No Capítulo 4, serão apresentados projetos que fazem parte de um conjunto de iniciativas de educadores que procuram seguir as linhas pedagógicas indicadas por Chiara Lubich, isto é, seguem a proposta da Pedagogia da Unidade. Estes projetos estão localizados em várias regiões do Brasil, razão pela qual focalizaremos neste tópico, mesmo se em linhas gerais, a Educação Brasileira.
Para a abordagem do pensamento pedagógico brasileiro, nos reportamos principalmente às obras: “História da Educação”, de Maria Lucia de Arruda Aranha (1996), “História das ideias pedagógicas”, de Moacir Gadotti (2004, 2005) e “A história das ideias de Paulo Freire e a atual crise de paradigmas”, de Afonso C. Scocuglia (2001).
Enfatizamos que não se trata de um estudo minucioso da História da Educação no Brasil, trata-se apenas de um breve mergulho na mesma. Porém, não podemos deixar de mencionar, dentre os muitos educadores que construíram e constroem a educação brasileira: Rui Barbosa (2004) - que pregava a liberdade de ensino, a instrução obrigatória; Maria Lacerda de Moura (2004) - que combatia o analfabetismo, defendia a educação dos sentidos e o estudo do crescimento físico; Florestan Fernandes (2004) - defensor da escola pública, seu pensamento sociológico criou um novo estilo de pensar sobre a realidade social; Darcy Ribeiro (2004) - analisou o ensino público, extinção do 3º turno, aperfeiçoamento do magistério, implantação de escolas integradas, onde a criança permaneceria mais tempo na escola, educadores competentes e orientação que a maioria não encontra em casa. Entre estes evidenciamos o notável educador Paulo Freire, ícone da educação brasileira - foi o maior contribuinte da alfabetização de jovens e adultos, que desenvolveu uma teoria pedagógica que envolvia a pesquisa participante e os métodos de ensinar, com o qual a Pedagogia da Unidade encontra muitos pontos de convergência.
As negociações de Dom João III, junto à ordem missionária católica da Companhia de Jesus, podem ser consideradas um marco histórico para a educação no Brasil. Considera-se que, como um processo sistematizado de transmissão de conhecimentos, teve seu início com a chegada dos jesuítas em terras brasileiras no ano de 1549.
Em 1759 com a expulsão dos jesuítas, por ocasião das (reformas pombalinas), passou a ser constituído o ensino leigo e público, onde os conteúdos buscavam seus fundamentos nas Cartas Régias. A Educação brasileira passou por diversas reformas até que se chegasse à pedagogia dos dias de hoje. Porém, somente a partir de 1930, com o início da Era Vargas, que surgiram as reformas educacionais mais modernas.
No início do século XX, a educação brasileira demonstrou grande interesse pelos movimentos anárquicos, seus representantes acreditavam que se não acontecessem mudanças substanciais na mentalidade das pessoas, a tão desejada revolução social jamais alcançaria seus objetivos.
A primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB)10 foi promulgada em 1946 (Lei nº 4.024/61), a qual incitou o desencadeamento de vários debates acerca do tema. A LDB vigente no Brasil é a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a qual visa transformar a escola em um espaço de participação social, valorizando a democracia, o respeito, a pluralidade cultural e a formação do cidadão.
Pode-se dizer que o pensamento pedagógico brasileiro é muito rico e tem sido definido por duas tendências gerais: (1) a liberal, na qual educadores defendem a liberdade de ensino, de pensamento e de pesquisa, os métodos novos baseados na natureza da criança) e (2) a progressista, em educadores e teóricos defendem o desempenho da escola na formação de um cidadão crítico e protagonista da própria história e da mudança social.
A educação no Brasil apresentou avanços significativos nas últimas décadas do século XX: houve uma acentuada queda na taxa de analfabetismo e, ao mesmo tempo, houve um aumento regular da escolaridade média e da frequência escolar (taxa de escolarização). No entanto, a situação da educação no Brasil ainda não é satisfatória,
10LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação define e regulariza o sistema de educação brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição. Foi citada pela primeira vez na Constituição de 1934.
principalmente em algumas das cinco grandes regiões do país. Os quadros que seguem demonstram a situação referida acima.
Quadro 4 – Taxa de Analfabetismo na faixa de 15 anos ou mais – Brasil 1960/2000
Ano Total (1) Analfabeta (1) Analfabetismo Taxa de
(%) 1960 40.233 15.964 39,7 1970 53.633 18.100 33,7 1980 74.600 19.356 25,9 1991 94.891 18.682 19,7 2000 119.533 16.295 13,6
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000. (1) Em milhares
Quadro 5 – Taxa Analfabetismo e escolaridade média por faixa etária – Brasil 1970/2001
Ano / Faixa Etária Analfabetismo (%) Taxa de Escolaridade Média (Séries Concluídas)
1970 15-19 anos 24,0 4,0 45-59 anos 43,0 --- 2001 15-19 anos 3,0 6,0 45-59 anos 17,6 5,6
Fonte: IBGE, Pnads de 1996, 1998 e 2001.
Quadro 6 – Taxa de Analfabetismo da população de 15 anos ou mais – Brasil 1996/2001
Unidade Geográfica Ano
1996 1998 2001 Brasil 14,7 13,8 12,4 Norte 12,4 12,6 11,2 Nordeste 28,7 27,5 24,3 Sudeste 8,7 8,1 7,5 Sul 8,9 8,1 7,1 Centro-Oeste 11,6 11,1 10,2
Até este ponto fizemos uma leitura da educação, sua história, sua trajetória ao longo dos séculos e desdobramentos de significado e aplicações, nos deparando com períodos escuros e períodos de grandes iluminações.
Constata-se que através de diferentes abordagens e contextos, as várias correntes pedagógicas tentaram encontrar um modelo que respondesse eficazmente aos apelos de seu tempo. Porém, para o nosso século o que é necessário? É indispensável uma resposta coerente, perante a multiculturalidade, perante o contexto das novas tecnologias que faz nascer uma sociedade de conhecimento e, sobretudo, de aprendizagem. Paralelamente, os princípios norteadores da UNESCO para a Educação do Século XXI, apelam e reforçam este contexto: “Aprender a conhecer, unindo teoria e prática. Aprender a fazer aprender a conviver, aprender a ser” (Delors, 2003, p.90). A maior preocupação, portanto, é formar seres humanos capazes e seguros, com valores solidamente construídos, voltados para a sociedade e seus desafios.
Diante do exposto pode-se deduzir que, educar para o século XXI é formar homens e mulheres capazes de crítica e autocrítica, pessoas que se posicionam frente à realidade, que a saibam interpretar e reconstruir, pessoas capazes de pensamento criativo e transformador. Isto é, construtores da própria história e, por conseguinte, construtores de um mundo mais humano e fraterno.
É justamente nesta perspectiva que o pensamento de Chiara Lubich e sua proposta pedagógica estão inseridos, tendo a possibilidade de tornar-se uma nova via para a educação, pois, encerra em si princípios e valores capazes de responder às exigências educacionais do nosso tempo.
Procuramos neste capítulo, abordar os conceitos de educação, sua evolução histórica e trajetória ao longo dos séculos. Refletindo sobre o estudo apresentado, constatamos que de maneiras diversas e com linguagens diferentes, adequadas ao tempo e ao contexto sócio cultural da época, as várias correntes pedagógicas tentaram encontrar um modelo
que respondesse eficazmente aos apelos de seu tempo. Justifica-se assim olhar os paradigmas da educação enquanto processos em permanente transição e redefinição, a que fizemos referência.
Esta reflexão nos remete a uma inquietação: “que tipo de educação responderia aos apelos e anseios da humanidade no século XXI”? É indispensável uma resposta coerente, tendo em vista que vivemos em uma sociedade multicultural e globalizada. Julgamos indispensável que a educação estimule a fraternidade, a cooperação recíproca, e que, partindo de uma perspectiva intercultural atenda e respeite as diversidades culturais e ao longo do processo, seja permeada pelo diálogo. É necessário também que a educação desenvolva o senso crítico, criativo do educando, que saiba unir a teoria e a prática, que desenvolva a consciência da verdadeira autonomia e dê uma formação integral ao educando.
A escola, que receber a responsabilidade de promover este tipo de educação, defronta-se com a urgente necessidade de reorganização pedagógica e estrutural. Segundo nosso ponto de vista, uma das primeiras ações a serem praticadas, será a integração curricular como um processo que considera a cultura vigente e sua transformação, como condição fundamental para que se promova uma educação global. Consequentemente, as metodologias dos processos educacionais deverão ser conjugadas com o princípio da cooperação, deverão ser ativas e utilizar linguagens variadas no sentido de desenvolver em seus projetos as múltiplas capacidades de conhecimento e de expressão.
Portanto, a educação do século XXI, deve se apresentar como ação educativa dinâmica, visando desenvolver entre os participantes a consciência da realidade humana e social, mediante uma perspectiva de inclusão e, ao mesmo tempo, globalizadora.
CAPÍTULO 2 – Advento de uma nova proposta pedagógica: o legado de Chiara