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de campo, quando questionadas sobre as atividades desenvolvidas por elas. Sempre davam a menstruação como um empecilho ao pleno exercício das funções, mas reconhecendo-o como legítimo. Geralmente as mulheres aceitam o interdito sem muitos questionamentos, observando esse fator como algo do destino e da situação das mulheres e que deve ser respeitado como impuro para a religião. As mulheres aceitam e defendem a ideia de que a menstruação deve ser interdito, pois realmente se acreditam impuras. A ekede Bruna ao ser questionada, na entrevista sobre o costume nos terreiros de proibir as mulheres de tocar em objetos sagrados e nas pessoas, nos momentos de possessão, respondeu: “Sei do

interdito da menstruação, mas acho que a mulher só não pode fazer as atividades quando está menstruada”. Assim, reconhece o interdito como se ele não atrapalhasse como se fosse natural essa interdição, inclusive, sendo, às vezes, utilizado pelas mulheres como desculpa para não participar de algumas atividades. Contudo, apesar de ficarem excluídas de atividades religiosas, não ficavam isentas de lavar louça, varrer, limpar e passar.

Para a sacerdotisa Cássia da Oxum, muito embora pareça não concordar com o interdito, observou durante a entrevista que muitas mulheres se valem de estratégias como tomar remédio para não menstruar durante o período de

obrigações religiosas, e que ela mesma já se valeu desse artifício. Ao responder sobre o fato de que as mulheres se assumem como sacerdotisas – donas de templo –, com mais idade, quando questionada se isso poderia estar relacionado com a menstruação, respondeu:

“É. Eu acho que está literalmente ligado a isso, pois como

você vê não pode isso, não pode aquilo, não pode cortar, não pode fazer obrigação, colocar as mãos nas pessoas. O pessoal chama isso de impureza”.

Apesar de parecer uma proteção, um cuidado, o não acesso às atividades e rituais pode causar atraso no aprendizado, além de desmotivar, pois algumas mulheres possuem ciclos mais longos, ou irregularidades nos ciclos menstruais, assim elas acabam ficando interditadas, por mais tempo. Conforme Sigrid Gouveia na entrevista, ao responder sobre quais as tarefas de homens e de mulheres na sua comunidade religiosa – dirigida por um sacerdote –, observou a questão da menstruação como um problema, Ela disse:

“Mulher faz serviço de cozinha e limpeza. Os homens as

tarefas mais ligadas aos trabalhos espirituais da casa, coisas que parece que mulher não pode estar mexendo, principalmente quando está menstruada, que não pode fazer quase nada”.

A menstruação sempre foi vista como um problema. Muitos mitos estão relacionados à menstruação, restringindo a mulher de realizar atividades essenciais. É interessante a ambiguidade no ato de menstruar, pois ao mesmo tempo em que sinaliza o período de fertilidade da mulher, é tratado como se fosse uma sujeira. Há crenças populares de que as mulheres menstruadas não devem tocar em certos alimentos nem realizar algumas tarefas, que nesses dias, ou conforme costumam dizer, “naqueles dias”, a mulher não pode fazer pães ou bolos,

colocar a mão na cabeça das pessoas, nem mesmo para o trabalho de cabeleireira, cuja crença é de que estragaria os cabelos.

Encontrou-se casas dirigidas por mulheres onde a menstruação não é vista como um problema, mas que de qualquer forma deve ser entendida como algo que deve ser tratado com cautela, conforme observou a sacerdotisa Wilma de Oyá,

“Pra mim menstruação não tem problema, não é interdito.

Normalmente eu procuro harmonizar as datas, mas se entrar de obrigação e passar uns dias e ficar menstruada não tem problema. Agora, o que não pode é estar menstruada e ficar colocando a mão na cabeça dos outros, pois quando a pessoa está menstruada ela expele energia”.

Apesar das transformações e acomodações, crenças permanecem e são reforçadas, tanto pelos homens como pelas mulheres, de forma muito ambígua inclusive. Por exemplo, a sacerdotisa Rita da Oxum respondeu que achava que a mulher ficava mais plena para o sacerdócio quando deixava de menstruar, observando que assim a mulher poderia ajudar mais, contudo, em outra pergunta respondeu “que o seu corpo e sua idade a limitavam”. Assim, se a mulher deixa de menstruar, e já não é jovem, ela passa de uma exclusão para outra, pois se antes não podia porque menstruava, e ficava períodos interditada, ao envelhecer terá dificuldade com as tarefas pesadas e conforme observado no trabalho de campo, muitas sacerdotisas e mulheres com mais idade, são poupadas pelos homens, que as colocam em cadeiras confortáveis para assistir ao ritual, e são reverenciadas como mães protetoras, doadoras do axé que eles manifestam.

Entende-se os interditos como pontos cruciais por onde se instalam as exclusões, que se transformam em violência de gênero na medida em que eles excluem as mulheres de atividades fundamentais que estão relacionadas ao

exercício de poder. Nas religiões afro-brasileiras os interditos são complexos por se instalarem, entrelaçados e regulados, pelos fundamentos religiosos que são regras de comportamento dentro da prática religiosa e causadores de desconfortos, em especial às mulheres. Elas são mais atingidas por terem o corpo demarcado por limites, o que as coloca em situação de desvantagem frente aos homens, quando seus corpos são naturalizados pela fragilidade e excluídos pela menstruação.

Apesar de continuarem reproduzindo as práticas que, conforme Wilma de Oyá, “são questões culturais”, o que também observou Hilton de Ogum Dajulekan, “são tradições”, e que na verdade significam costumes que se estabelecem no campo das religiosidades afro-brasileiras. Tais costumes acabam por exercer sobre as mulheres uma violência simbólica que as exclui de diversas atividades dentro das práticas rituais, apresentando-se de forma ambígua por se ancorarem e legitimarem pelo aspecto o sagrado.

Porém, é importante notar que esses interditos podem também proibir a ingestão de alguns alimentos e bebidas, o uso de determinadas cores, o ir e vir a determinados lugares, o jejum sexual por determinado período, que pode recair sobre homens e mulheres. No entanto, alguns interditos recaem, especialmente, sobre as mulheres. Alguns são temporários como a menstruação, no entanto o não acesso aos atabaques, instrumento fundamental para algumas liturgias, e a realização de sacrifícios, como também a prática ritual essencial de exercício de saber e poder, coloca a mulher em desvantagem.

Abordou-se, insistentemente, a questão da menstruação nas entrevistas realizadas e, sempre que se tocava nesse assunto, percebia-se que o período menstrual é um dos interditos que exclui as mulheres das atividades rituais em quase todas as práticas, seja Umbanda ou Candomblé. Apesar de reclamação resignada, elas próprias reproduzem o discurso de que a menstruação é causadora de problemas, pois nesse período ficam impedidas de exercerem plenamente suas atividades. A entrevistada Mãe Jane de Oyá, que tem um terreiro na cidade de Recife, Pernambuco, reafirma o interdito ao dizer que: “Quando eu tinha

menstruação minha yalorixá fazia por mim. Hoje meu filho faz. Menstruada é falta de respeito mexer nas coisas do santo”.

As mulheres mais novas nas práticas religiosas questionam, comentando a impossibilidade de participar das atividades do terreiro. Percebe-se que elas são, desde que aderem à religião, orientadas no sentido de que nos dias de menstruação deverão manter-se afastadas dos objetos sagrados e, até mesmo, evitar a incorporação e, em caso de rituais de iniciação ou alguma atividade relacionada aos orixás, que elas não participem. Nas casas pesquisadas observou- se que as mulheres, e mesmo os homens, usavam várias expressões para o interdito da menstruação. Assim que chegavam ao templo as moças comunicavam: “tô de bagé, tô de bode, tô no vermelho ou tô naqueles dias”.

Assim, por iniciativa das próprias mulheres, ao comunicarem o seu impedimento, ficam isoladas de algumas atividades fundamentais do culto. Ouviu- se mulheres dizendo que era até bom quando estavam menstruadas, pois assim tinham uma justificativa para ficarem sentadas, fora das atividades de auxiliar o sacerdote, até porque o “auxiliar” significava, “busque isso, pegue aquilo, lave isso,

limpe aquilo”. Isso, com relação às atividades de dentro do ritual, pois estar menstruada não impedia que as mesmas fossem designadas para auxiliar em tarefas de limpeza de espaços externos, ajudar na cozinha, lavar ou passar. Porém, para os homens que não possuem esse interdito temporário, estavam sempre aptos para as tarefas sagradas. A bebida e o sexo, quando praticados nas últimas vinte e quatro horas, tratados como interditos, são solucionados com um banho de ervas antes de entrar no templo, ficando como costumam dizer “em ordem”. Contudo isso é válido apenas para os homens, cujas sujeiras, como bebida e sexo podem ser retiradas dos seus corpos com apenas um banho. Porém, no caso das mulheres, a menstruação não é eliminada com o banho, pois é um sacrifício permanente.

Percebeu-se que muitas mulheres acabam ficando interditadas, ao menos, por uma semana em cada mês. Se as atividades forem a cada quinze dias e coincidir com o ciclo menstrual, ela fica interditada em cinquenta por cento das atividades.

Na pesquisa de campo essa questão foi observada como causadora de problemas, muito embora reforçada pelas próprias mulheres como um interdito necessário. Mesmo em alguns casos, questionando e não concordando, elas acabam falando que não costumam trabalhar menstruadas. As mais velhas, que já não menstruam mais, reforçam essa restrição para as mais novas, conforme a entrevistada Maria da Conceição Rocha, que pertence à Casa de Pai Marconi de Odé, observou: “quando a gente tá de Bagé a gente não faz as coisas no santo. Eu

Assim, essas tradições culturais continuam sendo incorporadas e se apresentam de maneira muito marcada em praticamente todas as casas pesquisadas. É um dos interditos que coloca as mulheres em exclusão das atividades religiosas, por serem isoladas de práticas que lhe permitem exercer o poder religioso, que castra e limita. Conforme observou-se, as mulheres sentem-se excluídas por causa do interdito, mas ao mesmo tempo o reforçam, pois ele encontra-se tão naturalizado que não possibilita discussão de desconstrução.

E, assim, os homens reforçam o controle do que é sagrado expressando a misoginia e mantendo sempre o controle sobre os corpos femininos, marcados por limites, reforçando o que é percebido e anotado pelas pesquisas conforme anota Maria José Rosado Nunes,

Os corpos das mulheres têm sido o locus privilegiado de controle social e religioso dos homens sobre as mulheres. O discurso feminista contemporâneo, de caráter acadêmico ou político, religioso ou laico, tem buscado evidenciar as conexões existentes entre esse controle e a falta de direitos sociais, políticos e religiosos das mulheres (NUNES, 2005, p. 27).

Historicamente, os homens dominam a produção do que é sagrado, mantido com o consentimento das mulheres que reafirmam esses discursos como naturais. Também nas religiões afro-brasileiras esses discursos e práticas têm a marca dessa dominação. Normas, regras e doutrinas são definidas pelos homens reforçando a sua superioridade construída, que os coloca hierarquicamente sobre as mulheres.