Suponha-se que os relatos sobre os objetos pertencentes aos conjuntos acima mostrados tenham sido relatados em postagens de Facebook, Twitter ou Instagram e que haja uma georeferenciação na postagem. Então, dada a relação simbólico-associativa criada acima a partir da sobreposição de semânticas possibilitada pela linguagem de predicados da cidade, é possível mostrar como as escritas presentes na urbe possuem características narrativas. Primeiramente, nota-se a
existência das unidades dramáticas de Aristóteles, tratadas no Capítulo 1, caracterizadas por núcleos distintos de histórias, dotados de início, meio e fim, que são coerentes sem a
dependência de fatos externos, mas que fazem conexões com o enredo total da urbe. Aristóteles também atentava para a necessidade de uma narrativa possuir verossimilhança, eventos bem concatenados e personagens convincentes. Através de tais necessidades, nota-se que a narrativa advém da vida real, dos encontros e desencontros, dos estereótipos cotidianos.
Uma vez que as narrativas urbanas estão pautadas sobre o mapa da cidade, era fundamental que as possíveis representações da cidade e as formas a priori da urbanicidade fossem definidos e analisados, já que eles devem nortear a representação dos dados da solução proposta para a visualização de tais escritas em rede a partir da tecnologia computacional. As cidades
contemporâneas são essencialmente tecnológicas e têm nessa característica a possibilidade de articular sua paisagem por meio dos meios eletrônicos. Esse espaço de sociabilidade midiática alterou definitivamente a noção de uma geografia, compreendidas pelas características físicas — uma divisão territorial, um rio, um muro ou as distâncias. “Há, neste movimento, um reordenamento dos espaços sociais, pelo estabelecimento de um tipo de relação entre os seres humanos que é cada vez mais virtual” (Furtado, 2002, p.72). As tecnologias móveis
desconsideram as barreiras físicas, alterando os modos de construção narrativa da cidade.
da captação de dados via redes sociais relativos à cidade de Brasília. O conteúdo inserido por um agente participativo poderá ser expresso tanto individualmente, como um dado isolado, quanto em construções colaborativas com outros usuários. O sistema terá como objetivo compreender as relações afetivas das pessoas para com a cidade, partindo-se do pressuposto de que a
personalidade de Brasília resulta das múltiplas inferências dos que nela circulam.
A partir da afirmação de que existem narrativas atreladas às cidades, mas que ainda não podem ser contempladas em sua totalidade ou fragmentos, o advento das tecnologias que possibilitam, a inserção de dados às localizações geográficas e os mapas digitais podem ser considerados como uma extensão das cidades físicas e como o ponto de acesso procurado para esta nova forma de leitura que sobrepõe a realidade física e virtual, concreta e subjetiva.
Exprime-se uma arquitetura para além do arquiteto, um planejamento para além do plano e uma necessidade de registro de sua história democratizada a toda uma população, como forma de dar oportunidade às diversas linguagens e sotaques coexistentes em seu espaço geográfico. O objetivo final desta dissertação é exprimir o contraponto entre o institucional e o lúdico de Brasília por meio do registro de narrativas construídas pelas redes.
Capítulo 3 — Topogramas: a tangibilidade da narrativa urbana via redes sociais.
O objetivo deste capítulo é, a partir do aparato lógico apresentado e da teoria dos três mundos de Karl Popper, estabelecer e analisar filtros de processamento e visualização das postagens
geolocalizadas que expressem as escritas coletivas das narrativas sobre Brasília. Tais filtragens sobre as informações armazenadas visam a mostrar a cidade em seus aspectos concreto — o mapa, como ele é —, subjetivo — que articula a realidade concreta com as impressões de cada indivíduo — e imaginado — fruto da consciência coletiva, da cultura, que produz um resultado semântico e não apenas quantitativo. Como resultado, foi estruturado um banco de dados
parcialmente desestruturado alimentado de APIs das redes Facebook, Instagram e Twitter, com o objetivo de torná-lo acessível e usado por outros projetos acadêmicos que versem sobre as narrativas urbanas de Brasília.
Durante o desenvolvimento deste projeto, questões sobre a substancialidade dos dados e a forma ideal de representá-los surgiram e serão discutidas. Qual é a unidade de tempo ideal para que a acumulação de relatos narrativos não fique confusa sob o ponto de vista da visualização de informação? Quais as limitações que as APIs de redes sociais impõem sobre seus dados? Qual é o diferencial deste sistema proposto, uma vez que só se alimenta de dados abertos dessas redes sociais? Dois lugares próximos podem ser considerados o mesmo espaço? O que torna um espaço semelhante a outro? Qual seria o fator de aglutinação ideal de tais dados para que eles representem da melhor forma a realidade?
Cabe ressaltar que a solução proposta ao longo do próximo capítulo representa apenas o início do projeto de pesquisa Topogramas: Registro da Memória Coletiva de Brasília, que está sendo desenvolvido e aprimorado pelo grupo Espaço, poética, jogo — UnB, cujo objetivo é discutir e desenvolver projetos no campo do design de interação, linguagem e informação. Os resultados iniciais consistiram em gráficos oriundos do processamento de dados fornecidos por redes sociais; o intuito por trás da construção desses gráficos foi o teste dos algoritmos propostos para uma primeira versão de interface. O sistema aqui apresentado aborda as problemáticas das narrativas e propõe as soluções para suas representações, mas não contempla o resultado final
aprimorado, uma vez que este ainda se encontra em desenvolvimento e trata-se de um trabalho coletivo.