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O objetivo deste estudo de caso é compreender a trajetória do Projeto Crônicas Animadas e suas implicações para o desenvolvimento da cultura digital dos alunos que dele participaram. Entendemos a trajetória do Projeto quando estudamos sua proposta, objetivos e processo de produção. Neste tópico, buscamos compreender as contribuições do Projeto para o desenvolvimento da cultura digital dos alunos.

Iniciamos por trazer as palavras dos alunos com relação ao Projeto, pois é importante sabermos como foi essa experiência para eles. Ao longo do texto, acrescentamos nossa interpretação.

Perguntamos aos alunos por qual objetivo eles participaram do Crônicas Animadas, as respostas foram basicamente voltadas à vontade de adquirir novos conhecimentos, sobretudo aqueles ligados ao computador e ao programa de animação.

Na roda de conversa, os alunos falaram sobre o interesse deles em participarem do Projeto:

Eu vim porque seria interessante você pegar uma coisa que você escreveu e transformar em outro trabalho, que é a animação. Uma coisa que você desenhou se transformar em outra coisa. O legal é que não é só escrever, é criar, desenhar, fazer um trabalho ficar perfeito (Aluno, roda de conversa, 2012).

Crônica é uma história, é fazer baseado no que a gente já viveu. A crônica é escrita, então, como fazer uma crônica animada? Eu acho que bateu, em todos, essa dificuldade: uma crônica é você escrever, mas como eu faço uma crônica animada? Eu quero descobrir. Eu acho que foi esse o meu maior interesse (Aluno, roda de conversa, 2012).

Quando indagamos o que é mais interessante no Projeto, a maioria dos alunos declarou que é o trabalho de edição e animação dos desenhos, com o uso das ferramentas de animação no computador. Os alunos responderam: “é um curso curioso, interessante, e que você pode usar no dia a dia”; “o fato de trabalharmos com nossa crônica e usar o computador”; “saber como funciona tudo, principalmente os movimentos do desenho”.

Na roda de conversa, a respeito do objetivo do Projeto, o aluno respondeu: “O objetivo do Crônicas Animadas é fazer crônicas animadas, o próprio nome já diz!”. Todos concordaram.

Aqui apareceu, para nós, a oportunidade de refletirmos sobre a contribuição do Projeto para a educação digital dos alunos: se o objetivo do Crônicas Animadas é fazer crônicas animadas, o que são crônicas animadas do ponto de vista textual? A crônica é um gênero textual escrito, o desenho animado é outro gênero textual. A crônica animada é um novo gênero textual?

Esta problemática atinge, a nosso ver, a gênese do Projeto e, também, da educação na cultura digital. O professor orientador do trabalho de conclusão da graduação em Arte aceitou o desafio de levar aos alunos da rede pública municipal uma proposta de trabalho que se originou da experiência do orientando, em uma linguagem que é basicamente orientada pelas novas mídias decorrentes do avanço tecnológico, e que ainda se encontrava distante dos conteúdos curriculares. Uma vez que seu orientando trabalhava com charges animadas, e que o objetivo do Projeto era utilizar conhecimentos sobre arte e tecnologia, e fortalecer, nos alunos, o gosto pela literatura, a partir da produção de crônicas, a proposta, então, seria produzir crônicas animadas.

Como bem disse o aluno, na roda de conversa, a crônica é um texto escrito. Verificamos que este gênero modificou-se ao longo de sua história. No

início, representava um texto que relatava os acontecimentos em ordem temporal, cronologicamente. Depois, tornou-se um gênero literário ligado ao jornalismo, com as características de narrar fatos do cotidiano de forma breve e usando linguagem simples, que pode misturar realidade e ficção.

Acreditamos que, desde que mantidas as características desse gênero literário, podemos considerar que a animação que os alunos desenvolveram é uma crônica animada.

Mas, podemos também dizer que a crônica é um gênero textual, e o roteiro, o storyboard, a animação, são outros gêneros textuais. Afinal, o que define o gênero textual é a forma estável que cada um deles apresenta, e também a sua função social e comunicativa. Se a crônica é um gênero, e a animação é outro gênero, então crônica animada não existe.

Já havíamos realizado nossas pesquisas sobre o gênero textual crônica, mas o impasse continuou, crônica animada existe ou não existe? A entrevista e referências indicadas pelo Prof. Travaglia nos ajudaram a compreender que não há como responder, agora, a essa questão. É somente com o tempo, com a aceitação e o uso pela sociedade, que um gênero se estabelece. Podemos, também, nos apoiar em Marcuschi (2002), retomando o entendimento de que os novos gêneros textuais, desenvolvidos pelo uso das tecnologias digitais, são formas inovadoras, mas não absolutamente novas; e que gêneros textuais são fenômenos históricos que se integram funcionalmente aos meios sociais e culturais nos quais se desenvolvem. As charges animadas, por exemplo, consideradas um novo gênero, são definidas como charges realizadas com o auxílio de recursos audiovisuais. De acordo com Sanchotene (2011, p. 34) as revoluções digitais do final do século XX marcam o surgimento das “charges eletrônicas, com a junção de elementos audiovisuais como som e animações gráficas para “encorpar” ainda mais a charge tradicional”. Fazendo uma analogia, podemos dizer que a crônica animada juntou elementos audiovisuais para “incrementar” a crônica tradicional. Só que ainda não há a difusão, em nosso meio cultural, de crônicas animadas, para que possamos afirmar que se trata de um novo gênero textual.

Nas oficinas do Projeto que foram acompanhadas por nós, este questionamento não existiu. Os professores, organizadores e alunos que participaram da edição do Projeto, aceitaram a existência de crônicas

animadas, “como o próprio nome já diz!”. Nessa edição, o idealizador do Projeto já não mais fazia parte dos trabalhos, mas verificamos que a ideia estava consolidada, e talvez, por isto, não tenha havido essa discussão. Podemos considerar, também, que os envolvidos conhecem os trabalhos com charges animadas54, e acharam factível a existência de crônicas animadas.

Talvez, em outra edição do Projeto, seja interessante propor essas discussões com os alunos: a diferença entre crônica e crônica animada; charge animada e crônica animada; resgatando a história da crônica, bem como essas questões voltadas à funcionalidade, criação e aceitação dos diferentes gêneros textuais. O debate, ligado às novas mídias e transformações que estas ocasionam na sociedade, também contribuiria para o letramento básico e o letramento tecnológico, ou seja, para a educação digital dos alunos.

A contribuição do Projeto para o letramento básico dos alunos começou com o trabalho com as crônicas, na sala de aula. Na roda de conversa, a respeito do trabalho de produção das crônicas, os alunos disseram:

- Eu tinha aprendido na quarta-série, mas não sabia direito o que era, e a professora explicou.

- A professora trabalhou isso na sala de aula.

- Ela explicou como fazia e falou pra gente fazer a nossa crônica. - É sim, mas a professora deu metade de uma crônica e falou pra gente terminar com a nossa imaginação.

(Alunos, roda de conversa, 2012).

Perguntamos, “afinal, o que é uma crônica?”, e então os alunos desenvolveram a seguinte conversa:

- Crônica é uma animação divertida.

- Não, crônica é uma história que conta a vida, uma narrativa. - Narrativa é contar uma história, e o narrador é o personagem. - É, mas tem que contar uma história que aconteceu com você. (Alunos, roda de conversa, 2012).

Percebemos que, ao dizer que crônica é uma animação divertida, o aluno já estava “impregnado” do trabalho de animação da crônica que estava realizando. Ao usar a palavra “divertida” mostrou, pela expressão facial, o contentamento com o que estava acontecendo.

54 Os alunos ficaram surpresos quando fomos apresentados a eles pelos organizadores do Projeto, que disseram do nosso parentesco com o chargista. Exclamavam: “Nossa, você é irmã dele!”, “Mentira! Mesmo? Eu sou fanzaço dele!”, “É mesmo? Como é seu nome?”, “Me apresenta ele!”.

Abrimos um parêntese para relatarmos que, durante todas as oficinas e as rodas de conversa, havia um grande entusiasmo por parte dos alunos. O principal, que observamos, é que estavam todos imbuídos das atribuições das oficinas, havia pouca dispersão, e somente por parte de um ou outro aluno que, em determinados momentos, conversava assuntos que não tinham a ver com o projeto ou entrava na internet. Dizemos isto porque o Projeto tem o objetivo de estimular a leitura e produção de crônicas, e o O-3 havia nos dito: “fortalecer o

gosto pela leitura, e não o hábito”. A este respeito, interessou-nos a alegria dos

alunos durante todas as etapas do trabalho, havia muito riso e animação, sem que com isto os objetivos educacionais deixassem de ser prioridade. As palavras de Rubem Alves (2010, p. 114), mais uma vez nos inspiram: “O prazer e a alegria são as grandes forças que nos levam a aprender [...] a educação se constitui de duas partes: a aprendizagem das utilidades e a aprendizagem das fruições”.

Verificamos que as crônicas produzidas pelos alunos são do tipo narrativo da espécie história, e o tom humorístico foi predominante na escrita. Pode ser que na seleção, sabendo que iriam se transformar em animações, optou-se por escolher esse tipo de crônica, pois seria mais difícil produzir animações com crônicas dissertativas. Por outro lado, Laginestra e Pereira (2010), no texto que escreveram para apoio ao trabalho de professores, escrevem sobre o foco narrativo. Acreditamos que é porque este tipo textual é mais acessível para os alunos do ensino fundamental.

As narrativas que os alunos escreveram têm foco tanto no autor- personagem, quanto no autor-observador. Nas histórias existem a introdução, orientação e a trama, contendo a complicação (elemento surpresa), a resolução e o resultado ou desfecho. Algumas crônicas descrevem os personagens e cenários, outras não, e essa parte foi elaborada, ou reelaborada, na oficina de roteirização.

Na roteirização os alunos iniciaram os trabalhos em dupla. Aqueles que foram selecionados pelo desenho formaram dupla com alunos que escreveram as crônicas. A escolha das duplas foi feita na primeira reunião, e não havia critério pré-estabelecido, alguns alunos não conheciam o colega com quem iriam trabalhar. Conforme dissemos, os alunos que escreveram as crônicas estudam no 8º ano, e os alunos que desenharam, nessa edição, estão no 7º ao

9º ano. Houve um primeiro momento, de adaptação, com diálogos entre as duplas para que se buscasse o entendimento. Na roda de conversa, os alunos falaram a esse respeito:

- Fui eu que escrevi a crônica, mas no roteiro foi todo mundo junto. Eu aceitei as ideias dele e a gente trabalhou junto, ele é da minha sala, e eu tenho que aguentar ele todo dia, aí fiquei com raiva, aí eu emburro, mas eu aceito. Ele queria mudar o final da história, porque não tinha fala, mas ele foi falando e teve umas partes que, no fim, eu achei legal, mas acabou ficando a dele, fiz um acordo com ele. - Eu achei difícil, porque eu tava com o A-14, e tudo tem que ser do jeito dele. Podia escolher a dupla, e ele me escolheu. Eu prefiro sozinha, porque tem coisas que eu prefiro fazer sozinha, mas em dupla é mais fácil porque um ajuda o outro. A gente pode discordar em algumas coisas, mas no final fica melhor. Por mais que eu não “queria” ele estava certo.

- Se tivesse mais tempo ficava melhor, trabalhar em dupla faz ficar mais demorado, porque um depende da ajuda do outro.

- Eu gostei, porque ele me ajudava.

- É, metade fala que é mais rápido e a outra metade fala que é mais demorado.

(Alunos, roda de conversa, 2012).

Os alunos não conheciam o trabalho de roteirização e de storyboard. A O-1 explicou cada uma das etapas e acompanhou de perto o trabalho que eles realizaram. A escrita dos roteiros foi feita pelos alunos, em duplas. Demandaram bastante a atenção da O-1, que se sentou com cada uma das duplas. A digitação dos roteiros foi feita pela O-1 enquanto os alunos começavam a desenhar os cenários. Os desenhos dos cenários e das figuras dos personagens foram feitos na sequência da oficina de roteirização.

Na oficina de storyboard já havia a presença dos outros dois oficineiros. Os alunos estavam concluindo seus desenhos. Observamos que, no trabalho feito em dupla, o aluno que escreveu a crônica orientava o aluno que desenhava, descrevendo como seria cada cena, cenário ou personagem. Os alunos que desenham nos disseram que, ao manifestar interesse em participar do Projeto, tiveram que participar de uma seleção. O aluno disse: “era para desenhar o homem e a natureza. Eu entreguei o desenho e ela escolheu”. Foram nas oficinas de storyboard e desenho que houve mais debate entre os alunos. Anotamos algumas frases dos alunos, para ilustrar esse momento:

- Ele tá querendo fazer do jeito dele, e a crônica quem escreveu fui eu, então no desenho ele pode fazer do jeito dele, mas a história é minha, não pode fazer diferente.

- A minha história não tinha nada a ver. Na hora de fazermos o roteiro, a gente mudou o final da história.

- É difícil, porque a gente fala uma coisa pra pessoa que está desenhando, mas fica diferente depois.

- Ele não quer deixar eu fazer nada, só quando chega na parte fácil é que ele deixa eu fazer.

(Alunos, roda de conversa, 2012).

Toda essa “discussão” se explica porque no processo criativo, conforme vimos anteriormente, as ideias vão sendo trabalhadas, transformadas e aprimoradas. Nesse momento os alunos estavam desenvolvendo habilidades colaborativas, compartilhando e confrontando suas ideias, e é nesse confronto de pensamentos divergentes que se dá o diálogo. Cada um imaginava cenas e personagens à sua maneira, e o resultado, no papel, teria que satisfazer a ambas as partes. Quando a aluna disse que o colega só queria deixar que ela fizesse “a parte fácil”, é porque ele desenhava e queria que ela colorisse, e ela queria desenhar também. Só que ela pegava o lápis da mão do colega para modificar os desenhos que ele estava fazendo. Eram aspectos que ela queria que fossem do jeito dela, no cenário ou nos personagens. Era mais detalhista com relação à estética dos personagens. Nesses momentos, os orientadores interviram muito pouco, e deixaram os alunos buscarem o consenso. As intervenções eram mais relacionadas ao comportamento dos alunos. Eles não interferiram nos desenhos que estavam sendo produzidos. Segundo o O-5, o desenho tem que ficar “com a cara deles”.

Essa não intervenção, que observamos nas oficinas de desenho e animação, é intencional, conforme as palavras do O-4:

Deixamos os alunos livres para criarem sua animação da maneira que quiserem, e, assim, reforçar a autonomia e a responsabilidade que isso acarreta. Faço este destaque porque procuramos manter um padrão mínimo de qualidade usando este recurso: não “poríamos a mão na animação”, assim como não o fizemos, exceto por ajustes mínimos e necessários de pós-produção. Então, o que ele iria mostrar a todos os seus colegas, na exibição final, era o que ele tinha sido capaz de fazer (O-4).

O mesmo foi dito pelo O-2, a respeito da responsabilidade e autoria dos alunos como sendo características principais do projeto. É o aluno “colocar a mão na massa e depois dizer que foi ele que fez” (O-2).

Percebemos que os alunos eram exigentes com relação ao que estava sendo produzido. Por exemplo:

O AA-1 nos disse que o tempo era pouco e que os desenhos poderiam ter ficado melhores. Quando o desenho não estava saindo do jeito que eles

queriam, o trabalho era refeito, mas não dava para refazer tudo por causa do tempo. “Eu não pensei muito no que os outros iam pensar depois, eu caprichei bastante porque queria fazer uma coisa legal”.

A aluna, na oficina de interpretação de voz disse: “Eu tenho que mudar de voz e interpretar pra ficar legal. É muito fina, a minha voz”. Durante os ensaios, essa aluna, que só tinha duas falas, ficava repetindo as frases para os colegas, em tom dramático e dando ênfase aos gestos.

Na oficina de animação, o tempo exerceu pressão sobre os alunos. Havia etapas a serem cumpridas, e não era possível se alongar demais em uma determinada atividade. Todos os alunos entrevistados consideraram que o tempo poderia ser maior. Mas, como o Projeto tem um tempo pré-estabelecido e, segundo os organizadores, esse tempo é suficiente e foi dimensionado cuidadosamente, foi importante que os alunos aprendessem a administrá-lo.

No nosso entendimento, o trabalho de animação se torna complexo não somente por causa dos comandos do programa e da execução dos desenhos, mas pela atenção que exige dos alunos. É um trabalho muito meticuloso. Há uma sequencia lógica, e o trabalho com símbolos em diversas camadas, a sincronização de áudio e movimentos, a independência de cada símbolo na linha de tempo, tudo isto requer paciência e muita atenção. Os organizadores ensinam os alunos a irem salvando frequentemente as animações. Assim, quando há uma perda ou erro, fica mais fácil recuperar o trabalho sem ter que refazer a maior parte dele. Um dos alunos chegou a dizer: “É trabalhoso, muitas coisinhas pequenas, e todo dia tem coisas diferentes, e a gente nem absorveu o que aprendeu ontem e já tem mais coisas pra fazer”.

O importante é que, no final, dá tudo certo: “quando faltavam três dias, faltava um monte de coisinha, e a gente não tinha terminado, e aí a gente teve que correr”, disse a AA-3. E conseguiram terminar? Perguntei. E ela respondeu que sim.

Na edição que acompanhamos, alguns alunos terminaram antes do tempo, e alguns deles ajudaram os colegas a terminarem suas produções. Na edição em que o AA-2 participou, a professora da sala de informática pediu que os alunos que já haviam terminado ajudassem os colegas a corrigirem o que estava dando errado: “A gente não mexeu no desenho, nem nada. A gente só

fez... quando um braço, por exemplo, estava voando, a gente ajudava a deixar o braço quietinho no canto dele”.

Para a AA-3, a dificuldade era maior porque era algo totalmente novo, eles não sabiam como era feito o processo de animação. O fato de estarem juntos, voltados para atingirem os objetivos, é que ajudou a não desistirem:

Cada um ajudou o outro, pra não estressar. Teve gente que queria desistir. Até mesmo eu, a princípio, quis desistir, pela dificuldade, mas só que a gente conversou, foi vendo, aí decidiu: “vamos tentar...”, e aí todo mundo que começou, terminou (AA-3).

O diálogo com os alunos, na roda de conversa, a respeito das dificuldades encontradas, foi significativo para mostrar-nos o desenvolvimento e o orgulho pelas conquistas que eles realizaram:

- A maior dificuldade é aprender os movimentos.

- É, tinha hora que a gente pensava que estava em um lugar, e já estava em outro. Depois peguei a manha.

- Igual mexer o braço, que você tem que editar o centro, mas depois aprende.

- A boca e o olho, o movimento, é difícil. Se você não souber, perde tudo o que já fez.

- É, e tem que traçar o bitmap, e tudo. Tem que traçar a linha do desenho pra tirar e colocar a cor.

- É, traçar o bitmap pra tirar o branco do desenho e depois poder colorir.

- Pra poder tirar o amarelado do papel escaneado, pra colorir e a cor ficar melhor.

- E tem que ser tudo na área de trabalho.

- A gente tá falando igual nerd: e isso aí é escaneado, e tal, tira o branco e colore, traça os bitmaps.

(Alunos, roda de conversa, 2012).

O termo nerd é usado para definir pessoas interessadas em atividades intelectuais e culturais, que gostam de tecnologia e passam muito tempo usando o computador. O AA-2 se define assim: “Eu sou nerd, mas eu passo muito tempo no computador porque minha faculdade é sobre computação, e eu amo trabalhar na área de computação”.

O fato é que esses alunos persistiram, e chegaram até o final do Projeto concluindo seus objetivos. Conforme a O-1 nos informou, há casos em que o aluno não consegue realizar determinada atividade, então os outros o ajudam. Mesmo que o aluno tenha dificuldade em realizar, ele entende o processo e aprende a fazer. Por mais dificuldades que apresente, ele fica até o final. Só houve uma dupla, ao longo da história do Projeto, que desistiu, pois eles vão até onde conseguem. “A gente tenta fazer tudo para o aluno não desistir,

acompanha, pede àqueles que conseguem para ajudar os que têm mais dificuldade. Neste caso os alunos saíram, mas nunca os alunos tinham saído”. É importante observar que, apesar das dificuldades, todos os alunos responderam que a parte que mais gostaram, no Projeto, são aquelas relacionadas à oficina de animação. Isto foi unanimidade entre os alunos. O modo como o AA-2 relatou a experiência demonstra o seu entusiasmo:

Você ver uma imagem mexer, fazer toda a animação. Você vê uma coisa assim, você acha lindo, né? Porque você faz um desenho num papel, você escaneia, manipula o desenho no computador e depois ele sai mexendo... Eu fazia umas animações sem usar o escâner e tal. Fazia aqueles bonecos de palitinho. Você via, era um boneco de palitinho, e, de repente, o bonequinho começa a dançar um break lá, e sai andando, e pula num mortal, e a gente diz assim: “Nossa, que lindo!”, é muito show... (AA-2).

Ficamos impressionados com a forma como esse aluno se manifestou, porque já se passaram muitos anos desde que ele participou do Projeto, cerca de cinco anos. Os outros alunos “antigos” também disseram que a oficina de