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5.4 Results

5.4.4 Summary

Responsável directo pela instrução dos aprendizes, o engenheiro responsável pela escola partilhou quase sem pre esse ministério com outros técnicos superiores da em presa que, por regra, tom aram a seu cargo a instrução teórica. No entanto, inicialmente, nos prim eiros anos de vigência da escola, quer a instrução teórica, quer a prática oficinal, estavam a cargo dos quadros operários. Foi a partir da transferência para a Escola C am ões, com o m aior afastamento das oficinas e, presum ivelm ente, com m aior visibilidade externa, com maior população escolar e m ais responsabilidades

técnicas, que com eçaram a leccionar as disciplinas teóricas de M ecânica Técnica, de Tecnologia e m esm o de Á lgebra alguns quadros superiores da CP. Pela m esm a altura foi contratado um professor do ensino prim ário para leccionar as disciplinas de A ritm ética, G eom etria e Á lgebra. M ais tarde, foram contratados professores para m inistrar as aulas de Educação Física e de M oral e Educação Cívica. A contratação de professores alheios à CP contribuiu para m elhorar a qualificação da formação m inistrada, dado que foram sem pre adm itidos professores profissionalm ente habilitados. O professor de “m atem ática” , para além da habilitação do m agistério prim ário, era uma personalidade conceituada localm ente e tinha sido director, por largos anos, da Escola C am ões, enquanto escola prim ária privativa da CP. O utros professores o substituíram m ais tarde no m esm o m inistério, tendo-se tratado sem pre de professores devidam ente habilitados. Q uanto ao professor de “ ginástica” , se inicialm ente se procurou resolver o problem a com prata da casa, a partir de m eados da década de sessenta, foi contratado um diplom ado pelo 1NEF. Q uanto à instrução teórica de natureza mais técnica, o recurso aos quadros superiores da em presa com form ação em engenharia foi determ inado pela disponibilidade pontual desses quadros e dificilm ente se pode adm itir que, à época, com vantagem , pudesse ter sido de outro m odo289.

A instrução prática ficou sem pre por conta de operários qualificados, o prim eiro dos quais foi sem pre o contram estre que dirigia a escola. Uma m inoria desses operários prestava serviço na Escola de A prendizes a tempo inteiro, ocupando-se em geral da Prática Ofícinal para os alunos do prim eiro ano e da disciplina de D esenho. Q uanto aos restantes, responsáveis pela prática ofícinal aos alunos dos 2o e 3o anos, tratava-se de operários qualificados no exercício normal das suas funções produtivas ju nto de quem

D e a p ren d iz a cidadão

289 p e ]0 contrário, a falta de q u ad ro s habilitados para a docência levava a q u e alg u n s d estes engenheiros fossem igualm ente p rofessores nas escolas técnicas da região. Cf. entrevistas

eram colocados os aprendizes, cabendo a estes o dever de aprender e àqueles a obrigação de ensinar.

U m a nota, datada de 19 de Dezembro de 1959, esclarece quantos e quais os agentes ocupados nessa altura com a instrução na Escola de A prendizes e serve de m atriz para outros períodos: três engenheiros e o professor de A ritm ética e de G eom etria, a tem po parcial, que se encarregam da instrução teórica, com excepção do Desenho, um contram estre e m ais quatro operários qualificados, a tem po inteiro, que m inistram a disciplina de D esenho e a Prática O ficinal na Escola. Para além destes, continua a n o ta ," tem os 30 instructores de Prática Oficinal na O ficina, os quais em bora sejam operários que estão norm alm ente a trabalhar na sua ocupação perdem im enso tem po com os aprendizes que sem analm ente estão a seu cargo". Contas feitas, no ano lectivo de 1959/60 encontravam -se im plicados na instrução dos aprendizes trinta e nove agentes, cinco a tem po inteiro e trinta e quatro a tem po parcial.290

A rem uneração dos instrutores era, desde Fevereiro de 1958, estabelecida de acordo com a seguinte fórmula: G = K V HN, em que G é o prém io m ensal em escudos, H o núm ero de horas m ensais despendidas por cada instrutor, N o núm ero de aprendizes sim ultaneam ente a cargo de cada instrutor (núm ero de alunos por turm a) e K um coeficiente variável de acordo com a natureza da disciplina. A ssim , a disciplina de Tecnologia detinha o coeficiente 10, o m ais elevado, A ritm ética e Á lgebra tinham coeficiente 7, D esenho, coeficiente 6 e a Prática oficinal coeficiente 4291. Para além da im portância específica relativa de cada disciplina no conjunto da form ação, naturalm ente sem pre discutível, a fórmula traduz o estatuto social do instrutor e o patam ar de habilitações que lhe serve de suporte. As disciplinas de Tecnologia e de

290 O quadro que se ap resenta em anexo procura colig ir e sistem atizar a inform ação reco lh id a no sentido de reconstituir glob alm en te o co rp o docente da Escola de A prendizes ao longo dos anos. O s dados referentes à o ficina são escassos e p o r isso não foram considerados.

291 O fício do 3o G rupo O ficinal, d irig id o ao 2o G rupo O ficinal, d atado de 3 de F evereiro de 1958

M ecânica foram sem pre ministradas por engenheiros da empresa, a Aritm ética, a G eom etria e a Á lgebra foram quase sempre ministradas por um professor do ensino prim ário contratado do exterior e o Desenho e a prática oficinal foram sem pre da responsabilidade de quadros operários. Vale a pena citar, como exemplo, com o é que a fórmula se aplicava na prática. O quadro seguinte sintetiza o teor de um ofício datado de

19 de D ezem bro de 1959, que se reporta ao assunto:

D e a p re n d iz a cid a d ã o

R e m u n e ra çã o m e n sa l d o s instrutores n o a n o le c tiv o de 1959/60

In stru to re s Eng* Eng* Eag* P r o t C /m e stre O p J * d a s s e O p 2 'd a s s e Op~3*dasse 0|uJuL Horas/mês 16 16 16 64 Todas Todas Todas Todas Todas Remuneração 366S70 366S70 366S70 660S20 2.400SOO 1.350S00 1.350SOO 1.200SOO l.000soo

A inform ação acerca das remunerações auferidas deixa perceber que a fórmula foi aplicada apenas para determ inar a rem uneração dos instrutores a tem po parcial que acumulavam as funções e o vencimento. A tem po inteiro na escola, os instrutores operários eram rem unerados de acordo com a sua categoria operária.

N aturalm ente que num a escola exclusivamente destinada a rapazes, não houve professoras ou instrutoras.292 A escola era masculina na frequência e na docência. A selecção dos docentes era espontânea, de acordo com as disponibilidades pessoais dos habilitados que estavam colocados no Grupo Oficinal. N o entanto, no que respeita aos quadros operários a tem po inteiro na escola, parece ter sido sempre preponderante com o critério de admissão, a prestação anterior dos instrutores, nomeadamente se e aquando da sua passagem com o aprendizes pela escola. Tal facto explica a frequência com que nos deparam os com instrutores de desenho e prática oficinal, e mesmo de electricidade e tecnologia eléctrica, em cujo currículo se detecta terem sido aprendizes da escola. A

292 E m en trev ista à jo rn a lis ta fra n ce sa C h ristin e G am ier, Sal a z a r declarava-se, nos anos 50, “p ersu a d id o d e que a m u lh e r q u e tem em m e n te a preocupação d o seu la r não pode p ro d u zir fora d ele u m trab a lh o im pecável..” (C h ristin e G am ier, F é ria s com S a la za r in R A M A L H O , M a rg a rid a M a g alh ã es, C o m b o io s

consulta das pautas de avaliação confirm a a lisura da escolha: eram naturalm ente dos m elhores alunos. A lguns chegaram mesmo a m inistrar formação logo após a conclusão dos respectivos cursos. N um a época marcada por fídelidades assum idas e por clientelism os ideológicos, não parece terem existido outros factores a condicionar o perfil dos instrutores da Escola de Aprendizes.

No entanto e apesar disso, deve referir-se que o prim eiro professor contratado no exterior da em presa era um quadro destacado da M ocidade Portuguesa e com andante de lança da Legião P ortuguesa.293 Aliás, na circunstância em que se inscreveu a sua adm issão, aquela condição pode ter sido aleatória. A transferência da Escola de A prendizes para a Escola Cam ões ocorreu, com o já se viu, a partir do encerram ento da escola prim ária privativa da CP que ali funcionava. Foi nessa altura que um dos professores que ali leccionavam passou a m inistrar as disciplinas de A ritm ética, G eom etria e Á lgebra aos aprendizes. N outras alturas e circunstâncias, pode adivinhar-se o peso que tinham instituições como a Legião Portuguesa e a M ocidade Portuguesa na determ inação de colocações e empregos, públicos e privados. Q uando, na década de sessenta, as aulas de ginástica passaram a ser m inistradas por “diplom ados do IN EF” , o processo foi precedido de candidaturas de docentes294 que se disponibilizavam para aquela função, vincando na apresentação curricular as suas ligações ao regime, nom eadam ente, através da pertença aos quadros da M ocidade Portuguesa.

A E scola d e A p ren d izes da CP

293 O E ntroncam ento, n° 177, de 30 de M aio de 1954 e B oletim d a CP, n° 402, D ezem bro de 1962, p.20 294 U m professor a o ferecer o s seus serviços, apresentando co m o currículo que “dá au las na Escola Industrial de T o rres N o v as e é E ncarregado pela O rganização N acional da M ocidade P ortuguesa da chefia dos serviços de E d ucação F ísica e D esportos da ju v e n tu d e esc o la r na área da ala de T o rres N ovas, Entroncam ento e T ancos. ( O ficio de 3 de Junho de 1963)

D e a p ren d iz a cidadão

5.5.3. Os aprendizes

“Eu encontro-m e aqui, na Escola de A prendizes da CP, de m inha livre vontade, e sei que é meu dever respeitar os meus superiores e as ordens por eles dadas. Sei tam bém que não devo estragar nada daquilo que se encontra dentro do edifício. A CP é com toda a certeza a m aior com panhia do nosso país e talvez a com panhia que sustenta m ais em pregados. Portugal tem outras grandes com panhias m as são inferiores. A quilo que eu esperei sem pre alcançar era que um dia havia de ser um em pregado da Com panhia de C am inhos de Ferro Portugueses e consegui alcançar o m eu desejo. Portugal é um país que tem aum entado de ano para ano as suas in d ú strias.. . ”

Este texto, não datado, foi escrito por um aprendiz, natural de um a aldeia do concelho de M ontem or-o V elho, que entrou para a Escola de A prendizes no dia 28 de Outubro de 1968 e foi prom ovido a operário dois anos depois, em O utubro de 1970, com a categoria de bobinador, e colocado na secção de bobinagem . Trata-se de um daqueles escritos iniciais para exercitar o traço e aprender a desenhar as letras e, portanto, pode concluir-se que foi escrito nos prim eiros tem pos de frequência da escola. Aliás, pelo meio, o nosso aprendiz fala também das estações do ano, com eçando pelo outono, e da “bonita” vila do Entroncam ento, aparentem ente com o um a novidade.

Num a breve análise de conteúdo, facilmente se detectam alguns dos valores: o respeito pela cadeia hierárquica, a preservação das instalações, o orgulho em integrar a “ m aior com panhia do país” a que sempre quis pertencer. Sobretudo, afirm a que está na Escola de A prendizes de sua “ livre vontade” . A peteceu-m e ir aos apontam entos procurar as célebres perguntas de M arrou295 e aplicá-las a esta fonte: se o que o autor disse foi o que quis dizer, se diz o que sente ou pelo contrário está a ser levado a dizer o que diz, se foi ele que escreveu ou se limitou a transcrever do colega do lad o ...

Deixando escoar o docum ento pelo crivo da critica, vam os deixá-lo com o pano de fundo e, a partir do questionário proposto a uma am ostra de antigos aprendizes, esboçar um retrato dos aprendizes da escola: trata-se de rapazes entre os quinze e os dezoito anos, oriundos em geral dos meios rurais do interior, na m aioria filhos de

A E sc o ia de A p ren d izes da CP

ferroviários e de domésticas, que já trabalhavam ou ainda estudavam aquando do seu ingresso na Escola de A prendizes.296 A maioria tinha como habilitações de ingresso o ciclo preparatório da escola técnica. Entraram para a Escola de Aprendizes da CP no Entroncam ento para obterem um em prego estável, obterem um a qualificação que lhes permitisse um salário melhor ou, simplesmente, para poderem estudar. N a opção pelo

□ Entroncamento T. Novas _