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5. Results

5.3 Summary

No que se refere à pesquisa de recepção, como mencionado, foram selecionados os quatro capítulos iniciais de Amor e Revolução, exibidos pelo SBT no período de 5 a 8 de abril de 2011. Essa amostra constitui a primeira semana de exibição dessa telenovela e compõe uma sequência de acontecimentos e uma unidade de sentido (unidade dramática).

Os capítulos tornam conhecidos os personagens e seus conflitos (seus dramas, paixões, valores, caráter, círculo familiar, profissional, amizades), apresentam os principais temas abordados ao longo da telenovela (ditadura, amor, engajamento político, liberdade de expressão, direitos humanos, feminismo, liberação sexual) e o tom da trama.

Essa sequência remete ainda a acontecimentos sobre a Ditadura narrados nos relatos históricos e na memória coletiva, e, simula uma reconstrução do passado de modo didático ao encadear datas e fatos mais conhecidos sobre o período; como as manifestações estudantis e sindicais antes da tomada do poder e discursos do presidente João Goulart.

O programa era exibido na faixa das 22hs, um horário pouco propício tanto para a pesquisadora quanto para os colaboradores, além disso, seria complicado comparar as assistências dos capítulos se a pesquisa fosse feita individualmente. Atividade que requereria o trabalho de vários pesquisadores. Assim, como alternativa metodológica, decidimos gravar os capítulos e assistir juntamente com o entrevistado no período que ele considerasse mais conveniente, em dias alternados e sem intervalos.

A sequência de capítulos utilizada foi escolhida tanto devido a sua tentativa de reconstituir o início da Ditadura quanto pela narrativa ter como protagonistas militares e militantes, e remontar também os aspectos subjetivos desses atores sociais em relação a suas orientações políticas, como as relações familiares e os valores que poderiam ser espaço para debater essa textura da lembrança.

O produto de ficção audiovisual poderia ser outro, como filme, porém consideramos ainda que quatro encontros possibilitariam estabelecer uma relação de familiaridade, de modo a deixar o entrevistado mais à vontade para falar; além de propiciar uma a observação das camadas da recordação, dos discursos repetidos e das contradições.

Outra questão observada quanto à organização da assistência é que, atualmente, com a multiplicidade de telas e a disposição de conteúdos audiovisuais em diversas mídias, a

recepção fica cada vez mais a critério do espectador. Tomando como exemplo a telenovela, produto utilizado nessa pesquisa, observamos que a audiência já não é mais coagida a assistir esse programa no horário em que a transmissão televisiva ocorre, pois as emissoras criaram sites oficiais para esses produtos, onde os capítulos são disponibilizados em trechos ou de modo completo, como ocorreu, inclusive, com a telenovela Amor e Revolução.

Os capítulos também são lançados em sites de fãs e redes de vídeos, como o Vimeo e o

YouTube. E nos sites oficiais, além dos vídeos, são postadas curiosidades sobre os bastidores

e resumos com trechos escritos das cenas. Surgem também outras possibilidades de se ver esse produto, como no caso de uma nova categoria de mídia móvel instalada nas linhas de ônibus da cidade de São Paulo, onde telenovelas da Rede Globo são exibidas8.

Com a disponibilidade dos conteúdos outra possibilidade de assistência é a recepção fragmentada. Situação na qual o emissor escolhe ver apenas os trechos que lhe interessam daquela narrativa. Esse tipo de recepção já existia com o zapping televisivo, mas com os produtos acessíveis em rede, ele não precisa mais perder tempo mudando de canal.

Essas mudanças instauram novas formas de ver e novos contextos para a recepção, o que nesse estudo consiste em uma alternativa metodológica (a assistência aparecendo deslocada do momento de emissão) hoje, já é uma prática de recepção adotada por parte da audiência.

Com essa delimitação metodológica, observamos que o cotidiano ficou ausente, pois a iniciativa de assistir a telenovela não partiu do sujeito. O pesquisador não está apenas acompanhando uma prática social do receptor, mas organizando a situação em que a recepção ocorre. Por isso, utilizamos o conceito de recepção assistida para referir-se a configuração da pesquisa e assistência para aludir aos encontros nos quais assistimos os capítulos da telenovela com os colaboradores.

Dizer que recepção é assistida significa dizer que a forma como foi organizada a pesquisa de recepção teve um controle do pesquisador e não ocorreu necessariamente com a mesma dinâmica que aconteceria no cotidiano do sujeito.

Seguindo o pensamento de Orozco Goméz (1996), sustentamos que esse é um estudo de recepção, pois o processo receptivo não se resume ao momento de estar em frente à tela (ou meio de comunicação), mas antecede e sucede, pois é atravessado por um continuum de relações sociais e temporalidades distintas que estão incrustadas em modos de ver, sentir, pensar e lembrar.

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Ver ARRUDA, N. Telas em toda parte: um novo lugar de pesquisa da recepção da telenovela brasileira. In: Anais do XI Congreso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación. Montevideo: ALAIC, 2012.

Entendemos a recepção como um espaço de interação e um processo de negociação de sentidos em que o sujeito aceita, nega, modifica ou ressignifica o que é representado pela mídia, por meio de outras lógicas – onde estão inscritas suas vivências, cultura, grupos de referência e também a memória.

Ainda tomando por base Lopes, Borelli e Resende (2002), compreendemos que a mensagem da narrativa audiovisual é reapropriada várias vezes, além do momento de sua emissão.

A recepção é parte tanto de processos subjetivos quanto objetivos, de processos micro, controlados pelo sujeito, e macro, relativos a estruturas sociais e relações de poder que fogem ao seu controle. [...] não é um processo redutível ao psicológico e ao cotidiano, apesar de ancorar-se nessas esferas, mas é profundamente cultural e política (LOPES; BORELLI; RESENDE, 2002, p.14, 32).

Embora, o cotidiano esteja ausente na recepção assistida, é possível analisar a construção do sentido na recepção (e nesse caso, a conformação da memória) a partir de outras esferas como as vivências do sujeito e as instituições sociais das quais ele participa e utiliza como lugares de representação do passado e fontes de categorias para se pensar esse passado, como a família, o grupo de militância e a academia. Estruturas e relações sociais das quais ele faz parte e perpassam o antes e o depois da assistência.