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Estudar temáticas relacionadas ao suicídio sempre provocou a nossa curiosidade, desde o curso de graduação em Psicologia. Em diversas pesquisas, entramos em contato com familiares de pessoas que se haviam suicidado, mas nunca com pessoas que haviam sobrevivido a essa tentativa, apesar de já termos lido estudos que discorriam sobre esse tema em particular.

Revendo as entrevistas e depoimentos bem como, relendo a literatura estudada, constatamos a complexidade da temática aqui abordada. Devemos, por isso, sempre ter o cuidado de não tentar ver relações de causalidade entre os fatos buscando explicações para a tentativa de suicídio, pois, se assim o fizermos, corremos o risco de chegar a conclusões equivocadas.

Ao invés disso, devemos tentar compreender cada caso como particular, único, e só podendo ser entendido a partir da história de vida do sujeito, do seu contexto de vida, dos aspectos culturais e sociais com os quais ele está envolvido.

Nas quatro entrevistas que compuseram o nosso quadro de análises, vários fatores, integrados, favoreceram a compreensão das tentativas de suicídio. Muito embora estejamos buscando compreender os motivos amorosos de tentativas de suicídio adolescente, isso não nos fez centrar nossa análise e nosso olhar apenas nesse aspecto de vida dos sujeitos, mas sim ampliarmos o nosso olhar para todo o contexto de vida do indivíduo, o que nos favoreceu compreender que as demais situações de vida do sujeito influenciavam a maneira como eles se posicionavam em relação a temas como o amor, a percepção do outro amado e, principalmente, o que esperar de uma relação amorosa.

Percebemos quanto o contexto familiar, a educação, os valores cultivados socialmente, os aspectos culturais de nossa sociedade influenciaram a maneira como os adolescentes de nossa pesquisa se percebiam.

Encontramos em seus discursos palavras que refletiam o mito do amor romântico, com base no qual o indivíduo espera por alguém a quem ama e que o amará com a mesma intensidade, assim como nutre expectativas de encontrar um par perfeito, alguém com quem constituir família, ter filhos, ter um lar, perpetuando, muitas vezes, a história de sua própria família. Alguém que fosse exatamente como sempre foi idealizado e que assim cumprisse os papéis esperados. Alguém que fornecesse um amor que fizesse o indivíduo sentir-se feliz e completo. Quantas vezes não ouvimos, em nossa cultura, em nossa sociedade, alguém falar de expectativas como as que acabamos de mencionar?! Quantas vezes não lemos nos livros, vimos nos filmes de amor, ou escutamos nas músicas românticas?! De certa maneira, o self desses adolescentes, ou seja, seu autoconceito (um tema bastante central nesta dissertação) foi sendo constituído nesse mundo de valores. E esses valores e expectativas sociais foram sendo incorporados ao seu imaginário e constituindo, muitas vezes seus projetos de vida.

Entretanto não foram apenas esses pontos que nos chamaram a atenção, mas também o fato de que os jovens estudados nesta pesquisa eram, em geral, provenientes de lares em que os pais eram separados ou, até mesmo, em que houve a perda de um ente querido. Percebemos também a dificuldade de diálogo com os pais, visto que muitas vezes os entrevistados relataram não dividirem suas angústias com os familiares. Esses apontamentos já foram discutidos por outros autores da área, como Cassorla (1998) e Dutra

(2000), os quais também perceberam como ponto em comum entre jovens que experienciaram desistir de suas vidas a questão da desestruturação familiar.

Tal evidência nos indica um fator que pode influenciar, junto a muitos outros, o desejo de desistir de viver. No entanto, é preciso cuidado ao avaliar essa questão, visto que nem todos os que vivem em um contexto de desestruturação familiar são potenciais suicidas. É preciso compreender que o suicídio sempre é determinado por um conjunto completamente diversificado de fatores, não podendo jamais ser compreendido a partir de apenas um único aspecto. Nos adolescentes aqui estudados, não foi apenas o rompimento da relação amorosa ou a fantasia de abandono do outro amado que motivou a tentativa de suicídio, mas também discussões com os pais, o medo de decepcionar os pais em função de alguma atitude adotada, a sensação de solidão, a depressão; enfim, uma multiplicidade de outros fatores interagiram com a experiência vivida na relação amorosa e contribuíram para a experiência suicida.

Um ponto em comum entre esses adolescentes é que existia uma grande idealização do amor. Percebemos que as relações amorosas daqueles que tentaram suicídio eram as primeiras relações amorosas significativas para eles – para alguns, era o primeiro namoro; para outros, era até mesmo a primeira relação amorosa à qual atribuíam significado. Portanto, não eram relações desprovidas de significados, mas sim relações amorosas que fizeram esses jovens inserir-se de uma maneira diferente no mundo, possibilitando, em muitos momentos, que abrissem mão de si mesmos para viverem a vida do outro amado.

Interessante percebermos que, tal como apontavam os estudos epidemiológicos sobre a tentativa de suicídio, as mulheres tentam suicídio mais do que os homens; visto que,

assim como na literatura, em nosso estudo entrevistamos três mulheres e apenas um homem.

Observamos também nesses jovens a presença de baixa auto-estima, com referências negativas sobre si mesmos, visões distorcidas de si. Muitas vezes, o indivíduo, não possuía o conceito real de si mesmo adotando discursos de outro e culpando o outro amado pela sua infelicidade, sem se implicar na relação amorosa. E isso está em total consonância com a reflexão sobre self de Carl Rogers que utilizamos neste trabalho, de que esses jovens passaram a adotar o outro amado como referência, afastando-se da capacidade de se auto-avaliar e se auto-corrigir, as quais seriam capacidades que favoreceriam a congruente experiência e o crescimento. E como bem referenciamos em nosso título, tais fatores evidenciaram não só um desamor a si, presentes nas referências negativas atribuídas a si mesmos, como também foram presentificadas a partir do desamor do outro a eles mesmos, ou seja, quando o outro a quem amavam passa a não desejá-los mais ou a dar a percepção de que não mais o quererem.

Nesse sentido, é importante ressaltarmos que o mito de que “quem vai se suicidar não avisa” pode ser quebrado, tendo em vista que pudemos perceber nesses jovens sinais que indicavam seu sofrimento e a necessidade de ajuda, tais como: o comportamento depressivo, o isolamento, o abandono dos estudos, a fuga de casa, o afastamento de amigos e de atividades desenvolvidas anteriormente. Assim, podemos pensar em ações preventivas, que visem trabalhar os pontos aqui verificados de modo a oferecer àqueles que lidam diretamente com adolescentes e que convivem com pessoas nessa faixa etária subsídios para agirem no momento em que observarem comportamentos como os acima citados. É consenso na literatura sobre a tentativa de suicídio que aquele que tenta suicídio uma vez e

não recebe assistência adequada, como acompanhamento psicológico, intervenção medicamentosa – quando apropriada – e apoio familiar tendem a fazer outras tentativas de suicídio, uma das quais pode ser fatal. Essa reincidência não aconteceu com os jovens de nossa pesquisa: após a tentativa de suicídio, eles não tentaram mais nem expressaram a presença de idéias suicidas, devido ao suporte que tiveram após a experiência suicida. É imprescindível que saibamos interpretar os gestos por meio dos quais o indivíduo pede ajuda.

Tendo em vista o nosso objetivo com este trabalho, entendemos que as narrativas aqui apresentadas foram de significativa importância para entendermos temas tão presentes na adolescência e nos possibilitaram ampliar os nossos questionamentos sobre temática aqui mencionada.

O nosso propósito, ao final do trabalho, é que as reflexões desenvolvidas aqui possam ser compartilhadas com profissionais de saúde e a sociedade, de uma maneira geral, através de eventos científicos, publicações e quaisquer meios de comunicação que venham a contribuir para confirmar a função social de um trabalho científico.