• No results found

SUMMARY OF RESULTS

O princípio de vida, que Hegel exalta em Aristóteles, se manifesta na natureza enquanto conceito que tem seu fim em si mesmo, a própria Ideia se manifestando, na qual há uma causa final. Entretanto, tal manifestação do télos ocorre a partir da suprassunção de uma dualidade, a saber, a dualidade entre matéria e forma.

A concepção teleológica hegeliana, assim como a aristotélica, submete a matéria à forma, pois a disposição que é meramente material não se realiza para se dispor a si mesma, mas se dispõe “para algo”; e esse “para algo” é a finalidade. Aristóteles dá o exemplo de um serrote que é constituído sob uma determinada disposição para uma finalidade e ele é de ferro para realizar essa finalidade, pois se não fosse desse material, não seria possível a realização dessa finalidade (Phys, II, 9, 200a, 10-14).

Para Angioni (2006, p. 53), há uma unidade de matéria e forma, na filosofia aristotélica, o chamado hilemorfismo, no qual se expressa uma preponderância da forma sobre a matéria, porquanto a forma define a finalidade sob a qual a matéria em sua necessidade se efetivará. “Aristóteles explica que a causa final (isto é, a forma) deve receber mais atenção porque ela é que é ‘causa da matéria’, não o inverso: a matéria não é causa da forma e do acabamento” [...] (ANGIONI, 2006, p. 54).

É importante considerar que Aristóteles distingue quatro causas: material, formal, eficiente e final (Phys. II, 3, 194b 23ss). Nesse sentido, para o Estagirita, causa formal e causa final são distintas. A causa formal constitui a definição, o “o que” e se opõe à causa material que é “o item imanente de que algo provém”, potência indefinida. Já a causa final diz respeito ao “em vista de quê”. Contudo, há um vínculo entre a causa final e a causa formal porquanto somente pela forma o em vista do quê se efetivará.

Contudo, o importante a destacar aqui é que não é a forma que está submetida à matéria, mas a matéria é que está submetida à forma para a realização da finalidade. Pois a matéria não é a causa do fim, mas o fim é a causa da matéria. E, desse modo, Aristóteles distingue a causa material da causa motora final teleológica: a primeira tem a ela inerente a necessidade, enquanto que a segunda está na finalidade. Hegel, assim como Aristóteles, reconhece que a finalidade (no conceito, no caso de Hegel) é preponderante em relação à exterioridade material.

Segundo Aristóteles (Phys, II, 7, 198a, 14-21), as causas são, respectivamente: o por quê e este é a essência (ου ) (a definição, a forma, causa formal); o que faz mover

(causa eficiente); a finalidade (o para quê, a causa final); e, no caso das coisas que se realizam, a matéria (a causa material). E, no que se refere à física, a compreensão das causas deve estar em conformidade com essa essência que, enquanto forma, unifica as outras três causas.

Mas, muitas vezes, estas três convergem para uma só coisa: o “o que é” e aquilo em vista do quê são uma só, e lhes é especificamente idêntico aquilo de que procede

primeiramente o movimento, pois é um homem que gera um homem. [...] Por conseguinte, o porquê é explicado por alguém na medida em que se reporta à matéria, na medida em que se reporta ao “o que é” e na medida em que se reporta àquilo que primeiramente moveu. (Phys., II, 7, 198a, 24ss.).

Pode-se extrair dessa afirmação que há um hilemorfismo na concepção aristotélica das causas, o que expressa mais um argumento favorável à ideia de que Aristóteles concebe a realidade física como unidade de forma e matéria. E de que o movimento foi engendrado em vista da forma, com uma finalidade. E isso pode ser considerado ainda mais relevante se considerarmos a seguinte afirmação aristotélica: “Mas o que é aquilo que nasce? Não aquilo a partir de quê, mas sim aquilo em direção para quê: portanto a forma é natureza” (Phys., II, 1, 193b, 16-18), visto que, se a forma é prevalente à matéria e a forma se une à matéria em vista de algo, nota-se a importância da teleologia para Aristóteles, especialmente naquilo que concerne a vida orgânica, pois na medida em que o homem engendra o homem há a finalidade da preservação da espécie. Em Hegel, essa concepção se apresenta na afirmação de que “[...] ele [o vivente] só é enquanto se faz para o que é [...]” (Enc. II, § 352, p. 454; Enz. II, § 352, p. 435).

De acordo com a perspectiva aristotélica, o que é natural tem um de seus princípios que não é físico e nesse desdobramento do movimento natural há atuação dessa forma que tem uma finalidade, a teleologia, que é um dos princípios fundamentais de compreensão da Natureza. Portanto, para Aristóteles: “Por conseguinte, dado que a natureza é em vista de algo, é preciso conhecer também essa causa [...]” (Phys, II, 7, 198a, 39-40).

Assim como em Aristóteles, a finalidade incide sobre a matéria. Contudo, diferentemente do Estagirita, a concepção de finalidade hegeliana está assentada numa unidade sistêmica na efetividade da vida Lógica da Ideia, do Lógos, na natureza, na suprassunção do mecanismo e do quimismo, os quais não são descartados por Hegel, mas estão compreendidos nas determinações da finalidade imanente à efetividade da Ideia na vida (Enc. I § 200, Z, p. 338; Enz. I § 200, Z, p. 357).

A efetividade de um télos na natureza, em Aristóteles, é reconhecida por Hegel em sua História da Filosofia. Para Hegel, essa concepção é importante porque a explicação aristotélica da natureza não se fundamenta no acaso, mas tem uma finalidade.

As coisas são efetuadas para um fim e nesse fim está a sua natureza, o fim que se realiza é sua natureza, então o que é produzido, as partes, como, por exemplo, os membros, os dentes, etc. são produzidos para essa vontade (Willen), que é o fim

(Zweck). Quem supõe a formação fortuita, anula a natureza e o natural. O natural é o que um princípio tem em si, é ativo e por si age conforme o seu fim (Zweck) ou o princípio (Prinzip) alcançado. (VGPh-GJ, p. 76).

Para Marcia Zebina A. da Silva Aristóteles é uma referência importante para Hegel no que concerne ao conceito de finalidade interna que tem o conceito de vida como cerne (2006, p. 178). Nas palavras de Marcia Zebina A. da Silva:

Hegel [...] procura determinar as condições de inteligibilidade da finalidade interna, tendo como guia o pensamento de Aristóteles e a sua distinção entre natureza e técnica, ou seja, entre a natureza como finalidade interna, cujo princípio de movimento lhe é imanente, e a técnica como finalidade externa, com o princípio do movimento dado por um elemento exterior. [...] A natureza é, portanto, a vida, porque tem em si mesma o princípio de seu movimento, ao passo que os produtos da técnica humana, cujo princípio de movimento é exterior, são resultantes da atividade da causa eficiente que introduz de fora o movimento das coisas. O auto-movimento do ser vivo organizado é a característica fundamental para que se possa compreender o indivíduo vivo [...] (SILVA, 2006, p. 178).

Sob a perspectiva hegeliana da História da Filosofia, a concepção aristotélica de natureza tem como cerne a vida (que para Hegel é a Ideia que se manifesta por si mesma e tem a si como fim) e é superior a muitas concepções modernas de natureza, que se fundamentam no mecanismo e numa inteligência exterior que a ordena (Gedanken

außerhalb der Natur) (VGPh II, p. 179). O mecanismo estaria nas relações exteriores como a pressão, o impulso, combinações químicas; o produto químico, para Hegel, não surge de si mesmo, mas nasce da combinação de ácido e base, portanto, tem uma origem externa, que não surge de si mesma e que não tem a finalidade em si mesma (VGPh II, p. 179). Hegel não nega que haja o mecanismo na natureza, mas esse princípio não é para o filósofo alemão aquilo que a norteia.

Já a atuação de uma inteligência exterior seria a teleologia externa, o uso da técnica pelo homem, o que também não é o que determina a efetividade do racional em si e por si na natureza. Hegel mostra como Aristóteles, no capítulo 8 do Livro II da Física, se contrapõe a uma concepção na qual se poderia conjecturar um paralelo entre a técnica e a natureza no que concerne à finalidade externa. De acordo com Hegel, para Aristóteles, se a natureza interior da madeira fosse tornar-se um barco, não haveria por que a ação humana para tal. Portanto, conforme exposto na seção 2 do capítulo 2 desta tese, a técnica e a

natureza são distintos no que tange ao télos. A atuação do homem sobre a natureza se faz num processo no qual se dá uma teleologia externa, em que uma inteligência e seus respectivos instrumentos, de fora, agem sobre a natureza para a realização de um fim (VGPh-GJ, p. 77).

É interessante notar que a concepção hegeliana de finalidade interna exprime o caráter especulativo do pensamento hegeliano, pois o especulativo para Hegel é o atuar do fim autodeterminante da Ideia, o mesmo que já era no princípio e é o fim, o alfa e o ômega, que atua no movimento de retorno, que tem a finalidade a ela imanente, ela mesmo que atua efetivando a razão na natureza e na história.

Portanto, podemos observar claramente como Hegel exalta em sua História da

Filosofia a concepção aristotélica de finalidade. Em Hegel, o agir conforme a um fim da razão não se restringe ao conceito de organismo da Filosofia da Natureza, pois esta é estruturada nos desdobramentos da Mecânica, da Física e da Física orgânica. E nesta, Hegel reconhece o télos da vida no singular. Contudo, na última seção do segundo volume da Enciclopédia, a finitude da natureza é reconhecida pela Ideia na finitude do organismo singular, em sua morte. Da morte do ser-fora-de-si emerge o Espírito, que na suprassunção da singularidade para a universalidade concreta enquanto conceito, como Espírito (Enc. II, § 376, p. 554; Enz. II, § 376, p. 537).

A morte do ser-fora-de-si o Espírito emerge porque a Ideia na natureza está na exterioridade e o conceito está na interioridade da singularidade vivente. Na morte do que é externo, a Ideia sai da exterioridade, nesse sentido, volta para sua interioridade e, assim, emerge como Espírito, Espírito Subjetivo.