento texto/situação, a autora postula que
Ao construir um texto, o produtor reconstrói o mundo de acordo com suas experiências, seus objetivos, propósitos, convicções, crenças, isto é, seu modo de ver o mundo. O interlocutor, por sua vez, interpreta o texto de conformidade com seus propósitos, convicções, perspectivas. Há sempre uma mediação entre o mundo real e o mundo construído pelo texto. (p.40)
A informatividade segue duas direções: a distribuição da informação e o grau de previsibilidade e redundância. Quanto à primeira, Koch assevera que “é preciso que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova. Quanto à segunda, ela diz que “um texto será tanto menos informativo quanto mais previsível (redundante) for a informação que traz. Há, portanto, graus de informatividade...” (p.41)
Segundo a autora (p.42), a intertextualidade “compreende as diversas maneiras pelas quais a produção/recepção de um dado texto depende do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores”.
Já o critério da intencionalidade, para a autora, “refere-se aos diversos modos como os sujeitos usam textos para perseguir e realizar suas intenções comunicativas, mobilizando, para tanto, os recursos adequados à concretização dos objetivos visados”. (p.42)
O último dos critérios, a aceitabilidade, “é a contraparte da intencionalidade. Refere-se à concordância do parceiro em entrar num “jogo de atuação comunicativa” e agir de acordo com suas regras, fazendo o possível para levá-lo a um bom termo...” (p.42)
Os critérios de construção de sentido nos fragmentos de Romanos e Gálatas
Em relação à coesão textual, ambos os textos possuem um alto grau coesivo que pode ser comprovado através da investigação realizada neste trabalho. A tessitura do texto é formada em minúcias e o processo de referenciação demonstra os elementos coesivos do texto.
A coerência, nos dois textos, justifica-se por fatores variados. Ambos estão apoiados num mesmo eixo temático: o homem deve deixar-se governar pelo Espírito Santo. Toda a argumentação do enunciador, conforme investigada nesta pesquisa, converge para esse ponto central. As idéias esboçadas nos dois fragmentos, além de estarem semanticamente entrelaçadas, apresentam um forte teor pragmático, explicitado, por exemplo, nos conselhos práticos para o viver do cristão: “Mas eis o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, doçura, domínio de si; contra tais coisas não há lei.”
Em se tratando do critério da situacionalidade, observa-se, primeiramente, o movimento situação para o texto. Na observância do contexto, mais especificamente do capítulo 7 de Romanos, constata-se que os participantes da Igreja de Roma viviam um conflito configurado no desejo que tinham de continuar observando os preceitos da lei judaica, apesar de terem compreendido que Jesus era o messias prometido. Sua postura agora deveria ser a de abandonar a lei mosaica e se deixarem governar pela graça divina. O embate entre a influência da carne e a obra do Espírito já vem sendo apresentado desde esse capítulo, culminando no texto analisado do capítulo 8 de Romanos. Quando o texto diz “Com efeito, sob o domínio da carne, tende-se para o que é carnal, mas sob o domínio do Espírito, tende-se para o que é espiritual”, o autor mostra que havia duas categorias de pessoas naquela igreja: as carnais e as espirituais. Segundo Champlin (1995), os que tendem para a carne são aqueles que “não têm
contatos específicos com o Espírito Santo, o indivíduo não-regenerado, que não sabe o que é conversão”. Diante do exposto até aqui, o critério da situacionalidade fica comprovado no texto em questão. O movimento texto para a situação acaba se imbricando nas mesmas questões. Quando se lê, por exemplo, “a carne tende para a morte, mas o Espírito tende para a vida e a paz” além de toda a insistência nesse modelo apresentada pelo enunciador, entende-se que seu enunciatário deveria buscar uma vida espiritual e abandonar o viver carnal. Os pronunciamentos feitos por Paulo possuem grande relevância naquela situação comunicativa.
O texto de Gálatas segue praticamente o mesmo modelo situacional. O enunciador demonstra ser exímio conhecedor dos preceitos judaicos, mas entende que Cristo, em sua expiação vicária, cumpriu toda a Lei. O enunciador também demonstra conhecer a situação específica em que se encontrava o seu enunciatário e busca meios, através de sua construção textual, de suprir as necessidades desse enunciatário ou, ainda, de oferecer-lhe opções seguras para um viver cristão digno. O enunciador traz à baila a maneira como seu enunciatário estava conduzindo seu viver “se vos mordeis e devorais uns aos outros, tomai cuidado: vós vos destruireis mutuamente.” O paradigma cristão permeava a mente de Paulo e ele tencionava transmiti-lo aos seus leitores.
Quanto à informatividade, nota-se, no texto de Romanos, no quesito distribuição da informação, que há equilíbrio entre informação dada (ID) e informação nova (IN). Pode-se observar abaixo:
Agora, pois, não há mais nenhuma condenação para os que estão em Jesus Cristo (IN). Pois a lei do Espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, liberou-me da lei do pecado e da morte (ID). (...) Com efeito, sob o domínio da carne, tende-se para o que é carnal, mas sob o domínio do Espírito, tende-se para o que é espiritual (IN): a carne tende para a morte, mas o Espírito tende para a vida e a paz (ID). (...) Sob o domínio da carne não se
pode agradar a Deus (ID). Ora, quanto a vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, visto que o Espírito de Deus habita em vós. (IN) Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence. (ID) (...) Assim, pois, irmãos, nós temos uma dívida, mas não para com a carne, para devermos viver de modo carnal. (IN) Pois se viverdes de modo carnal, morrereis; mas se, pelo Espírito, fizerdes morrer o vosso comportamento carnal, vivereis. (ID) Com efeito, os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses é que são filhos de Deus (ID).
Em relação à previsibilidade e redundância, distinguir-se-ão algumas informações apresentadas no texto. É dito, por exemplo, logo no início, que “não há mais nenhuma condenação para os que estão em Jesus Cristo”. Essa afirmação se faz inédita no decorrer do texto. Em relação a uma outra informação, a saber, “nós, que não andamos sob o domínio da carne, mas do Espírito”, há uma retomada quando o enunciador diz “Ora, quanto a vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito” e ele ainda insiste “visto que o Espírito de Deus habita em vós”. Outras duas vezes surge a mesma informação “por seu Espírito que habita em vós” e “mas [recebestes] um Espírito que faz de vós filhos adotivos”. Pode-se então constatar que sobre o fato de que seus enunciatários seriam pessoas em quem o Espírito de Deus habita, o enunciador confere alto grau de redundância.
No texto de Gálatas, a informação é distribuída de maneira mais concisa. O enunciador começa informando a seu enunciatário (“irmãos”) que “é para a liberdade que fostes chamados” (IN). Mais adiante, ele diz “Escutai-me: andai sob o impulso do Espírito e não façais mais o que a carne deseja.” (IN) e continua “Pois a carne, em seus desejos, opõe-se ao Espírito (IN) e o Espírito à carne (ID); entre eles há antagonismo” (ID). Constata-se que também aqui há equilíbrio entre a informação nova e a informação dada. Em relação ao grau de informatividade, o texto apresenta-se como bastante informativo, pois em seu desenvolvimento as idéias e os argumentos pouco se repetem, o que lhe confere baixo grau de redundância.
No texto de Romanos, o enunciador faz um intertexto, por exemplo, com o Aramaico, uma das línguas em que foi escrito o Velho Testamento e uns poucos fragmentos do Novo Testamento. Ele introduz a expressão aramaica Abba que quer dizer papai, ou paizinho. Seria uma forma afetuosa e íntima pela qual o filho se refere ou se dirige ao pai. No texto de Gálatas, há um intertexto com uma fala de Jesus, publicada no Evangelho “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não se sabe se os enunciatários atentaram para esse efeito intertextual de Paulo, mas pode-se supor que sim, na medida em que as comunidades cristãs formadas no primeiro século – dentre elas a de Roma e a da Galácia – eram instruídas pelos apóstolos, que reproduziam o que aprenderam com Jesus. Nesse sentido é possível que aqueles cristãos soubessem que um dia Jesus disse que toda a Lei se resume nisto: “amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
A intencionalidade se apresenta nos textos de Paulo de maneira clara e abrangente. Ele não estava satisfeito com a maneira como os membros das igrejas de Roma e da Galácia conduziam seu viver cristão. Ele deixou clara sua insatisfação por eles darem constante lugar à carne, deixando de lado o governo do Espírito. Ele demonstrou as conseqüências a serem enfrentadas para os que se deixam conduzir pela carne e, por um outro lado, as benesses que colheriam os que se submetessem ao Espírito. Todas as escolhas lexicais, as construções frasais, a seqüência com que as idéias foram apresentadas perseguem o objetivo de deixar muito clara sua intenção comunicativa: “andemos sob o impulso do Espírito”.
O critério da aceitabilidade pode ser inferido de diversas maneiras. No texto de Romanos observa-se um tom didático em toda a sua extensão. O enunciador, em alguns trechos, demonstra seu conhecimento em relação aos enunciatários: “nós, que não andamos sob o domínio da carne”; “quanto a vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito”; “visto que o
Espírito de Deus habita em vós”; “nós temos uma dívida”; “vós não recebestes um espírito que vos torne escravos”; “teremos parte na sua glória”. Nesse grupo de asseverações, o enunciador faz um jogo com o enunciatário: ora ele se inclui dentre os que seriam afetados por sua conduta de vida, ora se exclui. Se olharmos mais atentamente para a Epístola aos Romanos, que possui ao todo 16 capítulos, veremos o alto grau de intimidade que havia entre Paulo e àquela igreja. No capítulo 15, por exemplo, ele diz “...desejando há muito visitar-vos, penso em faze-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia.” Assim sendo, pode-se supor que a igreja de Roma acataria de bom grado qualquer admoestação feita por Paulo.
Sobre o texto de Gálatas repousa semelhante efeito. No primeiro capítulo dessa epístola, Paulo diz “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho.” Isso demonstra que ele conhecia muito bem aquela igreja, chegando inclusive a ter a liberdade de chamá-los de “insensatos” (3.1). No capítulo 4 ele os chama de “meus filhos” (v.19) e isso denota seu amor paternal por eles. Diante desse pano de fundo, é factível pensar que a igreja da Galácia compreenderia muito bem as observações, admoestações e críticas feitas por Paulo.
No capítulo seguinte, após discorrermos aqui sobre a Lingüística Textual, com especial destaque ao movimento de Referenciação e à produção da Textualidade, investigar-se-ão conceitos e postulações em relação ao Discurso, à Ideologia, ao Discurso Religioso, além de que serão observadas questões pontuais e relevantes sobre o Contexto Histórico que culminou na produção dos dois textos do corpus.