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5   Uncertainty

5.3   Summary table of uncertainties

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As teorias pragmáticas têm como principal objetivo explicar como os falantes de qualquer língua conseguem usar as sentenças dessa língua para transmitir mensagens que não têm, necessariamente, relação com o conteúdo semântico da sentença usada.

Esta seção abordará um dos modelos inferenciais pragmáticos mais representativos do século XX, proposto pelo filósofo da linguagem, Paul Grice, em 1957, em sua obra Meaning.

O filósofo da linguagem apresenta a sua Teoria das Implicaturas, na tentativa de explicar como o significado é alcançado, sobretudo os efeitos de sentido que vão além do que é dito explicitamente. Em outras palavras, Grice propôs-se a minimizar a idéia de uma linguagem natural logicamente imperfeita, construindo uma categoria de inferências pragmáticas, as Implicaturas, que poderiam dar conta de efeitos comunicativos problemáticos para uma semântica de base lógica.

Cabe aqui definir, de forma mais detalhada, o conceito de Implicaturas, segundo Grice: trata-se de proposições que estão implicadas pelo enunciado de uma frase em um determinado contexto, ainda que essa proposição não faça parte do que é efetivamente dito. Esse conceito é um recurso teórico, que visa a oferecer um tratamento complementar à Semântica. Sendo assim, Implicaturas são inferências tipicamente pragmáticas, fundamentadas no conteúdo daquilo que é dito, em suposições e cálculos, conforme detalharemos neste estudo.

Grice modula o conceito de Implicatura da seguinte forma: um sujeito X, ao dizer p, implica q se e somente se:

O sujeito X está observando as Máximas da conversação ou, pelo menos, o Princípio Cooperativo;

Ainda que o sujeito diga p, o ouvinte Y acredita que este pense que q;

O sujeito X acredita que tanto ele como o ouvinte Y podem concluir que, para preservar o Princípio Cooperativo, faz-se necessário chegar à conclusão q.

Para que a Implicatura ocorra, Grice destaca que o ouvinte Y deve ter o conhecimento, ou ao menos acreditar, que X possui conhecimentos necessários para que ele, Y possa fazer o cálculo. Esse conhecimento pode ser sistematizado como segue:

O Princípio Cooperativo e suas Máximas e Submáximas; O contexto do que é dito (q);

Um certo conhecimento prévio;

O conhecimento compartilhado de X e Y dos itens anteriores.

Assim, na preocupação de encontrar uma forma de descrever e explicar os efeitos de sentido que ultrapassam aquilo que foi efetivamente dito, Grice (1975) apresenta a sua Teoria das Implicaturas por meio de um exemplo destacado em seu artigo “Logic and Conversation”: duas pessoas(A) e (B) estão conversando sobre uma terceira pessoa (C). (A) pergunta a (B) sobre a atuação de (C) em seu emprego. A resposta de (B) é a seguinte: “Muito bem, eu acho, ele gosta de seus colegas e ainda não foi preso”. O que Grice observa aqui é que há, no mínimo, duas formas de significação distintas. O que (B) diz sobre (C) poderá implicar ou sugerir que (C) poderia ter sido preso, pois sabia que (C) possuía maus antecedentes. A segunda significação poderá ser a seguinte: como (B) não tinha muito que dizer sobre a situação profissional de (C), ele (B) disse qualquer coisa que veio a sua cabeça, mas sabia que pelo menos a informação era verdadeira. É com base nesse contexto que Grice introduz os termos implicitar (implicate), implicatura (implicature) e implicitado (implicatum).

A partir desses termos, Grice organiza toda a sua explicação sobre o dito - a proposição em seu valor semântico, por ele chamado de convencional ou literal, e o implicado - o significado que foge da determinação por Condições-de-Verdade, sendo derivado a partir do contexto da conversação e apreendido pelos receptores por meio de um raciocínio lógico (humano) e objetivo. Ele também apresenta uma maneira de abordar os significados implícitos, encontrados nos diálogos de pessoas engajadas em uma conversação, oferecendo, com isso, uma alternativa ao modelo de código, 22 ao descrever a comunicação através do cálculo das intenções do falante, processo esse realizado pelo ouvinte, através da inferência.

Nessa primeira tentativa de dizer o que é o significado, Grice deixa claro que, para ele, deve ser possível explicar o significado de uma expressão em termos daquilo que os usuários da língua querem dizer, ou significam-nn, 23 com a expressão em uma determinada ocasião. Quanto ao que o falante diz, Grice (1975) explica, está intimamente relacionado ao significado convencional das palavras ou sentenças enunciadas, o que leva a crer que o que é

22

Enquanto o modelo de código trabalha com a transferência de conhecimento, sem explicar como se apreende informação nova, um modelo inferencial trabalha com o raciocínio (inferência).

23

dito é a parte dosignificado verificável por meio das Condições-de-Verdade da expressão. O significado convencional das sentenças, segundo ele, não é determinado apenas pelo o que é dito, mas também pelo convencionalmente implicado.

Uma das propriedades mais significativas do conceito de Implicatura é o fato de permitir a explicação de um fenômeno da linguagem natural que preocupa lingüistas e filósofos pela sua complexidade e importância: Um enunciado (E) expressa uma proposição (p) e que transmite, além disso, (Q). Em outras palavras, um enunciado é capaz de produzir mais significado do que aquilo que efetivamente disse. Exemplificando:

(21) (a) “Que dia é hoje”?

(b) “Já paguei o nosso aluguel”.

Ao responder “Já paguei o nosso aluguel”, (b) está implicando que:

(i) sabe que (a) não deseja apenas saber qual é a data que consta no calendário; (ii) (a) não precisa se preocupar porque ele não esqueceu de efetuar o pagamento do aluguel do apartamento onde moram.

Uma Teoria Semântica, sozinha, não teria condições de explicar a resposta de (b), por isso nossa proposta é de explicarmos o fenômeno das Implicaturas por meio da interface Semântica/Pragmática.

A parte do significado não-convencional divide-se em conversacionalmente implicada e não-conversacionalmente implicada. Trataremos, aqui, apenas do significado implicado conversacionalmente, ao que Grice denominou Implicaturas Conversacionais, as quais se explicam segundo a sua teoria da comunicação.

Em vez de tomar as sutilezas da linguagem como imperfeições, e, por essa razão, motivos para não estudá-la, como faziam os lógicos até a metade do século XX, os estudiosos que romperam com o logicismo resolveram enfrentar justamente esse aspecto; passaram a tentar captar as inferências não-triviais carregadas pelos enunciados reais, como se pode observar através do exemplo que segue, quando duas pessoas estão à mesa comendo uma lasanha. A pessoa que cozinhou quer saber se a convidada gostou da comida e, em vez de perguntar “Você gostou da comida?”, prefere usar a forma implícita:

A visita responde:

(23) “Não posso falar de boca cheia, mas me dá mais um pouquinho?”

Como se pode entender que a resposta de (23) é “Gostei muito da comida?” Qual é o limite do “dito”, do “quase-dito” e do “implicado?”

Então, para explicarmos a compreensão de fenômenos lingüísticos dessa natureza, adotaremos a definição de Pragmática como o estudo das relações entre linguagem e contexto." básico para um tratamento da compreensão da linguagem, onde a compreensão inclui inferências que ligam o que foi dito com o que é mutuamente suposto ou foi dito antes. Apesar de uma definição desse gênero reconhecer que a inferência desempenha papel fundamental na Pragmática, ela apresenta um desafio que se pretende abordar no presente trabalho, qual seja: demonstrar que o processo inferencial do diálogo em linguagem natural não é aleatório. Ele segue, sim, uma lógica, que obviamente não é a lógica formal. Porque, se não fosse assim, como explicar que as pessoas se comunicam com bastante êxito, apesar da aparente falta de lógica?

Conforme apresentamos, a Teoria dos Atos de Fala tentou ir além do significado literal das palavras e das estruturas, classificando os enunciados de acordo com suas funções implícitas. Mais adiante, veremos de que forma essa tentativa se sobrepõe ao conceito de Implicatura Conversacional, introduzida por Grice, em 1967. O autor percebeu que as diferenças entre os operadores lógicos , , ~, → e seus pares da linguagem natural, isto é, e, ou, não, se ... então não eram diferentes em significado, mas, sim, diferentes na maneira como eram usados. Observemos os exemplos (24) e (25):

(24) João tropeçou e caiu. (25) João é atleta e joga futebol.

Em (22), o conetivo ‘e’ significa “e então”, dando uma idéia de seqüência de fatos, ou causa e efeito. Ficaria muito estranho dizer “João caiu e tropeçou”, ao passo que em (23), o ‘e’ tem o mesmo significado do conetivo lógico. Isso quer dizer que podemos perfeitamente inverter a ordem dos predicados e dizer “João joga futebol e é atleta”.

Diferentemente dos lógicos, Grice afirma que as diferenças são decorrentes do fato de que os tipos de discurso da linguagem natural são governados por princípios irrelevantes ao

uso dos operadores correspondentes, em termos de serem verdadeiros ou falsos, como ocorre na lógica formal. Já que os operadores lógicos não davam conta da linguagem natural, Grice propõe a seguinte questão: como conseguimos entender mais do que é explicitamente dito?

Foi na tentativa de responder a essa pergunta que Grice apresentou o Princípio Cooperativo, conforme apresentaremos na próxima seção.

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2.2.1 O princípio Cooperativo e as Máximas da Conversação

Segundo Grice, ao nos comunicarmos, somos orientados, sem consciência disso, por princípios e regras da conversação. Tais regras levam-nos a dialogar da forma mais cooperativa possível. Isto é, a comunicação é regida por um princípio geral, conforme já mencionado, que Grice chama de “Princípio Cooperativo” (PC), postulando o seguinte: “Make your conversational contribution such as required, at the stage at which it occurs, by the accepted purpose or direction of the talk exchange in which you are engaged”. 24 (1975, p. 45)

Em outras palavras, assume-se que as pessoas normalmente irão fornecer a quantidade de informação adequada à interação, que serão verazes, relevantes e tão claras quanto conseguirem. Esse princípio compõe-se de Máximas e Submáximas, classificadas em quatro categorias, a saber:

1- Máxima da Qualidade: relacionada inicialmente à Supermáxima “Procure afirmar coisas verdadeiras” e, indiretamente, a duas Máximas mais específicas:

(i) Não afirme o que você acredita ser falso;

(ii) Não afirme algo para o qual você não possa oferecer evidência adequada.

2- Máxima de Quantidade: relacionada à quantidade de informação que deve ser fornecida em uma mensagem. A ela correspondem duas máximas:

(i) Faça com que sua mensagem seja tão informativa quanto necessária, conforme os propósitos da conversação;

(ii) Não dê mais informações do que o necessário.

24

Tradução nossa: “Faça a sua contribuição conversacional conforme o exigido, no estágio em que ela ocorrer, de acordo com o objetivo da conversa na qual você está participando”.

3- Máxima da Relação: ligada à Máxima “Seja relevante”. 4- Máxima de Modo: ligada à Supermáxima “Seja claro”. (i) Evite obscuridade de expressão;

(ii) Evite ambigüidade;

(iii) Seja breve (evite prolixidade desnecessária); (iv) Seja ordenado.

Cabe aqui salientar que as Máximas, diferentemente do que muitos argumentam, não têm a intenção de serem prescritivas, pelo contrário, elas são descrições daquilo que é observado na linguagem natural, conforme Leech (1983, p. 9): “The maxims form a necessary part of the description of linguistic meaning in that they explain how it is that speakers often ‘mean more than they say”. 25

Assim, dizer que as pessoas normalmente respeitam o Princípio Cooperativo não é uma utopia ou uma visão moralista do assunto. É, sim, reconhecer que certos princípios éticos introduzem valores comunicativos ao estudo da linguagem, tais como verdade, honestidade confiabilidade, veracidade. Por tradição, os lingüistas evitavam abordar tais valores, excluindo-os dos estudos lingüísticos por sua falta de objetividade.

Para Grice, as pessoas jamais dialogam sem observar um princípio cooperativo. Embora possa ser considerado questionável pelos mais céticos, Grice observa que o Princípio Cooperativo deve ser entendido em um nível mais profundo, conforme ele próprio no diálogo:

(A) Onde está Bill?

(B) Há um carro amarelo na frente da casa de Sue.

A resposta de (B), se tomada literalmente, viola as Máximas da Quantidade e da Relevância, pois parece que (B) não está cooperando com (A), por oferecer pouca informação e mudar de tópico. Podemos, entretanto, encontrar cooperação em um nível menos superficial se assumirmos que (B) é, de fato, cooperativo e então nos perguntarmos que conexão possível poderia haver entre o lugar onde Bill está e o lugar onde está o carro amarelo, e, assim, chegarmos à conclusão: se Bill tem um carro amarelo, é bem possível que ele esteja na casa de Sue. Em casos desse tipo, as inferências surgem para preservar a suposição de cooperação.

25

Tradução nossa: As Máximas constituem uma parte necessária da descrição do significado lingüístico, no sentido de que elas explicam como o significado do falante freqüentemente vai além daquilo que ele efetivamente diz.

Grice denominou esse tipo de inferência Implicatura26 e salienta que nem sempre aderimos às Máximas em um nível superficial, mas, sempre que possível as pessoas interpretam as outras de acordo com as Máximas em pelo menos algum nível.

Segundo o teórico, existem dois tipos de Implicaturas: as Conversacionais e as Convencionais.

As Implicaturas Conversacionais"são aquelas externas ao sentido literal do enunciado, sendo determinadas por certos princípios básicos do ato comunicativo. O autor dividiu-as em dois tipos: as Generalizadas"(não dependem de um contexto específico) e as Particularizadas" (altamente dependentes de contexto).

As Implicaturas Convencionais, por sua vez, são: (i) presas à força convencional do significado das palavras; (ii) reconhecidas pelo interlocutor mediante seu conhecimento lingüístico, não dependendo de um trabalho de cálculo dedutivo e (iii) diferentes das Conversacionais pelo fato de não assumirem que o falante esteja observando o Princípio Cooperativo.

Ressaltamos que o próprio Grice reconhece que a fronteira entre as Implicaturas Conversacionais Generalizadas e as Implicaturas Convencionais é bastante tênue. Diz ele: “It’s all too easy to treat a generalized conversational implicature as if it were a conventional implicature” (GRICE, 1975, p. 56).

Para explicar as Implicaturas, Grice apresentou as propriedades que as mesmas devem ter, conforme demonstramos a seguir.

2.2.2 Propriedades das Implicaturas Conversacionais

As propriedades das Implicaturas Conversacionais são: (i) calculabilidade; (ii) cancelabilidade; (iii) não-destacabilidade; (iv) indeterminabilidade; (v) não-convencionbilidade (externas ao sentido da sentença).

Além dessas, uma contribuição relevante é a de Levinson (1983), quando destaca outra propriedade importante das Implicaturas Conversacionais: o seu caráter universal. Isto é, espera-se que em qualquer língua em que se afirme (24) ou (25), as implicaturas-padrão serão (26) e (27), respectivamente:

26

O termo Implicatura deve ser contrastado com implicação lógica, acarretamento e conseqüência lógica que são geralmente usados para designar inferências derivadas apenas do conteúdo lógico ou semântico.

(24) Aquele homem tem dois filhos. (25) O tecido é branco.

(26) Aquele homem tem apenas dois filhos. (27) O tecido é todo branco.

A seguir, mostraremos a que cada propriedade se refere:

(i) Calculabilidade: por meio da calculabilidade pode-se construir um argumento, demonstrando como do sentido literal, de um lado, e do Princípio Cooperativo (PC) e Máximas, do outro, um ouvinte poderá chegar à inferência X, preservando o PC, isto é, o procedimento proposto poderá ser formalizado de modo a possibilitar “n” demonstrações. Em outras palavras, esta propriedade permite a construção de uma forma de cálculo, onde, por um processo inferencial, se torna possível a dedução da Implicatura.

Grice afirma que se uma Implicatura não for reconhecida pelo trabalho de cálculo lógico, ela não pode ser conversacional. Consideremos o exemplo abaixo:

(28) “Que estranho. Já são 8 horas e o seu João não trouxe o jornal”.

Com este enunciado, o falante está implicando que o seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas. Como são 8 horas e ele ainda não trouxe o jornal, alguma coisa diferente deve ter acontecido. Este raciocínio pode ser demonstrado por meio de um cálculo:

1) O falante diz que p.

2) Se o falante diz que p e está respeitando o Princípio Cooperativo, então implica"q. " 3) Se o falante não pretende implicar"q, então pode cancelar q.

4) O falante não cancelou q. 5) O falante pretende implicar q.

Através desse cálculo, o enunciado ficaria assim:

1) O falante diz “Que estranho. Já são 8 horas e o seu João não trouxe o jornal”.(p) 2) Se o falante diz “Que estranho. Já são 8 horas e o seu João não trouxe o jornal”. (p) e está respeitando o Princípio Cooperativo, então implica que: “Seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas e como já são 8 horas e o jornal não chegou, algo de errado deve ter acontecido”. (q)

3) Se o falante não pretende implicar que “Seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas e como já são 8 horas e o jornal não chegou, algo de errado dever ter acontecido”. (q), então ele pode cancelar “Seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas e o jornal não chegou, algo de errado deve ter acontecido”. (q)

4) O falante não cancelou “Seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas e o jornal não chegou, algo de errado deve ter acontecido”. (q)

5) O falante pretende implicar “Seu João sempre traz o jornal antes das 8 horas e o jornal não chegou, algo de errado deve ter acontecido”. (q)

Trata-se de um trabalho de cálculo lógico que Grice considera uma propriedade básica para que se considere uma Implicatura Conversacional Particularizada.

(ii) Cancelabilidade

Uma Implicatura Conversacional pode ser cancelada, em um contexto particular, pelo acréscimo de uma oração que afirma ou implica que o falante abandonou o que havia implicado anteriormente. Consideremos o seguinte exemplo:

(29) “O Ronaldinho ganha um milhão de dólares por mês, se não mais” !

O acréscimo de “se não mais” cancela a implicatura “Ronaldinho ganha apenas um milhão de dólares”, sem produzir nenhuma contradição no contexto conversacional.

(iii) Não-Destacabilidade

Esta propriedade diz respeito ao fato de as Implicaturas Conversacionais estarem estreitamente ligadas ao conteúdo semântico do que é dito, e não exclusivamente à forma como se apresentam. Em outras palavras, a Implicatura permanecerá mesmo que se diga a mesma coisa por meio de sinônimos ou paráfrases, por exemplo:

Diálogo 1:

(30) (a1) “O que significa ‘destacabilidade’?” (b1) “Verifica no Aurélio”.

Diálogo 2:

(31) (a2) “Não compreendo o que ‘destacabilidade’ quer dizer”. (b2) “Consulta o dicionário”.

Os diálogos 1 e 2 acima são sinônimos em termos de resultado geral, pois em ambos a Implicatura provável é a de que (b) não tem condições de dizer qual é o significado de “destacabilidade” e, por isso, diz para (a) que deveria consultar o dicionário, pois a resposta está lá.

(iv) Indeterminabilidade: quer dizer que as Implicaturas alteram-se dependendo do contexto. O cálculo da Implicatura poderá referir-se a um leque aberto de implícitos, que podem ser indeterminados. Um dos melhores casos para ilustrar a indeterminabilidade é o uso de metáforas e de expressões idiomáticas, como podemos observar no seguinte exemplo:

(32) (a) “O que você acha da nova namorada do teu irmão?” (b) “É uma bonequinha!”

A resposta de (b) pode ser um elogio ou uma crítica, pois tanto se pode entender que (b) a considere tão bonita e engraçadinha, parecendo-se com uma boneca, ou que, pelo fato de ser tão artificial e estática, tenha mais características de objeto (boneca) do que de um ser humano.

Como o cálculo da Implicatura pode, às vezes, referir-se a uma lista aberta de implicitados, esses podem ser indeterminados como, aliás, é comum nos casos de subentendidos.

(v) Não-Convencionabilidade: esta propriedade refere-se à diferença que Grice estabelece entre Implicaturas Convencionais e Conversacionais, ou seja, não fazem parte do significado convencional das palavras do enunciado. Encontra-se nas expressões idiomáticas uma grande riqueza de exemplos de não-convencionalidade, como a seguir:

(33) (a) “Como foi a entrevista?”

(b) “Colocaram-me numa saia justa!”

A resposta de (b) produz uma Implicatura Conversacional à medida que (a) deduz, tendo em vista a sua pergunta e o aparente abandono da Máxima da Relevância na resposta de (b); o entrevistado (b) deseja implicar que as perguntas feitas durante a entrevista foram tão difíceis e constrangedoras, que o lembraram da situação de uma mulher que, usando uma saia justa, precisar entrar ou sair de um automóvel, por exemplo.

Além das propriedades que as Implicaturas Conversacionais apresentam, Grice as subdivide em dois tipos: Implicaturas Generalizadas e Implicaturas Particularizadas.

Grice apresenta uma forma de se deduzir uma Implicatura Conversacional (1975, p. 50):

He said that p; there is no reason to suppose that he is not observing the maxims, or at least the CP; he could not be doing this unless he thought that q; he knows (and knows that I know that he knows) that I can see the supposition that he thinks that q is required; he has done nothing to stop me thinking that q; he intends me to think, or at least is willing to allow me to think that q; and so he has implicated that q. 27

As Implicaturas Conversacionais Generalizadas são aquelas que não dependem de especificações de um contexto particular. Elas se caracterizam por não quebrarem as Máximas e pressupõem a presença de um código, conforme o enunciado (34):

(34) “Patrícia foi a um casamento ontem”.

Aqui, não há quebra de Máxima, pois independente do contexto, o enunciado acima implica que o casamento não foi de seu filho, nem tampouco de sua filha, pois se assim fosse, a forma escolhida seria “Ontem foi o casamento da filha/do filho da Patrícia”.

As Implicaturas Conversacionais Particularizadas são aquelas que, para serem calculadas, exigem informações de um contexto específico. O exemplo,

(35) “Maria está bem, agora”, pressupõe um contexto particular, como, por exemplo: - Maria andava infeliz.

- Maria estava doente.

- Maria tinha brigado com o namorado. - Maria estava desempregada

27

Ele disse que p; não há razão para se supor que ele não esteja observando as máximas ou pelo menos o