TRABALHO
Foram efetuadas acima análises dos dados obtidos por meio dos casos estudados. Partindo dessas análises, é possível tirar conclusões sobre características relativas às interfaces entre Operação, Engenharia e Manutenção em sistemas de produção por processos contínuos, que devem ser consideradas no projeto de organização do trabalho em sistemas desse tipo.
Foi verificada a existência de unidades organizacionais que se diferenciam não apenas pela divisão do trabalho estabelecida, mas pela detenção de conhecimentos e habilidades diferentes e necessários ao funcionamento do sistema de produção, como neste estudo os domínios organizacionais da Operação, da Engenharia e da Manutenção.
Ao analisarem-se as possibilidades de segmentação das atividades, e quando elas se realizam complementarmente em mais de um domínio, percebeu-se que o ciclo de tempo e abrangência constituem-se em fatores divisores do trabalho da Operação, da Manutenção e da Engenharia. Entende-se por abrangência, neste caso, a diferença das abordagens que prevalecem na atuação de cada domínio: se uma abordagem mais global e sistêmica, como apareceu na Engenharia nos casos estudados, ou abordagem por equipamentos e por partes do processo de fabricação, como pareceu ser mais adotada pela Operação e pela Manutenção (nos casos estudados, as partes dos processos são identificadas com as unidades operacionais ou de processo). Notou-se ainda a prevalência de ciclos mais longos de trabalho na Engenharia em relação aos demais domínios.
É de extrema importância que esses diferentes ciclos de tempo e abordagens se interliguem através de práticas adequadas, como as reuniões diárias operacionais e os grupos formados para tratamento de eventos, que puderam ser observadas durante a pesquisa.
Práticas como essas se constituem em mecanismos de coordenação da atuação dos segmentos pertencentes a domínios diferentes. Os mecanismos de coordenação têm grande importância por não se tratar simplesmente de interfaces resultantes da
segmentação dos processos de produção, como na teoria sociotécnica moderna estudada, em que um segmento conclui uma etapa do processo e outro segmento dá continuidade a esse processo. Na grande parte dos casos, trata-se da intervenção conjunta de segmentos de domínios diferentes. No caso das situações não rotineiras, os mecanismos de coordenação entre esses domínios têm que garantir agilidade para que o prazo de resposta seja o mais adequado. Por exemplo, os casos citados de problemas que podem estar causando redução da taxa de produção ou desvio de qualidade de produto. É necessário identificar as causas, definir a solução e executar a correção no menor prazo possível.
Da análise das variáveis de pesquisa diferenciação e especialização da execução, pode-se concluir que é necessário identificar e tratar as situações em que um determinado segmento organizacional não possui todos os conhecimentos e habilidades necessários à execução de certas atividades ou que a execução por outros seja mais vantajosa, localizar quem os detém na organização e estabelecer a forma adequada para que o trabalho seja realizado com a participação dos demais domínios.
Outro ponto a ser tratado no projeto organizacional, obtido da análise da sexta variável de pesquisa - separação das funções de execução e controle e especialização do controle, é a responsabilidade pelas decisões de ações de controle. Embora tenha sido visto que na maioria das vezes a liderança da tomada de decisões caiba à Operação, essa liderança pode ser exercida pelo domínio que possua maior conhecimento técnico para abordar determinado problema do sistema de produção. Nesse caso, o parecer técnico sobre o que fazer diante do problema passa a ser o balizador das decisões para dirigir o sistema.
Ainda com relação ao domínio técnico para exercer o controle, levando em conta inclusive características já abordadas como abrangência de atuação, um domínio pode ser capaz de identificar situações anormais que outros domínios não tenham a mesma facilidade de perceber. Assim, é importante alocar as atividades de controle dos processos de produção considerando que um mesmo componente do processo seja pilotado por mais de um domínio, conforme abordagens diferentes e complementares, através de um fluxo de informações compartilhadas que possibilitem decidir sobre as ações para condução do processo.
Ressalta do exposto acima que, se o projeto organizacional sociotécnico moderno busca reduzir as fronteiras organizacionais como forma de reduzir as variações no sistema de produção e aumentar a dirigibilidade, por outro lado há fronteiras que não se pode eliminar e que não são fixas. Elas têm como características mobilidade, conforme os eventos, e interpenetração, isto é, o compartilhamento das ações por diferentes domínios organizacionais.
Por fim, a variável de pesquisa diferenciação do controle evidenciou que as considerações anteriores acerca de conhecimentos e habilidades, ciclo de tempo e abrangência da atuação dos domínios podem influenciar a atuação de cada um quando se pensa em diferentes níveis de controle: estratégico, tático e operacional.
Em síntese, os seguintes elementos relativos às interfaces devem ser considerados nos projetos de organização do trabalho:
• Identificação de conhecimentos e habilidades que caracterizem elementos e subsistemas organizacionais ou funcionais diferentes;
• Alocação de tarefas ou atividades de uma mesma etapa de processo a domínios e segmentos diferentes, conforme as competências necessárias a cada tarefa e atividade;
• Os mecanismos de coordenação devem ser instrumentos para a interligação de ciclos diferentes de tempo e de abrangências de atuação em que trabalham os domínio e seus segmentos;
• Estabelecimento de princípios para exercício da liderança na definição de ações de controle do sistema de produção, considerando o domínio técnico sobre as questões tratadas como atributo para liderar;
• Existência de situações de compartilhamento do controle, entendido como a pilotagem dos processos tanto em situações de produção normal como no tratamento dos eventos, levando em conta a gama de atividades (competências necessárias, abrangência e tempo), conhecimentos e habilidades de cada segmento, sustentadas por um fluxo de informações que leve à ação de correção mais adequada;
• Criação de mecanismos de coordenação das ações dos domínios e segmentos que venham a intervir conjuntamente nos processos do sistema de produção, nas fronteiras organizacionais móveis e interpenetrantes.
6 PROPOSIÇÃO DE CONCEITOS E MÉTODO DE PROJETO
ORGANIZACIONAL PARA PROCESSOS CONTÍNUOS
Neste capítulo, tendo por base as análises dos dados resultantes da pesquisa realizadas, são feitas proposições conceituais e metodológicas para atacar as lacunas existentes na teoria de projeto de organização do trabalho, tendo em vista sua aplicação aos sistemas de produção contínuos.