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2 Theoretical background

2.7 Summary

O conceito de memória, descrito por Izquierdo (154), envolve operações de aquisição, formação, conservação e evocação de informações. Nesta definição o termo “aquisição” seria o sinônimo de “aprendizagem”, gravado por ter sido aprendido. Assim, estímulos sensoriais convertidos pela ação neuronal, em código de sinais elétricos e neuroquímicos complexos são reconvertidos durante a evocação, tornando-se compreensíveis pela consciência.

A aprendizagem é definida como uma mudança comportamental, mais ou menos permanente, que acontece devido à prática (155). Segundo Eric Kandel (156), a aprendizagem e a memória são processos contínuos.

“A aprendizagem é o processo pelo qual se adquire conhecimento sobre as coisas em volta do mundo e a memória é o processo pelo qual o conhecimento adquirido deste mundo é codificado, armazenado e, posteriormente, recuperado” (156).

Desta forma, a aprendizagem é o processo que altera o comportamento subsequente, enquanto a memória é a capacidade de recordar os acontecimentos e experiências do passado (157).

No decorrer de mais de um século assumiu-se que memórias adquiridas recentemente permaneciam em um estado dinâmico por um período de tempo bem curto, depois ela era fixada ou consolidada. Pensava-se, portanto, que memórias consolidadas eram persistentes e insensíveis a interrupções (158). Nos últimos 15 anos esta visão clássica da consolidação tornou-se objeto de contestação. Evidências mostram que a recuperação ou reativação de memórias consolidadas voltam a um estado de memória instável. Por sua vez, estas memórias reativadas necessitam ser novamente reestabilizadas (reconsolidação) (159).

Durante este processo, as memórias reconsolidadas podem ser fortalecidas, enfraquecidas ou mesmo atualizadas, possibilitando modificações em memórias aparentemente estáveis, até para aquelas memórias de década (159). Assim as memórias são suscetíveis a novas alterações, desencadeando, desta maneira, uma oportunidade para que memórias aparentemente estáveis sejam atualizadas (159) (Figura 4).

Esta idéia de que as memórias retornam de um estado vulnerável depois da sua recuperação não é totalmente recente. Já na década de 1960, experimentos utilizando choques “eletroconvulsoterapia”, um tratamento amnésico, propiciava perda de memória, quando era administrada logo em seguida a recuperação (160, 161). Respostas similares eram encontradas nos anos seguintes (162, 163). Estes resultados foram interpretados como sinais para uma distinção entre traços de memórias inativas, não vulneráveis dentro do cérebro, bem como traços de memórias ativas passíveis de interrupção, independemente do tempo de codificação

(164). Identificado como amnésia dependente (162, 163) e tempo mais tarde chamado de reconsolidação (165, 166).

Figura 4. O conceito da reconsolidação da memória. Depois de um estímulo novo ser aprendido, a memória encontra-se no estado ativo até passar para a consolidação. No momento da recuperação a memória consolidada que está inativa passa para um estado ativo novamente, a partir deste ponto a memória precisa ser estabilizada de novo. O processo pelo qual memórias são reativadas novamente é conhecido por reconsolidação. Durante o processo de reconsolidação os traços de memória ativos são vulneráveis para as modificações. Fonte: Adaptado de Schwabe et al. (159).

A capacidade para que ocorram alterações das memórias emocionais estabelecidas revelam importantes implicações para o tratamento de diversas perturbações mentais, dentre elas o transtorno de ansiedade, como no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (167). Neste transtorno de ansiedade o evento que provocou o trauma pode ser considerado o resultado da superconsolidação da memória envolvida em eventos traumáticos, pela ação de hormônios do estresse,

tais como os glicocorticóides e noradrenalina, que são liberados em respostas a inúmeras situações de experiências traumáticas (168).

Estes hormônios são descritos como promotores da formação de memórias duradouras (158, 169). Desta maneira uma estratégia para tratar memórias traumáticas seria o bloqueio da ação destes hormônios, após um evento potencialmente estressante e traumático que ocorreu, interferindo no processo de consolidação. Existem evidências que esta abordagem pode ser bem sucedida (170, 171, 172). Por exemplo, pacientes que sofreram um acidente de carro e foram tratados com o antagonista do receptor β-adrenérgico propranolol pouco tempo depois do acidente, tornaram-se menos propensos para o desenvolvimento dos sintomas do TEPT nos três meses que sucederam ao acidente, em comparação aos pacientes que receberam placebo (170).

Nestes casos, a formação da memória somente poderá ser modulada no período de tempo relativamente curto após o evento traumático, durante os quais muitas pessoas não conseguem acesso ao tratamento clínico. Aqui a reconsolidação da memória é acionada. Se as memórias são suscetíveis a alterações novamente após a recuperação, isto pode gerar uma oportunidade para modificações da memória traumática. Pacientes com TEPT crônico foram solicitados a escrever um roteiro de algum evento traumático pessoal, abordando a situação traumática que provocou o TEPT (173). Os pacientes receberam logo em seguida propranolol ou placebo. Após uma semana todos os pacientes foram submetidos a um procedimento de imagens orientado para roteiros psicofisiológicos. Os resultados encontrados revelaram que as respostas psicofisiológicas durante a exposição da imagem mental de situações traumáticas eram significativamente mais baixas em pacientes tratados uma semana antes com propranolol do que os pacientes do grupo placebo.

Outros três estudos replicaram estes resultados (174). Apesar da falta de grupo controle apropriada, estes estudos, possibilitaram concluir que os efeitos observados eram em decorrência das alterações na reconsolidação da memória, não sugeriram que manipulações depois da recuperação da memória devam ser uma estratégia promissora para o tratamento da TEPT, mesmo quando o evento traumático ocorreu a décadas passadas (159).