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4.8 Acid Flooding

5.1.3 Summary of Acid Flooding

Nesse ponto é importante questionar acerca dos níveis de condicionamentos ideológicos que sofrem as atitudes responsivas no indivíduo. Em que medida um sujeito, diante da manifestação de um discurso, faria, então, uma interpretação realmente “livre”? Até que ponto o sujeito é “achatado”, enquanto o texto é “domesticado”? (ORLANDI, 1988: 70)

Aqui, uma breve introdução à Análise do Discurso nos ajuda a entender que seus objetivos passam por procurar esclarecer os condicionamentos provocados pela ideologia, entendidos como as distorções em uma compreensão responsiva, na recepção de uma formação discursiva e suas manifestações textuais. A sociedade como um todo realiza o mesmo processo, excluindo os criminosos e os loucos em manicômios e presídios.

A ideologia é, segundo Fiorin (2001: 28), um conjunto de representações que “servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens”. É, assim, na visão marxista, uma “falsa consciência”.

Cada classe tem sua própria ideologia em uma formação social. E cada uma dessas ideologias tem a sua própria formação discursiva. Desse modo, cada sujeito, ligado que é a uma classe, identifica-se com uma determinada posição de sujeito, comprometida a uma dessas possíveis formações discursivas. Ao mesmo tempo, diz Indursky (1998: 190), o sujeito põe-se em tensão em relação às demais posições de sujeitos, ligadas a outras das formações discursivas e ideológicas da sociedade.

Dessa maneira, a discursivização acontece não no indivíduo, mas sim na classe social. É por isso que Fiorin (2001: 43) entende que o sujeito “não pensa e não fala o que quer, mas o que a realidade impõe que ele pense e fale”. Ele, em verdade, é um sujeito assujeitado, tendo a “ilusão de ser a origem do que diz”, nas palavras de Orlandi (1988: 69).

Para a concepção mais comum da Análise do Discurso, todas as formações sociais têm uma ideologia dominante. Mesmo que estejam presentes na sociedade inúmeras visões de mundo diferentes, a ideologia dominante será, evidentemente, a ideologia da classe dominante. E, assim, a formação discursiva dominante será determinada por essa ideologia e por essa classe.

Bakhtin e o seu círculo avançaram bastante os estudos da ideologia ao analisarem- na a partir de uma perspectiva dos estudos da linguagem, valendo-se do método marxista. A concepção de ideologia no Círculo de Bakhtin parte de dois principais pontos, segundo Miotello (2007: 168), com os quais dialoga, procurando superá-los. Em primeiro lugar, o círculo discorda da visão mecanicista dos teóricos marxistas que relacionam diretamente os acontecimentos nas estruturas socioeconômicas com as repercussões na ideologia. Para o Círculo de Bakhtin falta um necessário aprofundamento dos estudos da ideologia e da linguagem no ambiente teórico do marxismo.

O outro ponto de partida é o enfrentamento da perspectiva da ideologia entendida sob o psicologismo, ou seja, como sendo subjetiva/interiorizada – presente na cabeça dos sujeitos – ou idealista/psicologizada – uma ideia já dada com a qual somente é possível se defrontar.

Nenhuma dessas noções satisfez os pensadores do Círculo de Bakhtin. A ideologia, na análise da comunicação cotidiana, é tratada por eles de forma concreta e dialética, como fundamento na constituição dos signos e da própria subjetividade. Nessa direção, o pensamento bakhtiniano parte da concepção da ideologia como “falsa consciência” legitimadora do poder político, mas interpõe à questão, além da ideologia oficial – dominante14 – a ideologia do cotidiano. Essa é uma discussão que aparece em Bakhtin (2006), sendo apontada por Miotello (2007: 168).

Nesse sentido, o próprio Miotello (2007: 169) destaca que, em toda obra do círculo, apenas uma definição explícita do entendimento da ideologia é exposta. Voloshinov, no texto “Que é a linguagem”, de 1930, diz que ideologia é “todo o conjunto dos reflexos e das interpretações da realidade social e natural que tem lugar no cérebro do homem e se expressa por meio de palavras (...) ou outras formas sígnicas” (apud MIOTELLO, 2007: 169).

É ainda com base nesse entendimento que se pode afirmar a existência de uma relação dialética e dialógica entre a ideologia oficial e as ideologias do cotidiano, resultando em um determinado contexto ideológico complexo e único em cada realidade social, conforme expressa ainda Miotello (2007: 169). Essas manifestações ideológicas são vistas como expressões de tomadas de posição – por exemplo, um jornal diário que se afirma como

14 Classificar uma ideologia como dominante não parece ser muito adequado em uma perspectiva bakhtiana,

sendo preferível usar a expressão ideologia oficial. No entanto, manteremos aqui o uso dos dois nomes com o intuito de facilitar todos os diálogos teóricos que temos travado em nossa pesquisa.

defensor da livre iniciativa assume uma posição ideológica. Nas tomadas de posição valora- se o signo, arena da luta ideológica, onde se dão os combates pelo sentido e seu poder decorrente. Aqui, os signos são arrastados da polissemia inerente à linguagem e constituição da palavra à monossemia de uma ou outra formação ideológica. Desse modo, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra terá realizado uma ocupação de terra,

porque a terra é de quem produz, o que será sistematicamente chamado de invasão por parte

dos sujeitos de uma determinada perspectiva ideológica. É por isso, também, que pode ser dito que a ideologia se manifesta com base nos sentidos que são estabelecidos nos grupos sociais - nas suas relações - para objetos materiais cujas funções são pelos mesmos grupos definidas. Assim, o comunismo toma os objetos materiais da foice e do martelo para uma função ideológica, constituindo um sentido que realiza nas relações do grupo social dos comunistas. A foice e o martelo são, agora, muito mais que objetos para atividade laboral. E essa função é determinada por um lugar social e histórico, onde se situam os sujeitos e definem-se pontos de vista e valorações a todo signo que, desse modo, se caracteriza como ideológico.

Segundo Miotello (2007: 171), a ideologia, em Bakhtin, pode ser caracterizada como “a expressão, a organização e a regulação das relações histórico-materiais dos homens”. As ideologias, em uma sociedade de classes, têm interesses contraditórios, respondendo aos interesses dessas classes. Devido a isso e ao fato de que se manifestam essas contradições no signo – e no discurso –, a visão bakhtiniana implica que não existe discurso ou ideias neutros. Na sua crítica à psicologia de Freud, Bakhtin (2007) deixa claros alguns dos pontos de sua concepção acerca da ideologia. Na melhor tradição marxista, o autor defende que não se pode acreditar em qualquer ideologia porque a “ideologia mente para aquele que não é capaz de penetrar no jogo de forças materiais objetivas que se esconde por trás dela” (BAKHTIN, 2007: 78). É nesse ponto que também costumam entrar em cena as “ideologias do cotidiano”, ou “não-oficiais”, compreendendo-se que toda enunciação verbal é uma pequena construção ideológica – ou seja, não existe linguagem real desassociada de conteúdo ideológico. Para Bakhtin (2007), o

conteúdo e a composição das camadas não-oficiais da ideologia do cotidiano (...) são condicionados pela época e por uma classe tanto quanto o são as suas camadas ‘censuradas” e os sistemas da ideologia enformada (a moral, o direito, a visão de mundo) (BAKHTIN, 2007: 89).

Assim, a concepção bakhtiniana de ideologia, diz Miotello (2007: 175), defende que não é possível separar a ideologia da realidade material do signo, e este, por sua vez, não pode ser dissociado da concretude da comunicação – que não é dissociável de sua base material.

Desse modo, as leituras e as atitudes responsivas dos leitores nunca se separam de uma determinação discursiva, ideológica. “Lendo” o mundo sob a ótica de uma posição muito determinada do sujeito, no bojo de uma formação discursiva definida, o indivíduo sempre terá uma compreensão responsiva ativa comprometida ideologicamente.

Os movimentos de leitura do leitor estão condicionados à formação discursiva da qual faz parte. Para Ferreira (1998: 203), essa formação vai definir o processo de produção de sentido de determinado texto, tendo em conta a conexão da língua e da história com um sujeito colocado em função de uma ideologia.

A produção de sentido de uma leitura em um sujeito se dá em relação às seqüências discursivas internas que geram uma matriz de sentido, própria de cada formação discursiva, que vai definir o movimento de leitura. Por isso, quando se transpõe uma leitura para uma diferente formação discursiva, ela, necessariamente, produzirá um sentido diferente, já que é transposta, também, para uma matriz de sentido diferente.

O assujeitamento do indivíduo em relação aos textos se dá de maneira interessante. O sujeito é livre para determinar o(s) sentido(s) de suas leituras. Mas estes sentidos autorizados são poucos; alguns e outros não. Além disso, mantém-se a exigência de não-contradição em relação ao discurso oficial, um verdadeiro assujeitamento do saber (ORLANDI, 2001).

Pode-se daí concluir que não seria possível uma compreensão/atitude responsiva ativa subjetiva por parte do sujeito. Bakhtin (1990: 91) afirma que as relações dialógicas do discurso do outro no objeto do enunciado e na resposta antecipada que esse enunciado supõe interferem decisivamente no interlocutor, “procurando afetar e destruir o fundo aperceptivo de sua compreensão ativa”. Sua compreensão estará cada vez mais condicionada à medida que seja mais intensa sua relação com a formação discursiva, imposta por sua identidade como sujeito social.

O confronto de relações sócio-históricas fundadas e permeadas por relações de poder constrói os sentidos de uma leitura, tudo isso dentro de organização institucional que

autoriza os discursos. Desse modo, a construção de sentidos se realiza em um processo lingüístico e histórico que acontece em um processo social em que os sujeitos determinam e são determinados. Nesse sentido, segundo Ferreira (1998: 208), a “leitura é um processo de desvelamento e de construção de sentidos por um sujeito determinado, circunscrito a determinadas condições sócio-históricas”.

No entanto, a incursão por rotas de leituras polissêmicas, com sentidos construídos com base em livres interpretações, está permanentemente bloqueada em nível institucional. Qualquer tentativa de iniciativa nessa direção, qualquer ultrapassagem da leitura parafrástica será logo classificada como heresia. Diz Foucault (2008b: 42 – 43) que a doutrina, uma forma de manifestação de poder discursivo, questiona o sujeito que fala através e a partir do enunciado, excluindo e rejeitando os sujeitos que falam enunciados inassimiláveis pelo discurso. E isso é assim porque quem tem o poder, em sua fala define o limite do dizível, a ortodoxia e a doutrina, que assim afirmada, sujeita os indivíduos.