Perante os avanços que o campo do estudo das necessidades psicológicas tem tido, é interessante reflectir sobre a forma como diferentes necessidades psicológicas interagem entre si, nomeadamente sobre os conflitos que poderão surgir entre diferentes necessidades, ou sobre possíveis hierarquias de necessidades.
Tal como anteriormente mencionado, Maslow (1943) postulou uma teoria hierárquica de necessidades, com uma estrutura em pirâmide. Esta é uma das primeiras teorias que refere inter-relações entre necessidades, uma vez que para que as necessidades do topo estejam satisfeitas é necessário que as de base estejam preenchidas.
Conforme já foi dito, Sheldon e colaboradores (2001), por seu lado, realizaram um estudo que tinha por objectivo compreender quais as necessidades psicológicas transversais ao funcionamento psicológico saudável e encontraram evidências de que as necessidades de autonomia, competência e proximidade eram consistentemente encontradas entre as quatro necessidades psicológicas mais fulcrais ao funcionamento saudável. A Auto-Estima vinha também no topo. Por seu lado, a Auto-Actualização, Prosperidade Física, Popularidade/Influência e Dinheiro/Luxo revelavam-se as necessidades menos importantes para o bem-estar de um indivíduo. De acordo com os autores, os resultados deste estudo sugerem que a Autonomia e a Proximidade seriam as necessidades a ocupar uma hierarquia de dois níveis, enquanto a Segurança ocupa o nível mais baixo, e a Auto-Estima e Competência existem em ambos os níveis, influenciando-os. Sheldon e colaboradores (2001) sugerem que esta hierarquia explicaria a razão pela qual a Autonomia e a Proximidade são relativamente menos importantes perante eventos insatisfatórios, e por que razão é que a auto-estima e a competência são importantes, não só em eventos insatisfatórios como em eventos satisfatórios. Além disso, os autores dizem, também, que deste modo se explica o facto de a Auto-Estima poder ser tanto uma fonte de ansiedade como de satisfação, e a competência poder ser tanto apetecível como aversiva, isto é, guiada por pressões
extrínsecas ou interesses extrínsecos, à semelhança do que Deci e Ryan (2000) propunham.
De facto, revendo as principais teorias sobre necessidades psicológicas, podemos notar que existem cinco necessidades que parecem ser transversais aos diferentes modelos. Estas necessidades são a Auto-Estima, a Proximidade, a Autonomia, a Coerência e o Prazer.
A necessidade de Auto-Estima é uma das necessidades mais transversais às diversas teorias (Maslow, 1943; Epstein, 1993; Sheldon et al., 2001; Vasco, 2009b; Strenger, 2011). De acordo com estas teorias, para que haja bem-estar psicológico é necessária a capacidade de sentir satisfação consigo próprio. Todas as teorias citadas designam esta capacidade como Auto-Estima. Porém, também as teorias de Deci e Ryan (2000) e de Blatt (2008) parecem referir esta necessidade, apesar de usarem outro nome para a designar. A necessidade a que Deci e Ryan (2000) se referem como competência e a necessidade de Auto-Definição do Self da teoria de Blatt (2008) englobam características que vão ao encontro da necessidade de Auto-Estima, uma vez que ambas as teorias consideram como essenciais ao bem-estar psicológico a formação de um sentido positivo do Self que passa pelo reconhecimento do seu valor pessoal e pela construção de uma auto-imagem positiva.
A necessidade de Proximidade é outra das necessidades mais apontadas pelas diversas teorias como essencial ao bem-estar psicológico. Maslow (1943) referiu-se à necessidade de Amor/Pertença como sendo uma das necessidades psicológicas do topo da sua pirâmide, essencial para permitir a satisfação da necessidade de Auto- Actualização. Também Epstein (1993), Grawe (2006), Deci e Ryan (2000), Sheldon e colaboradores (2001), Blatt (2008), Vasco (2009b) e Strenger (2011) se referem à necessidade de proximidade como sendo uma das necessidades psicológicas mais importantes. Costanza e colaboradores (2007) também consideram as necessidades de Protecção e Afecto, que podemos identificar como semelhantes à necessidade de Proximidade de Vasco (2009a, 2009b), como sendo essenciais ao funcionamento psicológico saudável, sendo que estas duas necessidades não podem ser satisfeitas sem a existência de pessoas próximas significativas que possam providenciar a sensação de protecção e oferecer afecto.
Por seu lado, a necessidade de Autonomia surge como outra das necessidades mais referidas pelas diferentes teorias, nomeadamente as teorias de Deci e Ryan (2000), Sheldon e colaboradores (2001) e Vasco (2009b). Costanza e colaboradores (2007)
referem a Liberdade como outra das necessidades psicológicas, sendo que a Liberdade engloba em si uma dimensão que vai ao encontro da necessidade de Autonomia, já que para que exista liberdade, é necessário algum grau de autonomia, o que parece igualmente apoiar a transversalidade desta necessidade nas diversas teorias.
Outra necessidade comummente referida é a necessidade de Coerência do Self. Epstein (1993) referia a necessidade do ser humano assimilar os dados num sistema conceptual estável e coerente. Também Blatt (2008), ao referir a necessidade de Auto- Definição do Self, refere que esta passa pelo estabelecimento de um sentido integrado e coerente do Self. A incoerência e fragmentação do Self está presente em inúmeras perturbações da personalidade que originam distress psicológico, tais como a perturbação da personalidade borderline (Millon & Grossman, 2007), perturbação dissociativa da identidade (Grey, 2009), entre outras. Vasco (2009a, 2009b) postula, da mesma forma, a Coerência do Self como um dos polos das necessidades psicológicas, conceptualizando a Incoerência do Self como parte integrante da vida do indivíduo, sendo importante a capacidade de aceitação dessa Incoerência para que se possa promover a Coerência (Rodrigues & Vasco, 2010).
Por fim, a necessidade de Prazer é outra das necessidades mais destacadas na literatura. Epstein (1993), Grawe (2006), Sheldon e colaboradores (2001), Vasco (2009a, 2009b) referem-se à necessidade de experienciar Prazer como fundamental ao bom funcionamento de um indivíduo, sendo a necessidade de Diminuir a Dor vista também como importante por Epstein (1993) e Grawe (2006).
Deste modo, é possível concluir que as necessidades de Auto-Estima, Proximidade, Autonomia, Coerência do Self e Prazer surgem na literatura como as necessidades mais frequentemente referidas pelas diversas teorias. Será interessante compreender se estas necessidades poderão ter um papel mais saliente do que as restantes na regulação do bem-estar e distress psicológicos
Ao mesmo tempo, é natural que haja necessidades psicológicas que se possam sobrepor ou entrar em conflito, tal como Deci e Ryan (2000) sugeriam relativamente às necessidades de Proximidade e Diferenciação, tal como Vasco e Vaz-Velho (2010) sugerem relativamente às diferentes polaridades dialécticas de necessidades.
Porém, é importante a realização de mais estudos que procurem compreender a forma como diferentes polaridades de necessidades psicológicas interagem entre si e as implicações desta interacção para a regulação da satisfação das necessidades psicológicas.