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Summary and conclusions

«No Brasil é indubitável a existência da icterícia epidêmica», escreveu em setembro de 1917 Henrique de Beaurepaire Aragão, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). O trabalho de Noguchi viera a lume em maio e já repercutira, assim como os de Stokes, Rile e Tyle, Martin e Pettit e outros, prova de que se formara densa comunidade de pares naquele campo promissor de investigação.

6Junto com os gêneros Leptonema e Turneria, Leptospira é membro da família Leptos-

piraceae. O gênero Leptospira compreende vinte espécies, das quais nove são patogênicas: L. interrogans, L. kirschneri, L. noguchii, L. alexanderi, L. weilii, L. genomospecies 1, L. borgpe- tersenii, L. santarosai e L kmetyi. V. a esse respeito «Leptospira», em http://en.wikipedia.

Affonso Mac-Dowell, médico que fizera estudos de aperfeiçoamento no IOC, reconhecera, clinicamente, um surto de icterícia epidêmica em Belém, em fins de 1911 (Rezende et al. 1997, 507-508), publicando traba- lho a esse respeito em Archivos Brasileiros de Medicina (Mac-Dowell 1917). Em comunicação à Sociedade Brasileira de Ciências, Alfredo Augusto da Matta (1919), presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Amazonas assegurou que vinham ocorrendo casos em Manaus desde 1907. Mac-Dowell candidatou-se à cátedra de clínica médica na Facul- dade de Medicina do Rio de Janeiro com Novas espiroquetoses humanas (Mac-Dowell 1919). Segundo resenha publicada em o Brazil-Médico,7«ul-

timamente, o assunto despertou tal interesse nos centros médicos, e tem dado lugar a tantas e tão variadas pesquisas e produzido descobertas tão curiosas que abriu um campo novo nos domínios da clínica, onde é licito esperar uma abundante colheita de benefícios para a humanidade sofre- dora». Mac-Dowell atribuíra a um doutorando de medicina, J. Ausier Bentes (1917), a investigação da espiroquetose ictero-hemorrágica (doença de Weil) como objeto de tese. Outros resultados seriam relatados na tese de doutoramento do médico pernambucano Aggeu Magalhães (Magalhães 1920).

No Instituto Oswaldo Cruz, Henrique de Beaurepaire Aragão inves- tigava «a existência ou não do vírus nos nossos ratos comuns (Mus nor- vegicus)». No mencionado artigo, demonstrava «a presença entre nós do Spirochaeta icterohemorrhagiae, do Spirochaeta nodosa dos autores alemães, ou, admitindo-se a criação de um novo gênero, como propõe Noguchi, do Leptospira icterohaemorrhagiae. A existência de casos humanos da icte- rícia contagiosa no Brasil está posta fora de toda dúvida» (Aragão 1917). A tese de concurso de Mac-Dowell (1919), com «numerosas gravuras obtidas da coleção Noguchi», continha análise abrangente sobre o estado da arte naquela questão. Apresentava espiroquetoses antigas, como a sí- filis, e as recém-descobertas e já identificadas no Brasil: a ictero-hemor- rágica (Pará), a febre recorrente (São Paulo) e o Sodoku ou febre morsus muris (Paraná e Rio de Janeiro). Inventariava também estados mórbidos malconhecidos cuja etiologia era agora hipoteticamente atribuída a espi- roquetas: as leucemias, a moléstia de Hanot e várias febres de origem obscura. O autor analisava os resultados até então conseguidos de um lado, com os arsenicais, de outro, com a soroterapia.

A preocupação com as doenças associadas às migrações de japoneses para o Brasil trouxe para cá Mikinosuke Miyajima, principal mediador

do intercâmbio científico entre Japão e América naquela conjuntura (Benchimol et al. 2009). Em conferência na Sociedade de Medicina e Ci- rurgia de São Paulo, em 15 de março de 1919, sobre as pesquisas feitas no Japão a propósito dos Spirochaeta associados à doença de Weil e ao Sodoku, o zoólogo japonês declarou que lhe parecia «provável [...] haver identidade entre um e outro germe» (Miyajima 1919, 125).

Conhecido há séculos na Índia, no Japão e na China, o adoecimento após mordedura de rato só ganhou status de entidade clínica após a pu- blicação na Alemanha, em 1902, do trabalho de Hayari Miyake, da Es- cola Médica de Fukuoka (Suckow, Weisbroth e Franklin 2006, 344). So- doku, que significa «veneno de rato», foi o nome que atribuiu à febre ou infecção conhecida também como Rattenbisskrankheit ou rat-bite fever. Em 1915, K. Futaki e colaboradores, na Universidade de Tóquio, identifica- ram um espiroqueta em suas vítimas (Futaki et al. 1916). A literatura da época faz referência a Spirochaeta morsus muris, Spirillum minor, Spirochaeta laverani, Spironema minor, Leptospira morsus minor, Spirochaeta muris e Spi- rochaeta petit – nomes posteriormente considerados sinônimos de Spiril- lum minus, a única espécie hoje reconhecida taxonomicamente. Segundo Suckow, Ehrlich usou o sistema camundongo-S. minus nas experiências que levaram ao desenvolvimento do Salvarsan (Suckow, Weisbroth e Franklin 2006, 375), o quimioterápico que revolucionou o tratamento da sífilis humana, tendo sido usado por Sahachiro Hata no tratamento do Sodoku (Hata 1912, 854-857).

Adolf Alfred Louis George Hugo Schottmüller relacionou a febre da mordida do rato também ao Streptobacillus moniliformis. Teve início então uma controvérsia quanto à verdadeira causa da doença que se prolongaria por três décadas, até a admissão de que ambos os micro-organismos cau- sam síndromes febris similares (Suckow, Weisbroth e Franklin 2006, 344- -345).

A etiologia era portanto obscura ainda quando foi publicada a pri- meira descrição no Brasil de um caso «da moléstia sokodú [sic] (Rattenbiss - krankheit)», por Carlos Chagas (1915, 217-220).

Em 15 de maio de 1919,8o dr. Luna Freire transmitiu à Academia

Nacional de Medicina o pedido de Auguste Pettit, do Instituto Pasteur de Paris, concernente à «moléstia japonesa» ou espiroquetose ictero-he- morrágica: estava convencido de que no Brasil era muitas vezes diagnos- ticada como febre amarela, dadas as semelhanças dos sintomas das duas doenças. Pettit pedia a comunicação de qualquer resultado aqui obtido.

Diga-se de passagem, que na França, Legrain — provavelmente Paul-Mau- rice Legrain — chamava a icterícia epidêmica de «febre amarela nostra».9

Theopilo Torres, diretor-geral de Saúde Pública, informou que já enviara um médico ao Ceará, onde irrompera a febre amarela, com a missão de investigar a icterícia ictero-hemorrágica. Segundo Miguel Couto, presi- dente da Academia, doentes com suspeita da doença internados na Santa Casa vinham sendo objeto de cuidadosas investigações laboratoriais.10

Em sua tese de concurso, Mac-Dowell (1919) se ocupava da febre amarela, pois julgava que fosse também causada por um espiroqueta. Por isso endossava o tratamento proposto por Aragão (1917), outro adepto daquela hipótese: injeções dos novos produtos arsenicais (Salvarsan, Neo- salvarsan, etc.) em doses maciças, nos três primeiros dias de infecção.

No artigo de 1916, Inada e colaboradores discutiam o diagnóstico di- ferencial entre doença de Weil, febre recorrente com icterícia, febre tifóide e icterícia catarral. Sobre a febre amarela, tinham apenas descrições co- lhidas na literatura.

Alguns anos atrás Nishi identificou a doença de Weil com a febre amarela, mas a ele se opôs Ohno. Nós também enfatizamos as diferenças do ponto de vista epidemiológico entre febre amarela e doença de Weil, embora os sintomas sejam muito parecidos. O veneno na doença de Weil é às vezes capaz de atravessar um filtro de Berkefeld, como o da febre amarela, e as causas microbianas de ambas as doenças só estão presentes no sangue no estádio inicial da doença. Ambas são prevalentes em bai- xadas. A febre amarela, porém, é transmitida ao homem pelo mosquito Stegomyia, enquanto não existe até o presente prova de que a doença de Weil seja transmitida pela picada de um inseto (Inada et al. 1916, 379).