Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado frente a esta meta: que Auschwitz não se repita.
Adorno
Ocorrem algumas contradições inerentes a cada campo do conhecimento. Comecemos pela educação.
Seguindo a lógica da integração, a formação (Bildung) é um dado com o qual se deve apenas aprender a trabalhar, ou seja, a distribuir igualmente entre todos. Considera-se a categoria da formação algo já existente, um a priori. Esse apriorismo da educação não permite que se pense a pseudoformação, o que resulta nos famosos discursos que apontam a educação como a salvadora do mundo. Hoje já se conhecem “movimentos dos desempregados diplomados”, que testemunham contra esse discurso messiânico. “Para esta teoria [a de pseudoformação], a idéia de cultura não pode ser sagrada” (Adorno, 1996 [1959], p. 389).
Podemos agora entender com maior clareza uma polêmica afirmação de Adorno:
Reformas pedagógicas isoladas, embora indispensáveis, não trazem contribuições substanciais. Poderiam até, em certas ocasiões, reforçar a crise, porque abrandam as necessárias exigências a serem feitas aos que devem ser educados e porque revelam uma inocente despreocupação diante do poder que a realidade extrapedagógica exerce sobre eles (Idem, p. 388).
A educação, como subdivisão do trabalho intelectual, que tem por finalidade a formação para o trabalho material, não pode por si transformar algo de decisivo em relação às condições objetivas das quais é vítima. Ela deveria ter como condições a autonomia e a liberdade, mas trabalha com estruturas pré-colocadas, com fórmulas que devem ser impostas ao educando, algo heterônomo e não livre. Daí que, no momento mesmo em que ocorre a formação, ela já deixa de existir (Idem, p. 397).
Por que, então, falar em educação?
Nossa questão principal é se a educação pode transformar algo de decisivo em relação à barbárie. Até aqui apontamos suas contradições com relação às condições objetivas. Restam-nos as subjetivas. Pode a educação transformar algo em relação à subjetividade? Pelo que vimos nos outros capítulos a resposta é positiva.
Pode-se pensar em educação, num sentido abrangente, como formação. Esta tem espaços sociais como a família, a escola, o trabalho, o ócio (que a princípio era relacionado à escola, o lugar do ócio). Ora, o ócio transformou-se em tempo livre, o trabalho transformou o homem em apêndice da produção, a família está em crise e a escola não menos. Mas a escola ainda possui espaços de reflexão, mesmo que venham se reduzindo.
As leituras e a relação com os professores são elementos que competem com os ideais sociais, em desvantagem, é verdade, mas ainda participam da constituição do que é permitido chamar de superego. Quantos professores diagnosticam a crise familiar, ao sentir a necessidade de oferecer
cuidados básicos aos seus alunos. Essa situação é um sintoma que merece análise. Não cabe à escola esse papel, mas aponta para um espaço em que ainda se pode refletir, em que o incômodo é perceptível por entrar em contradição com os fins educacionais. Deve-se, porém, cuidar para que fenômenos como esse não resultem em atuação irrefletida, por preconceitos ou por um sentimento fraterno exagerado, mas que se preserve o espaço reflexivo.
Com base nessa constatação, uma trivialidade psicanalítica, não se deve esperar muito do esclarecimento meramente intelectual, embora se deva iniciar por seu intermédio; um esclarecimento um pouco insuficiente e apenas parcialmente eficiente ainda é melhor do que nenhum. (Adorno, 2000 [1965a], p. 114).
Não se pode esquecer, alerta Adorno, que a chave da verdadeira transformação está na relação da sociedade com a escola, mas a escola não deve ser apenas objeto. Auschwitz revelou o fracasso das configurações para as quais a escola é válida: a autonomia e a liberdade.
Enquanto a sociedade gerar a barbárie a partir de si mesma, a escola tem apenas condições mínimas de resistir a isto. Mas se a barbárie, a terrível sombra sobre a nossa existência, é justamente o contrário da formação racional, então a desbarbarização das pessoas individualmente é muito importante. A desbarbarização da humanidade é o pressuposto imediato da sobrevivência. Este deve ser o objetivo da escola, por mais restritos que sejam seu alcance e suas possibilidades. E para isto ela precisa libertar-se dos tabus, sob cuja pressão se reproduz a barbárie. O pathos da escola hoje, a sua seriedade moral, está em que, no âmbito do existente, somente ela pode apontar para a desbarbarização da humanidade, na medida em que se conscientiza disto. (Adorno, 2000 [1965a], pp. 116-7).
Dois elementos, porém, circulam essas afirmações e devem ser mencionados. O primeiro diz respeito à forma com que Adorno trata a educação, pressupondo uma modificação no ordenamento social, que ainda não ocorreu. Porém, é fatal que aqueles que querem tal mudança se obstinem contra ela (Adorno, 1995 [1969], p. 12). A obstinação, a teimosia, conserva um
certo valor libertário. Por isso teimamos no ponto de que, ainda que se atribua aos textos adornianos sobre educação o caráter de improviso, em um bom músico, o improviso é bastante fundamentado.
Com relação à barbárie como violência, que é gerada socialmente, mas expressa individualmente, a educação parece ser o meio que, ainda que não transforme as condições objetivas, pode levar às pessoas elementos para refletirem sobre si mesmas e sobre as violências que executam. É preciso que a escola adapte de alguma forma, para que o indivíduo possa sobreviver, mas frente ao exagero da realidade, que cumpre esse papel adaptativo, propor a resistência à barbárie é essencial. Para que as pessoas tenham ferramentas para compreender os mecanismos internos de reprodução da barbárie, parece indicado que a psicologia faça parte do clima educacional, diferente de como ocorreu até hoje.
Como hoje em dia é extremamente limitada a possibilidade de mudar os pressupostos objetivos, isto é, sociais e políticos que geram tais acontecimentos, as tentativas de se contrapor à repetição de Auschwitz são impelidas necessariamente para o lado subjetivo (...) Torna-se necessário o que a esse respeito uma vez denominei de inflexão em direção ao sujeito. É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a ele próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. (Adorno, 2000 [1965b], p. 121).