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3. Measurements

3.1 Instruments and methods

3.1.4 Sun photometer measurements at Ny-Ålesund

A solenidade litúrgica do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, correntemente designada como Corpo de Deus, celebra-se na segunda quinta- feira a seguir ao Domingo de Pentecostes, 60 dias após a Páscoa. Os crentes acreditam que Jesus Cristo se encontra presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, ou Comunhão. De todos os sacramentos, este era e é o mais importante para a doutrina católica, como ficou de resto estabelecido em Trento

Cap. III – Da excelência do santíssimo sacramento da Eucaristia, em relação aos demais Sacramentos

É comum, por certo, à Santíssima Eucaristia, juntamente com os demais Sacramentos, ser símbolo ou significado de uma coisa sagrada, e forma ou sinal visível da graça invisível, não obstante se acha neste, a excelência e singularidade dos demais Sacramentos que começam a ter eficácia de santificar quando são administrados em alguém, a Eucaristia contém o Próprio Autor da santidade antes de ser administrado, pois ainda não tinham recebido os Apóstolos a Eucaristia da mão do Senhor, quando Ele mesmo afirmou com toda verdade que o que lhes dava era Seu Corpo e Seu Sangue.

Sempre subsistiu na Igreja de Deus esta fé que nos diz que imediatamente depois da consagração existe sob as espécies do pão e do vinho, o verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de nosso Senhor, juntamente com Sua Alma e Divindade. O Corpo certamente sob a espécie do Pão, e o Sangue sob a espécie do Vinho, e a Alma sob as duas espécies, em virtude daquela natural conexão e concomitância pelas quais estão unidas entre si as Partes de nosso Senhor Jesus Cristo, que ressuscitou dentre os mortos para não voltar jamais a morrer, e a divindade por aquela Sua admirável união hipostática com o Corpo e com a alma. Por isto é certíssimo que existe sob a espécie do Pão, em

seu todo ou em suas menores partes, e sob a espécie do Vinho, também em seu todo ou em suas menores partes.160

Não admira, portanto, que a devoção ao Santíssimo Sacramento se tenha tornado obrigatória em quase todas as paróquias. Em ambiente contrarreformista, com os sacramentos a serem postos em causa pelas igrejas reformadas, esta devoção assumiu-se como um poderoso instrumento de evangelização.

O culto ao Santíssimo possui raízes longínquas. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo teve início em 1246, em Liège. Foi oficialmente adotada pela Igreja Católica em 1264, no papado de Urbano IV161 sendo dotada, desde então, de missa e ofício próprios. Desde o seu início que esta devoção se constituiu como reação às heresias que duvidavam da presença efetiva de Cristo na Eucaristia. Não se conhece a data exata de entrada da devoção em Portugal, mas sabe-se que se verificou no século XIII, no reinado de Afonso III, sendo usualmente denominada em Portugal de Festa do Corpo de Deus, apesar de possuir outras denominações: festa do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; festa da Eucaristia; festa do Corpo de Cristo.

A procissão com o Santíssimo Sacramento, cujo rito foi instituído em 1317 pelo Papa João XXII, era (e continua a ser) fortemente recomendada pelo Código de Direito Canónico. No cânone 944, § 1 e 2 pode ler-se:

160 «Concílio Ecumênico de Trento, sessão XIII, celebrada no tempo do Sumo Pontífice Júlio III,

em 11 de outubro do ano do Senhor de 1551», em Agnus Dei online.

161“O Papa Urbano IV, de boa memoria, cuja constituiçaõ innovou, e mandou guardar o Papa

Clemente V. no Concilio Vienense, ordenou que em cada hum anno houvesse hum dia deputado, no qual com particular veneraçaõ, e solemnidade se venerasse o Santissimo Sacramento da Eucharistia, levando-se em procissão pelas ruas publicas: e assim se guardou até agora na Igreja Catholica, conservando-se este taõ pio, e religioso costume, approvado, e encomendado ultimamente pello sagrado Concilio Tridentino, com o qual se conformaraõ tambem as leys seculares, e Reaes deste Reyno; fazendo-se esta solemne procissaõ na primeira quinta feira de cada hum anno, depois da dominga da Trindade, que he o dia acima dito pello mesmo Papa Urbano: por onde, ordenamos, e mandamos que assim se cumpra, fazendo-se a dita procissaõ com toda a pompa, e solemnidade possivel, assim nesta Cidade de Lisboa, como nas Villas, e Lugares grandes de nosso Arcebispado, em que commodamente se possa fazer.” Constituições Synodaes do Arcebispado de Lisboa, 1737 : 59.

§ 1 Onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a Santi ́ssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo.

§ 2. Compete ao Bispo diocesano estabelecer normas sobre as procissões, com que se providencie à participação e dignidade delas.162

A procissão do Corpo de Deus, com a passagem do Santíssimo Sacramento pelas ruas das cidades163, ganhou um estatuto especial, constituindo uma forma de reafirmar a validade da ideologia católica que assentava, em larga medida, na inviolabilidade dos sacramentos, nomeadamente no da Eucaristia.

O apoio do poder régio a este evento determinou a adesão do poder municipal e das corporações de ofícios, ganhando a procissão grande relevo, passando a ser conhecida como a procissão das procissões. Transformou-se num evento tão religioso quanto social.

1389 foi o ano da primeira procissão do Corpo de Deus a ser celebrada em Lisboa. Relacionava-se com a consolidação da independência portuguesa, que se seguiu à crise dinástica de 1383-85. O culto a São Jorge, santo inglês, doravante também lisboeta, foi associado à festa do Corpo de Deus, assim se explicando a presença no cortejo da Serpe, o dragão associado ao mal (Castela), contra o qual São Jorge lutou. Representavam-se as famas ou glórias de São Jorge e as “estações” do Santíssimo. A encerrar o cortejo, apresentava- se o pálio, que era carregado por altos dignitários da corte e da câmara municipal. Sob o pálio, apresentava-se o bispo de Lisboa, carregando a custódia com o Santíssimo Sacramento, com o rei a seu lado.164

162Código de Direito Canónico, s.d. : 169.

163 Esta era, essencialmente, uma devoção urbana (Assis, 1993 : 56). 164 Igreja: solenidade do Corpo de Deus, em Agência Ecclesia online.

Uma das principais funções do culto do Santíssimo consistia em preparar todos os crentes para uma “boa morte”165, pregando a esperança na salvação eterna. A doentes e moribundos passou a ser prática corrente, no pós Trento, administrar o sacramento da comunhão, o viático (provisão para o caminho), antes da derradeira viagem166.

Esta importância atribuída ao viático encontra-se bem evidenciada nas obrigações dos irmãos do Santíssimo da freguesia de São José, registadas na patente167 atribuída a cada irmão que passava a fazer parte da irmandade: “obrigações declaradas em o nosso Compromisso, que todas são dirigidas ao maior Culto, e Veneração do Sempre Augusto, e SANTÍSSIMO SACRAMENTO DA EUCHARISTIA, e consistem primeira, e principalmente em acompanhar, sempre que possa, o Sagrado Viático aos Enfermos”.168 A todos devia ser dada a possibilidade de usufruir da felicidade eterna (Assis, 1993, I : 63).

A importância atribuída ao Santíssimo Sacramento era também evidente nas visitações. Os visitadores, antes de darem início às devassas faziam uma ronda pelo templo “uisitando a pia Baptismal, e o S.mo Sacram.to em presença do mesmo Parocho e mais Padres e parte da frg.a”.169

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