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Longe de querer esgotar todas as possibilidades de estudos sobre missão de Santa Rosa, nós procuramos oferecer ao leitor um dos possíveis caminhos para uma reflexão de como se processou a colonização portuguesa e espanhola neste espaço já habitado pelos diversos grupos indígenas. Desse modo, a fixação do elemento indígena no espaço de fronteira tornou-se estratégica para o equilíbrio demográfico, diante da impossibilidade do aumento do número de habitantes, pois era preciso garantir a expansão, posse e domínio de espaços ainda pouco conhecidos.

Apresentamos também um mosaico de populações indígenas presentes ao longo dos rios Marmoré, Guaporé e seus tributários, o que nos evidenciou, sobretudo, uma variedade étnica e cultural presente neste espaço da Amazônia Meridional. Juntamente com essa diversidade indígena, produziram-se várias formas espaciais, que, ao longo de acumulações e substituições, permaneceram na paisagem, e que hoje nos são acessíveis através de seus vestígios arqueológicos.

Ainda que as pesquisas arqueológicas sejam incompletas para estes espaços, elas permitem visualizar uma diferença cultural entre as etnias que habitavam a região Llanos de Mojo e etnias presentes ao longo do rio Guaporé. Na paisagem de Llanos de Mojo, as informações obtidas nos remanescentes arqueológicos sobre conhecimento e tecnologias das sociedades indígenas pré-históricas ainda hoje auxiliam na reintrodução de plataformas de cultivo na agricultura das comunidades rurais. Isto produz, assim, uma ruptura com a idéia de que a acidez, a dureza dos solos e as inundações tornariam estes terrenos inúteis e impróprios para atividades agrícolas.

Assim, o encontro ocorrido entre os indígenas e os europeus que chegavam nestas espacialidades no início do século XVIII gerou várias trocas importantes, criando, desta maneira, uma nova realidade histórica, na qual se mesclaram características sociais oriundas de ambos os povos, numa contínua síntese de transformação. Com este encontro, novas espacialidades foram criadas, (re)significadas e (re)elaboradas, muitas vezes com o apoio dos indígenas.

Dessa forma, a expansão portuguesa gerou vários motivos de contenda permanente entre Portugal e Espanha no Novo Mundo, já que os portugueses encararam a bacia

guaporeana como um espaço a ser ocupado definitivamente, não poupando esforços para manter suas possessões no extremo oeste da Capitania de Mato Grosso.

Os espanhóis, por sua vez, com o pretexto de proteger os indígenas do avanço lusitano na raia oeste da Capitania de Mato Grosso e firmar o direito de posse da coroa espanhola sobre as margens do rio Guaporé, fundaram as missões de Santa Rosa, São Miguel e São Simão. As ações empreendidas tanto pelos portugueses como pelos espanhóis produziram um verdadeiro espaço de relações tensas de fronteira nas margens do rio Guaporé. Tal fato fez com que a coroa portuguesa ampliasse sua ocupação na fronteira oeste, com a criação da Capitania de Mato Grosso (1748) e a fundação de Vila Bela da Santíssima Trindade (1752).

Essas relações se acirraram ainda mais quando os portugueses tomaram a antiga missão de Santa Rosa, após ser abandonada em 1754, e edificaram nela uma fortificação portuguesa, que recebeu o nome de Fortaleza Nossa Senhora da Conceição. Tal estranhamento gerado pela demarcação de limites na fronteira oeste da Capitania de Mato Grosso culminou com a guerra em Mojo pela retomada da antiga missão jesuítica por parte dos espanhóis. Foram duas as tentativas fracassadas de invasão da Fortaleza da Conceição, uma no ano de 1762 e a outra no ano 1766.

Nesse contexto, os povoados missioneiros de Mojo ocuparam uma fronteira viva entre contínuos atritos com febre expansionista portuguesa e as constantes oposições de interesses da sociedade colonial espanhola. Assim, as missões de Mojo formaram uma verdadeira síntese das influências européias e indígenas, pois produziram uma fusão das formas de vida dos indígenas com a organização institucional espanhola. Percebemos também algumas semelhanças e diferenças nas conformações urbanas das missões Guarani, Chiquito e Mojo, bem como os esforços de europeus e indígenas em se adaptar às novas paisagens e aos novos costumes.

Constatamos que, para as missões de Mojo, havia três formas de construção para o conjunto missional, com objetivo de evitar inundações: os diques ou muros, as residências dos padres com dois pisos e as casas dos índios, sobre estaca ou palafitas. E mesmo na falta de um estudo arquitetônico e arqueológico detalhado, a documentação disponível nos ofereceu uma noção de como eram estas missões jesuíticas em Mojo.

Por fim, em nossa visita à antiga missão de Santa Rosa, no município de Guajará Mirim, no atual Estado de Rondônia, pudemos visualizar algumas permanências na paisagem das influências culturais resultantes deste encontro entre indígenas e europeus, tais como construções de casas e estabelecimentos sobre palafitas, para evitar as inundações das

margens do rio Guaporé. Este fato nos remeteu aos relatos sobre as casas dos índios das missões jesuíticas de Mojo, construídas sobre estacas ou palafitas. Tratava-se de uma experiência que estes indígenas já desenvolviam muito antes do contato com o europeu para livrar suas aldeias das cheias dos rios. Percebemos ainda que a localização da referida missão era realmente privilegiada, pois tinha-se uma visão de quem vinha do Grão Pará e/ou de Vila Bela, além da proximidade com relação à confluência dos rios Guaporé e Marmoré, o que comprometeria toda a ocupação portuguesa na raia oeste da Capitania de Mato Grosso. Nesse sentido, Santa Rosa produziu vários discursos sobre o espaço e de diversas práticas

de apropriação espacial (Rosa, 2003: 11) do novo território, pois colaborou diretamente na