A música se faz presente no cotidiano dos pais dos integrantes da banda principalmente pela sua veiculação no rádio e pelo convívio com as atividades musicais dos filhos que participam da banda. “Lá em casa de segunda a segunda é música direto, de uma maneira ou outra meu filho pratica música. A gente ouve música no rádio direto. Eu acho que a música hoje faz parte de onde tu estiveres” (PAIS). A fala deste pai descreve uma situação
muito comum a todos os demais, eles buscam incentivar os seus filhos na prática musical permanecendo na posição de ouvintes e observadores atentos. Este incentivo faz com que eles se deparem com relações e conhecimentos novos trazidos pelos próprios filhos para dentro do convívio familiar de forma que é promovido um diálogo entre as representações e identidades musicais de todos. A compreensão que cada sujeito tem de si está relacionada com a compreensão que cada um tem dos outros com os quais convive e interage e também da
compreensão que estes têm do sujeito em questão. Esta rede de interações e conhecimentos envolve necessariamente as identidades dos sujeitos e as representações constituídas no contexto, isto é, “a problemática da identidade provavelmente não pode prescindir da noção de representação. Em certo sentido, é exatamente esta noção que nos permite compreender as distâncias que o indivíduo percebe entre o grupo e ele mesmo”. (DESCHAMPS; MOLINER, 2009, p. 79). Este processo relacional de identidades que estabelecem semelhanças e diferenças é que dinamiza as representações de música e promovem aproximações e afastamentos entre os sujeitos interagentes.
Dentre todos os pais entrevistados, apenas um deles relatou que em algumas situações se envolve com a música de uma forma mais prática. “Até num bar, num aniversário toco um pandeiro, acompanho uma gaita. Isso o meu pai sempre fez, ele e o amigo dele tocavam gaita e cantava muito bem o pai; eu cantar assim não consigo” (PAIS). Este relato aponta para
uma memória de infância compartilhada pelos entrevistados em que a música era sempre executada por parentes e demais pessoas da comunidade tanto em reuniões familiares como em festas e bailes locais. Entretanto, por falta de incentivo e de meios de acesso, eles nunca aprenderam a tocar algum instrumento. O grupo de pais aponta como um dos motivos pelo pouco envolvimento com a prática musical a ausência do ensino de música nos seus tempos de escola: “na verdade é assim, na nossa época na escola não tinha oportunidade e agora
eles têm oportunidade de estar estudando música” (PAIS). O fato de a escola possibilitar o
ensino de música nos dias de hoje não é apenas visto como uma responsabilidade da instituição, mas uma responsabilidade deles em apoiar e incentivar os filhos a participarem.
Somando-se a ausência da música na escola os pais também apontam a falta de incentivo da própria família; “faltou essa propriedade da gente cantar junto, aprender, mas eu acho que por causa de nossos pais”. A realidade social e econômica destas famílias que se
dedicaram a alcançar certa estabilidade financeira capaz de nos dias de hoje desfrutarem de certo conforto não permitiu naquela época o investimento também na aquisição de instrumentos musicais desejados por eles. “Se passava na vitrine e olhava aquele preço lá era de arrepiar que nós mal e mal tínhamos pra comer” (PAIS). Somado a dificuldade de ter um
aprendizado musical, as condições financeiras da época não permitiam a aquisição de um instrumento musical para poder ‘tocar’ música. “Só tinha aqueles ‘tocador’ num canto aqui e
no outro, não sei como eles aprenderam talvez por si só ou não”. Por isso, todos os pais
como forma de oferecer a eles a oportunidade que eles não tiveram e que agora está disposta na escola e em outros tantos meios de acesso como a internet.
Daí meu pai sempre dizia, olhava pra uma gaita e dizia ‘se soubesse tocar gaita eu vendia meus cavalos, a carroça porque eu sei que isso eu conseguia de novo, mas um acordeom desses nunca mais. Hoje em dia não, queres fazer aula de qualquer instrumento, se tu não sabes, tu acessas a internet e tem tal, tal e tal. Tem as escolas particulares. A facilidade hoje em dia é maior por isso que nós pais temos que aproveitar e incentivar nossos filhos a oportunidade (PAIS).
Outra observação que os pais fazem acerca de seu pouco envolvimento com a prática musical é que, comparando suas rotinas de vida atual com as dos pais e avós eles afirmam que
“antigamente o pessoal tinha mais tempo pra essas coisas assim. Mesmo que não tinha aula, tanto conhecimento, tantos instrumentos, eles tinham mais aquele tempo pra música” (PAIS).
Esta afirmação descreve uma ruptura com valores e modos de vida aceitos pela geração dos seus antepassados que agora, para os entrevistados, não são mais possíveis. “Eles faziam uma
tarde dançante, domingo à tarde vinham os gaiteiros, aquele pessoal tocava gaita e dançavam. Era uma cultura que foi quebrada com o tempo”. A presença da música na vida
desses pais contribuiu de forma significativa para que eles pudessem ter uma compreensão comum e individual do mundo no qual estão inseridos, pois, segundo Jovchelovitch (2011) os “sujeitos sociais lutam para dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar, através de uma identidade social” (p. 54). Esta luta se reflete na vida destes pais através do reconhecimento da herança de tradições e de crenças musicais presente nas suas infâncias, mas que de alguma forma se perderam ao longo de suas vidas e que agora, de forma insistente, buscam proporcionar aos filhos.
À medida que os pais necessitaram assumir novas responsabilidades e novos papéis sociais que lhes impediram de se relacionar com a música de forma igual à vivida quando crianças, suas representações de música e seus processos de identificação musical construídas socialmente foram se transformando. Entretanto, para eles, a grande expectativa é a de que os filhos possam se identificar com suas expectativas passadas e que parecem ser resgatadas por meio das atividades da Banda Escolar do Vale. As identidades e as representações de música dispostas não só nestas relações familiares, mas em todas aquelas que foram aqui apresentadas passam a dialogar “em movimentos de subjetivação-objetivação, de apropriação e de criação, (re)criação, onde a vida se dá e os sujeitos se fazem sujeitos, sempre em espaços e processos, tempos, aprendizagens, mediados semioticamente na cultura (WAZLAWICK; MAHEIRIE, 2009, p. 111). Esta dinâmica de relações apontadas pelas autoras mostra o quanto as identidades musicais dos sujeitos e as representações sociais de música em um
determinado contexto apresentam um profunda incompletude que os mobiliza em busca da estabilidade como do movimento que transforma a realidade até então compreendida e apropriada.