No Brasil, os sites de crowdfunding são mais recentes comparados ao mercado internacional. Enquanto nos Estados Unidos e Europa o financiamento coletivo se apresenta como alternativa viável aos fundos de capital e outros instrumentos de crédito, no Brasil o ritmo de crescimento do modelo ainda é bem lento (SETTI e CRUZ, 2011). No entanto, o diretor de pesquisas da consultoria Massolution, Kevin Kartaszewicz-Greel, tem uma visão otimista para o Brasil e a América Latina: “A população da América Latina tem as maiores
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taxas de adaptação ao comércio eletrônico, o que é essencial. E há várias plataformas interessantes na região” (apud DIAS, 2013, p. 2).
Devido a entraves concernentes à legislação brasileira (ASSIS, 2014), os projetos no país têm um maior foco em ações culturais e beneficentes. De acordo com levantamento feito pelo GLOBO, em 2011, 67,77% do volume investido nas nove principais plataformas de crowdfunding no Brasil, foi para projetos artísticos, como produção de CDs, livros e filmes
(
SETTI e CRUZ, 2011).O primeiro site com essa finalidade no Brasil foi o Vakinha, em 2009 (CARPEGIANI, 2009; COCATE e JUNIOR, 2012). O site funciona como um vaquinha virtual de presentes, em que o usuário define o que deseja receber e amigos e outras pessoas podem ajudá-lo a atingir o objetivo. Mais tarde, em 2011 (MOREIRA, 2011; COCATE e JUNIOR, 2012), surgiram as plataformas ditas de crowdfunding com o modelo inspirado nos exemplos estrangeiros. Atualmente existem mais de quarenta plataformas ativas de crowdfunding no Brasil (Quadro 02).
Quadro 02 – Lista de plataformas ativas no Brasil Fonte: Elaborado pela autora (2014)
Além dos sites listados no Quadro 02 acima, observa-se que alguns sites não se encontram mais em atividade (Apêndice 03), por motivos que não são de importância para o presente estudo. Contudo, pelo grande número de empresas inativas no Brasil, percebe-se que esse é um mercado de muita volatilidade. São 42 sites no total que tiveram que encerrar suas operações. Uma explicação para esse fenômeno pode estar na falta de conhecimento da população brasileira quanto a esse assunto, agravado pela falta de propaganda e divulgação das plataformas para criação de público especializado (CATARSE e CHORUS, 2013/2014; FELITTI e CORREA, 2014). Esse problema se apresenta num círculo vicioso, pois a falta de público torna a plataforma não atrativa para os criadores de projetos, que por sua vez faz com que a plataforma apresente poucos projetos e, por conseguinte, não consegue atrair muitos apoiadores. Em contra partida, nas plataformas bem-sucedidas, observa-se esse círculo vicioso de maneira contrária: quanto mais conhecida a plataforma, maior a chance de projetos relevantes serem apresentados, maior fluxo de apoiadores, tornando a plataforma mais atrativa para artistas/pessoas conhecidos (as) lançarem suas campanhas, que leva a plataforma a ser mais conhecida e por aí em diante.
Entretanto, até o momento não existe pesquisa formal quanto ao volume arrecadado do mercado nacional como um todo, nem quanto ao número de projetos financiados até agora, dificultando o entendimento do panorama completo do cenário brasileiro. No entanto, existem algumas plataformas que fazem esse levantamento de modo individual e que podem ser usadas como base para se ter uma noção do tamanho do mercado nacional. Nesse caso, pode- se analisar os dados de uma das maiores plataformas do Brasil – o Catarse, que financiou de 2011 até outubro de 2014, mais de 1.400 projetos, levantando aproximadamente R$ 24 milhões de reais (CATARSE, 2014b). Outro dado se refere à taxa de sucesso dos projetos que é equilibrada entre os estados ficando em torno de 50% e 60% (SANTOS, 2014).
Aliado a isso, a recente pesquisa Retratos do Financiamento Coletivo no Brasil (2013/2014), realizada pela plataforma Catarse em conjunto com a empresa de pesquisas Chorus, buscou mapear o perfil das pessoas que fazem o financiamento coletivo acontecer no Brasil. Baseados em 3.336 respondentes, eles encontraram que 63% (CATARSE e CHORUS, 2013/2014) das pessoas que participam do crowdfunding (tanto apoiadores quanto criadores) estão na região Sudeste. Seguidos de 20% na região Sul, 9% na região Nordeste, 7% no Centro-Oeste e somente 1% na região Norte. É um grupo com uma leve predominância (59%) masculina, com nível superior completo (39%) e/ou pós-graduação (35%) e faixa etária entre 25 e 40 anos. 74% das pessoas que fazem o financiamento coletivo acontecer no Brasil ganham até R$ 6.000 por mês. A área de atuação dos respondentes é bem variada com maior
destaque para comunicação e jornalismo (10%), administração e negócios (10%), web e tecnologia (10%) e artes (9%). A grande maioria utiliza a internet e as redes sociais para buscar informações de qualquer aspecto. Dos 3.336 respondentes, 45% afirmou já conhecer o crowdfunding há mais de dois anos e 54% já apoiaram até cinco projetos. Portanto, temos nesta pesquisa um primeiro esforço para tentar entender um pouco melhor os participantes desse modelo.
No Brasil, encontramos plataformas especializadas em todos os modelos menos o de pequenos empréstimos, pois pela lei brasileira somente quem pode fazer empréstimos são instituições financeiras (SETTI e CRUZ, 2011). Outro modelo recente no país e ainda com bastante ressalvas quanto ao seu funcionamento é o de compra de ações de empresas (o modelo de equity based). Internacionalmente, a plataforma com volumes mais expressivos nesse setor é a britânica Crowdcube, que desde fevereiro de 2011 já conseguiu angariar o equivalente a R$ 105 milhões de reais de 76,8 mil apoiadores em 126 campanhas (MAIA, 2014). Atualmente só existem duas plataformas com esse foco no Brasil, a Eu Sócio e a Broota, com muitos pontos a serem aprimorados. A dificuldade para estabelecer novas plataformas está na falta de normas e regulamentações por parte da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que é responsável por regulamentar e fiscalizar o mercado brasileiro de valores mobiliários. A entidade diz estar acompanhando o que acontece em outros países, mas que "no momento, não há previsão para edição de uma instrução específica sobre equity crowdfunding" (SORANO, 2014). Para Antonio Berwanger, gerente de aperfeiçoamento de normas da CVM atualmente,
(...) a captação pública de valores mobiliários através de equity crowdfunding no Brasil, utilizando-se das disposições previstas pela CVM, só poderia ser realizada através de uma sociedade limitada, o que representaria entraves para as estruturas de investimento mais praticadas no mercado, bem como uma série de riscos para empreendedores e investidores (PERRONI e RAMOS, 2014, p. 02).
O modelo mais encontrado dentre as plataformas ativas no Brasil é o baseado em recompensas. À vista disso, foi o objeto de estudo escolhido para o presente trabalho. Nesta modalidade, todo colaborador tem direito a uma recompensa, que varia de acordo com o nível e a forma da sua contribuição para o projeto. Essas recompensas podem ser produtos, serviços ou formas simbólicas e criativas de agradecer (e estimular) o engajamento dos colaboradores, tornando o processo mais envolvente e positivo para todos.