“Afinal, a prática da diferença só se efetiva na tradução se pensarmos não só na multiplicidade das línguas, mas também no que essa multiplicidade encena: a tradução recíproca na produção e transformação infinita de significados”.
(Ottoni, 1998, p. 18)
Além dos diversos aspectos interligados ao ensino-aprendizagem de LE discutidos até aqui, entendemos que a leitura e compreensão em LE caracterizam um processo de decodificação e reformulação da mensagem que prioriza a capacidade crítica de argumentação de seu leitor.
A partir dessa premissa, acreditamos que o bom leitor passa a ser aquele capaz de questionar adequadamente um texto e as intenções advindas dele, confrontando-as com suas indagações e visão de mundo, o que desqualifica a condição de apenas ter um bom domínio de pronúncia e entonação.
A necessidade da leitura crítica do texto ficou clara no desenvolvimento das tarefas de tradução aplicadas no Projeto. A ênfase na identificação da intenção comunicativa do autor nos remetia a leituras detalhadas dos textos, podendo deles extrair idéias, palavras-chave, saberes prévios de forma a adequá-los à reescrita do texto traduzido, após serem discutidos na LE e na LM (quando necessário). Procedíamos à leitura dos textos com a participação de todos, permitindo interrupções no momento que a compreensão não era alcançada, isto é, quando o texto não era mais coerente.
Bomfim (2006, p. 56), argumenta que a partir daí, começávamos a fazer tradução: “a partir do momento em que o aprendiz tem que ler um texto em inglês e comentar com o colega ou com o professor, em português, qual o assunto do texto, qual a idéia principal, se concorda ou não com o ponto de vista do autor e porque, [ele] está fazendo tradução”.
Faria (2006) corrobora as idéias de Bomfim (2006) e também aponta o papel da LM na compreensão de LE, conforme nos orienta:
Elias (2005, p. 50-58) explica que o simples ato de ler implica um processo de tradução do que está escrito, mesmo que inconsciente. A primeira fase da tradução é justamente a leitura que se transforma em uma espécie de linguagem mental; a segunda fase é a projeção da mensagem em um texto compreensível na língua-alvo em concordância com os usos dessa língua, ou seja, passa-se de um processo inconsciente para um processo consciente que é a formulação da tradução, por isso, segundo a autora, o mais importante é que os alunos exponham seus pensamentos e sejam estimulados a justificar a escolha de palavras ou de estruturas usadas em suas traduções.
Na tentativa de buscar uma melhor compreensão do texto, podemos destacar o uso de LM e da tradução para mediar tal compreensão. Kern28 (1994), citado por Faria (2006, p. 49), afirma que a tradução exerce um papel importante e multidimensional nos processos de compreensão de leitura nos seguintes aspectos:
Seus benefícios potenciais (facilitar o processamento semântico, aliviar as restrições de memória, reduzir barreiras afetivas); seu contexto de uso (uso intermitente versus uso contínuo para lidar com fatores tais como extensão da sentença e complexidade sintática e semântica); e seus usos estratégicos (consolidar o significado, reter informação textual, esclarecer funções sintáticas, verificar o tempo verbal e checar a compreensão). De acordo com Faria (2006, p. 50-51), quando traduzimos de forma inconsciente ou automática, trabalhamos apenas na estrutura semântica superficial do texto e dos enunciados, recorrendo, na maioria das vezes, ao conhecimento denotativo das palavras e expressões armazenadas em nossa mente. Contudo, a autora adverte que os elementos lingüísticos não significam por si sós,
Mas em relação uns aos outros e em relação ao contexto lingüístico-comunicacional como um todo e, também como o sentido é construído por um sujeito pela interação com os sinais que o texto oferece. A leitura não é passiva, mas requer envolvimento, esforço por parte do leitor que não deve ser visto como mero decifrador do significado disponível, mas como criador de sentidos.
Faria (2006, p. 106) confirma o papel da tradução consciente na compreensão global do texto. A autora conclui que ao criar um distanciamento reflexivo e contrastivo entre as duas línguas, a tradução consciente dificulta a ocorrência da interferência, além de melhorar nos aprendizes, ao mesmo tempo, a compreensão de textos em geral, a aprendizagem da outra língua e a habilidade de traduzir.
28KERN, R. G. The role of mental translation in second language reading. SSLA. Cambridge: Cambridge University Press, v. 16, 1994, p. 441 – 461.
Eckert-Hoff (2002, p. 37) argumenta que leitura em LE significa produzir sentidos que privilegiem a subjetividade do aluno refletindo a história de vida de cada um e a relação que cada um estabelece com sua língua.
Contudo, para que o aluno possa manifestar essa subjetividade é necessário que sua voz seja ouvida, ao invés de abafada com a posição autoritária do professor que busca ‘a verdade’ dita pelo autor e acredita ser possível compreender exatamente o que o texto/autor quer dizer, como se as palavras tivessem apenas um significado e o texto fosse compreendido por todos da mesma maneira.
Eckert-Hoff (2002, p. 41) conclui seu artigo afirmando que
Leitura em LE, então, significa produzir sentidos e isso só se dá a partir da história de vida de cada um, das vozes que vão constituindo e (trans) formando a (re) significação e a emergência da subjetividade, o que implica o não encobrimento da diferença. Para que o aluno – enquanto sujeito constituído historicamente – possa manifestar sua subjetividade é necessário que sua voz seja ouvida, ao invés de abafada.
Cabral (2000, p. 52) advoga que um dos aspectos importantes no processo de leitura é a maneira como o leitor integra as informações fornecidas pelo texto. Segundo a autora, “a boa compreensão de um texto exige que o leitor encontre na sua memória de longo-prazo os conceitos mencionados neste mesmo texto e os conecte com a informação ativa na sua memória operacional”.
A autora (2000, p. 66) continua sua argumentação declarando que os textos refletem maneiras de pensar, por meio de operações cognitivas que envolvem estabelecer semelhanças e contrastes, classificar e categorizar. Adverte que se o autor sinaliza os caminhos para a interpretação de seu texto, cabe ao professor de leitura desenvolver em seus alunos a consciência de buscar as pistas lingüísticas para os conceitos que às vezes são mais obscuros (p. 69).
Partindo da noção de que a tradução opera entre as semelhanças e diferenças entre as línguas, Ottoni (1998, p. 11-12) explica que não é possível desvincular tradução e desconstrução. Para o autor, esses processos se (con)fundem em alguns momentos para revelar o mistério da significação. Ademais, esclarece que
Johnson (1998, p. 32) afirma que “é no momento da tradução que a batalha textual se impõe. A tradução é uma ponte que estabelece por si própria os dois campos de batalha que separa”. A autora, citando Heidegger29 (1971), faz uma analogia entre tradução e a ponte, que encerra essas considerações:
Ela [a tradução] não liga simplesmente duas margens que já estão lá. As margens emergem como margens apenas no momento em que a ponte atravessa o rio. A ponte intencionalmente faz com que elas permaneçam opostas uma à outra. A ponte destaca um lado do outro. Nem as margens se esticam ao longo do rio como tiras indiferentes de fronteira de terra seca. Com as margens, a ponte traz até o rio as duas extensões da paisagem que ficam atrás de si. Tornam mutuamente vizinhos o rio, a margem e a terra.