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Ao participar do serviço voluntário, Doroty serve e é suprida em suas necessidades de dar e de receber afeto e reconhecimento. Ocorrem transformações em sua vida que indicam uma mudança no enfrentamento de seus problemas, sendo que ela passa de uma postura passiva para uma ativa.

Doroty vivencia experiências de autenticidade e ao exercitar a iniciativa, a confiança e a autonomia, mostra que superou os desafios que se apresentam nesse momento da sua vida.

As experiências de mutualidade expressas de forma direta e original, conforme Amatuzzi (1989)99, evidenciam que Doroty vive autenticamente. Ela pode gerar novos sentidos para seu cotidiano e renovar a estrutura na qual ela e seus filhos estavam inseridos. Agindo como protagonista da própria historia, Doroty, entre outras coisas, “assumiu a responsabilidade pelo seu sustento e

de seus filhos indo trabalhar como recepcionista”.

Relacionando-se com as pessoas ao servir como voluntária, Doroty fortalece os vínculos na relação “do eu com o você”, que segundo Moffatt (1982)100, se manifestam na ação amorosa entendida como “palavra, gesto, abraço, e em geral todo o tipo de comportamento (p. 48)”.

99 Mauro Martins AMATUZZI, O Resgate da Fala Autêntica, Filosofia de Psicoterapia e da Educação, p.

182.

Na relação eu-você, nesta mutualidade, Doroty, comunica partes próprias e recebe partes do outro nela, e a autenticidade garante que mantenha a própria identidade, não misturando e nem confundindo os seus sentimentos com os demais.

Doroty reconhece-se na experiência de si mesma, torna-se sujeito da própria vida ao afirmar-se perante si própria e perante o mundo (TRINCA, 2007)101, em outras palavras, é autêntica.

As experiências vivenciadas por Doroty no voluntariado expressam a riqueza da sua vida interior. Estando em harmonia consigo mesma ela pôde estabelecer ligações significativas com as pessoas e com o ambiente e através delas expressar a alegria de viver.

Enfim, pode-se inferir que ao servir, Doroty experimenta a vida como um bem e o existir como uma alegria. De fato, ela declara que “sente alegria ao servir” e percebe que ao se relacionar com as pessoas, em seu íntimo está

relacionada consigo mesma e com Jesus que lhe dá sentido.

Os vínculos estabelecidos por Doroty, para além do circulo familiar, na relação eu-você, encontram eco em Fowler, (1992)102 que ao descrever o

estágio da Fé Sintético-Convencional informa que neste caso, mudanças na vida da pessoa são possíveis, e a causa que as move está localizada fora dela.

“Reside nos “eles” interpessoalmente disponíveis e também nas pessoas incumbidas de papéis de liderança em instituições (p. 132)”. A autenticidade

manifesta-se neste caso na capacidade de dialogar, de fazer escolhas e de assumir compromissos.

101 Walter TRINCA, O Ser Interior na Psicanálise: fundamentos, modelos e processos, p. 23.

102 James W. FOWLER, Estágios da Fé. A psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido,

Suprida, Doroty começa a contribuir com o grupo e coloca nele a sua disposição para servir. Seu viver torna-se autêntico e ele se amplia nas disposições ensinadas por Jesus para servir que, anteriormente, dirigia apenas a sua família. Ela re-significa a cultura e os valores do catolicismo e passa a dar seu testemunho, a dialogar e a anunciar os valores do Evangelho.

Fowler (1992)103 informa que, quando o outro significativo é Deus, o comprometimento com Ele, pode exercer um poderoso efeito ordenador sobre a identidade. Neste sentido, na relação com o outro, Doroty, “compreende as suas experiências a partir de uma perspectiva cristã”, expressas na humildade,

doação de si, gratuidade, amor a todos, não discriminação e servir a Deus servindo ao próximo.

A atitude de servir de Doroty passa a ocorrer na relação eu-mundo, conforme Moffatt (1982)104, na estrutura que lhe deu sustentação para

“desenvolver-se e aprender por meio do trabalho voluntário”.

Doroty dá-se conta do que faz ao servir e é capaz de falar sobre a sua experiência no ato mesmo em que a vivência ocorre. Conforme Amatuzzi (1989)105 a autenticidade alcança seu maior nível de “integração no momento em que a vivência ocorre no ato do reconhecimento”, o que caracteriza o viver

autêntico.

O gesto significativo para Doroty, ou seja, o ato de servir segue à fala e dá-se na mesma intenção, tornando-se também palavra e às vezes substituindo a própria palavra. A atitude externa no serviço voluntário, a concretização das disposições deixadas por Jesus e a atitude interna de

103 James W. FOWLER, Estágios da Fé. A psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido,

p. 132.

104 Alfredo MOFFATT, Terapia de Crise, teoria temporal do psiquismo, p. 48.

105 Mauro Martins AMATUZZI, O Resgate da Fala Autêntica, Filosofia de Psicoterapia e da Educação, p.

Doroty, a apropriação dos valores cristãos, se unem e expressam o seu viver autêntico. Como diz Amatuzzi (1989)106 “sua palavra é ato e o ato é sua palavra”.

O viver de Doroty é autêntico, e o servir é expressão da sua identificação com as disposições exercidas no Santuário, na medida em que ela os integra em sua vida e os coloca em prática.

O viver é autêntico ao recuperar as disposições cristãs que motivam o serviço voluntário e respondam a elas como um todo (AMATUZZI, 1989)107.

Doroty busca conduzir as vivências das pessoas com que se relaciona no Santuário, da inautenticidade para a autenticidade.

A proposta de compreender em uma perspectiva fenomenológica os sentidos da experiência do trabalho dos voluntários em uma instituição religiosa, para quem os executa, apresentou-se como desafio.

106 Mauro Martins AMATUZZI, O Resgate da Fala Autêntica, Filosofia de Psicoterapia e da Educação, p.

187.

Capítulo VI

Conclusão